Foto: La Jornada/Victor Camacho

Zapatistas indicam mulher indígena para a presidência do México

“Que a terra trema em sem núcleo…” foi o título do anúncio. E, de fato, a notícia veio como um terremoto – e não apenas para a política mexicana.

Por Leonidas Oikonomakis*

O movimento foi inesperado e, ao lado de um balanço sobre a política mexicana, abalou a própria percepção que tínhamos do zapatismo até hoje.

No final da reunião para o vigésimo aniversário do Congresso Nacional Indígena (CNI), composta por representantes de etnias indígenas do México, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e a CNI anunciaram que irão apresentar uma mulher indígena como sua candidata para as eleições presidenciais no México em 2018. A escolhida ainda não foi nomeada, bem como a proposta por trás da campanha ainda deve ser debatida nas assembleias dos diversos grupos étnicos que fazem parte da CNI, mas a notícia é enorme e inesperada.

O anúncio brilha como uma luz sobre as destruições que o sistema capitalista operou no ambiente em que a maioria das comunidades indígenas vivem: a privatização dos recursos naturais comuns, a imposição da mineração, o eco-turismo, além dos mega-projetos hidrelétricos e a construção de rodovias e aeroportos em terras comunais indígenas.

Considerando o que foi exposto, nos declaramos em estado de assembleia permanente e vamos consultar todos os grupos, territórios e vizinhança para o nosso acordo deste Quinto Congresso Nacional Indígena, em que pretendemos nomear uma mulher indígena para a candidatura de presidência em nome do CNI e do EZLN no processo eleitoral do ano de 2018.

Confirmamos que a nossa luta não é para ter o poder; não estamos procurando por ele, mas sim convidando os povos indígenas e da sociedade civil para nos organizarmos, a fim de impedir essa destruição, para nos fortalecer em nossa resistência e rebelião, em defesa da vida de cada pessoa, família, coletivo, comunidade e vizinhança.

Foto: Reprodução/Google
Foto: Reprodução/Google

Eleições?

O anúncio também balançou apoiantes zapatistas em todo o mundo – e as reações foram muito diversas. Andrés Manuel López Obrador (AMLO), líder do partido de oposição Morena e ex-líder do PRD, escreveu em seu Twitter:

Em 2006, o EZLN foi o “ovo da serpente”. Depois disso, se tornou “radical”, pedindo para o povo não votar. E agora, eles apresentam um candidato independente.

AMLO, como é conhecido no México, se refere às eleições de 2006 em que ele era o candidato do PRD e perdeu por uma margem estreita. Ele acusou o governo de fraude eleitoral – o subcomandante Marcos do EZLN concordou que as eleições não foram justas e que o AMLO foi o vencedor real. Os zapatistas não votaram nesta eleição – muito pelo contrário: eles criticaram a candidatura de AMLO, apresentando-o como parte do mesmo sistema político corrupto.

Em vez disso, os zapatistas iniciaram a Outra Campanha, uma campanha não-eleitoral que teve como objetivo reunir as organizações anti-capitalistas em todo o país e criar uma rede de movimentos de resistência ao neo-liberalismo, que irá promover a autonomia das comunidades locais como uma questão política fundamental. AMLO e outros esquerdistas mexicanos, no entanto, acusaram os zapatistas de indiretamente “facilitar” a vitória do PAN nessas eleições.

É o mesmo argumento que AMLO faz agora contra a nova proposta Zapatista-CNI: que serve o governo, uma vez que irá dividir a oposição (e, claro, privá-lo de votos também).

Outros no México falam sobre um retorno que seja inconsistente com o que os zapatistas têm defendido ao longo da última década: a desconfiança na via eleitoral para a mudança social e ao poder do Estado em geral. Muitos apoiadores internacionais do zapatismo também foram surpreendidos – alguns positivamente, outros negativamente – e estão tentando interpretar a última jogada do EZLN e da CNI como um movimento tático.

Movimento tático?

A verdade é que nenhum de nós viu isso acontecer. E não previmos isso, pela simples razão de que os zapatistas, desde a sua primeira aparição pública em 1 de janeiro de 1994, têm sido extremamente desconfiados sobre o processo eleitoral. É exatamente por isso que eles escolheram a via da revolução em 1994, e no caminho não-estatal da autonomia, mais tarde, abstendo-se de qualquer relação com o estado desde então.

No entanto, deve-se notar que esta não é a primeira vez que o EZLN vota em um candidato nas eleições. Isso já aconteceu antes: nas eleições locais de 1994, quando apoiou a candidatura do advogado e jornalista Amado Avendaño Figueroa para o governo de Chiapas, ironicamente sob a bandeira do PRD.

Poucos dias antes das eleições, houve uma tentativa de assassinato contra Amado Avendaño que custou a vida de três dos seus seguidores. No final, ele perdeu as eleições e considerou o processo como fraude. Afinal, ele foi declarado – e permaneceu como conhecido assim – como o “regulador da rebelião” pelo EZLN. No entanto, mesmo nesse precedente, o objetivo não era a conquista do poder regional. De acordo com uma entrevista com o próprio Avendaño anos mais tarde:

[Os zapatistas não querem que eu seja] um governador comum, mas sim um governador-em-transição, apenas até fazer a transição… O que significa: você vai participar nas eleições, vencerá, vai chamar uma assembleia constituinte, apresentar um projeto constitucional que será modificado, aprovado, ou qualquer outra coisa que seja, e quando isso acabar, convocará novas eleições. Para o vencedor, você vai passar o bastão e voltar pra sua casa. Perfeito [Eu disse], dessa forma, sim, eu participo”

Esse foi o acordo entre os zapatistas com Avendaño na época, em suas próprias palavras. Pode-se, portanto, argumentar que, em 1994, o apoio de um candidato nas eleições locais foi simplesmente um meio para um fim diferente.

Com base nesta experiência passada, poderíamos suspeitar que a participação proposta nas eleições presidenciais de 2018 podem voltar a ser um meio para um fim.

*Artigo traduzido por Francisco Toledo, da Agência Democratize, escrito originalmente na ROAR Mag

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