Querido Estados Unidos. O Carnaval, maior festa popular e democrática do meu país acabou, portanto agora posso perder algum tempo do meu…

Uma carta aberta aos Estados Unidos

Uma carta aberta aos Estados UnidosQuerido Estados Unidos. O Carnaval, maior festa popular e democrática do meu país acabou, portanto agora posso perder algum tempo do meu…


Uma carta aberta aos Estados Unidos

Foto: Reprodução/Huffpost

Querido Estados Unidos. O Carnaval, maior festa popular e democrática do meu país acabou, portanto agora posso perder algum tempo do meu dia escrevendo para vocês.

Assim como muitos amigos e compatriotas, cresci em um país de terceiro mundo acreditando que os Estados Unidos era não só uma nação acolhedora, como também uma terra de sonhos. Lembro que quase todo domingo ligávamos a TV em casa e acabávamos assistindo algum filme como O Pai da Noiva, onde Steve Martin vivia em sua linda casa de classe média americana, dando duro para conseguir retribuir o amor de sua esposa e família. E a comida? Meus pais me levavam pelo menos uma vez por semana no McDonald’s, e eu só conseguia pensar: “Cara, que sensacional deve ser a vida das crianças por lá, podendo comer no fast food quando quisessem”. O que eu não poderia imaginar é que, quando crescesse, toda essa percepção que eu tinha dos Estados Unidos acabaria mudando drasticamente.

Não é segredo pra ninguém vocês estarem passando por alguns problemas. Existe uma crise de identificação política tão grave no seu país que vocês estão prestes a colocar um homem como Donald Trump nas eleições gerais para presidência dos Estados Unidos. A desigualdade social nunca foi tão absurda na terra do Tio Sam, atingindo números comparáveis com a Grande Depressão pós-1929. E a segurança? Nem se fala. Um jovem negro e pobre nos Estados Unidos infelizmente não tem o mesmo “direito meritocrático” que um jovem branco de classe média por aí, já que geralmente em algum momento da sua vida ele pode ser abordado por policiais e ser assassinado, como vários casos que chegaram aos olhos do mundo entre 2014 e 2015.

Quando comecei a criar consciência política e social, foi impossível não refletir: “Por que? Por que os Estados Unidos são tão ferrados e vendem uma imagem completamente diferente para nós? Por que países como a Dinamarca e Suécia são tão prósperos e seguros, enquanto os Estados Unidos continuam em queda livre, matando sua juventude negra e pobre enquanto o governo resgata os bancos com um pacote bilionário como em 2008?”

No passado, eu tinha muitas teorias sobre como funciona a economia do seu país, o sistema bipartidário, etc. Mas recentemente cheguei a uma conclusão. Muita gente provavelmente vai achar essa minha conclusão meio ofensiva, mas depois de ser bombardeado desde a minha infância com tanta americanização, tomei coragem a dividir o que eu acho com todos os gringos.

Então ai vai: você é carente.

Sim, vocês são carentes pra caralho.

Sim, você mesmo que está lendo esse texto. E a sua carência faz parte desse problema. Acredite, não acho que isso seja proposital, mas a sua carência é tão grave que perpetua o problema todos os dias.

Não. A culpa não é só do Partido Democrata ou dos republicanos de extrema-direita que desejam linchar imigrantes ilegais dentro do pais. Não é só culpa das suas multinacionais que destroem o meio ambiente de países subdesenvolvidos pagando salários pífios para trabalhadores estrangeiros.

O problema é a porra dessa sua carência, que faz parte da sua cultura. A fundação do seu país é responsável pela criação de várias gerações de pessoas carentes por atenção. Essa mentalidade consumista, uma verdadeira crença ou até mesmo religião, que chega ao ponto de querer comercializar toda maldita data festiva do seu país.

O problema é tudo aquilo que você e todo mundo a sua volta decidiu aceitar como parte do “sonho americano” mesmo que isso não esteja certo.

Quer um exemplo?

Imagine que você é dono do Starbucks. Os negócios estão muito lucrativos, principalmente quando você enfim derrotou a concorrência de uma loja de café russa, que atrapalhava o crescimento da sua rede de lojas, influenciando outros consumidores de que seu produto é desigual, oferecendo café relativamente bom, mas caro demais. Agora a vida é mil maravilhas, ninguém mais pode te segurar. De repente, tarde da noite, uma de suas lojas é vandalizada por radicais ignorantes que não suportam café gourmet.

No dia seguinte, você ouve um monte de funcionários e consumidores exigindo uma resposta contra esses radicais anti-cafeína. Você tenta se esquivar mas não consegue. O que você faz?

A) Chama a polícia e tenta descobrir o paradeiro desses vândalos que acabaram com uma de suas lojas, procurando respeitar a lei e principalmente não estragar a vida alheia sem provas. Ou
B) Decide juntar um monte de funcionários para destruir e acabar com uma pequena loja de café tradicional do outro lado da cidade, acusando o dono daquela loja de fazer parte de um complô para acabar com a sua rede. Inclusive, afirmando que o dono dessa loja financia esse grupo de vândalos, com “armas” secretas.

Eu acredito que a maioria das pessoas ao redor do mundo escolheria a alternativa A. Eu também acredito que a maioria dos norte-americanos escolheria a alternativa B. Afinal, vocês fizeram isso com o Iraque em 2003, não?

Nos países mais desenvolvidos e esnobes existe um senso de justiça e responsabilidade sobre os países mais pobres que, geralmente, servem apenas como máscara para esconder interesses econômicos, como aconteceu no Iraque em 2003, e como aconteceu com a nossa América Latina durante todo o século XX. Claro, vocês aí dentro não parecem ligar muito pra isso, certo? Afinal, um dos principais pilares da sua sociedade é justamente fazer parte do “maior país do mundo”, o paizão.

Eu até percebo que vocês norte-americanos são, em sua maioria, pessoas bacanas, e fazem de tudo por suas famílias e amigos mais próximos, e por isso não se consideram egoístas.

Mas, infelizmente, eu também acredito que grande parte dos norte-americanos são egoístas a ponto de concordar com a interferência do seu governo em países pobres como El Salvador e Nicarágua nos anos 70 e 80, gerando a morte de mais de dezenas de milhares de pobres latino-americanos inocentes. Afinal, vocês são sim extremamente egoístas, já que priorizam a sua sociedade em detrimento de milhões de latino-americanos.

Sabe todos aqueles políticos, empresários de Wall Street e policiais corruptos? Você já parou pra pensar por que eles são corruptos? Eu garanto que todos eles justificam suas mentiras e falcatruas dizendo: “Eu faço isso pela minha família”. Afinal, os eleitores do Donald Trump querem que ele vença as eleições para que os imigrantes ilegais não invadam o SEU país e roubem o SEU emprego. Ou aqueles empresários corruptos de Wall Street defendem a sua ganância porque eles MERECERAM esse dinheiro, eles FIZERAM por merecer a vida luxuosa que tem.

É curioso ver que quando um norte-americano prejudica algum cidadão de um país subdesenvolvido para beneficiar sua economia, ele se acha altruísta. Ele não percebe que altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo. Eles dizem: “Mas essa empresa norte-americana tá indo pra Laos, na Ásia, dar emprego e oportunidades para a população pobre daquele país”. Pena que o trabalhador em Laos não tem direitos trabalhistas, portanto essa multinacional norte-americana pode pagar míseros centavos pra ele, enquanto abusa dos bens naturais do seu país subdesenvolvido.

Além disso, seu povo também é muito hipócrita. Vivem tranquilamente com a ideia de um homem criar uma Mansão da Playboy, ou com seus cassinos construídos em cima de terras indígenas cujas tribos foram completamente tiradas do mapa, enquanto se auto-afirmam como donos da moralidade e bons costumes, da família e da tradição, mesmo que isso signifique criar algo chamado Ku Klux Klan e perseguir a comunidade negra por séculos — até os dias de hoje. Hipócrita é considerado um insulto no Brasil, e acho que quase no mundo inteiro. Aí pode ser considerado também, mas, cá entre nós, esta é uma outra característica particular da sua cultura.

Alguns meses atrás, um colega jornalista viajou para os Estados Unidos, mais necessariamente Baltimore. Chegando lá, ele nos contou que o país de vocês não era como imaginávamos, e pior: a cidade não era apenas perigosa, como também parecida com algumas do terceiro mundo. Ele até tentou encontrar pontos turísticos em Baltimore, mas não achou nada. Foi decepcionante.

Quando publicamos essa história, algumas pessoas imediatamente disseram: “Ah, mas pelo menos você esteve nos Estados Unidos né”.

Parece uma frase inocente, mas ela ilustra bem como passamos a nossa vida inteira aguentando essa americanização e síndrome de vira-lata: as pessoas aqui, no Brasil, não fazem ideia do quanto o país de vocês é recheado de desigualdades, corrupção e violência, assim como o nosso.

É claro que essa falsa percepção sobre o país de vocês não é exclusiva dos brasileiros. Afinal, vocês cagam publicidade no cinema, música, cultura e afins em quase todo país subdesenvolvido ao redor do mundo.

Essa hipocrisia e essa carência explica porque vocês preferem pagar menos impostos, para poderem bancar um plano de saúde para VOCÊ e SUA família. É uma forma de se sentirem especiais e parecerem mais ricos do que uma boa parte dos seus compatriotas que não conseguem arcar com despesas médicas. Também é por isso que os norte-americanos adoram consumir produtos descartáveis, que a cada dois ou três anos precisa ser atualizado para outro ainda mais caro e com quase as mesmas características. Porque eles querem sentir e mostrar que eles podem ter, antes do mundo inteiro, o novo iPhone. Mesmo quando, na realidade, esse novo iPhone é quase a mesma coisa que o anterior, lançado há um ano atrás. No fim das contas, vocês preferem gastar muito dinheiro com isso tudo, do que ter a opção de colocar seus filhos em uma universidade pública de qualidade e não acabar arcando com as dívidas de financiamento universitário que duram décadas para serem pagas.

Muitos brasileiros acham os norte-americanos metidos. Eu não concordo. Pelo contrário, os norte-americanos são tão legais que dividem toda a sua cultura de consumo conosco, pobres cidadãos do terceiro mundo (vide: fast food para deixar nossas crianças com problemas de obesidade iguais as de vocês).

O problema é que muitos de vocês focam esse lado bacana em porcarias em vez de solidariedade. A sensação que se tem é que é mais importante abrir uma filial do Burger King em algum país africano do que fazer algo relevante que traga qualidade de vida para aquelas pessoas. É mais importante uma corporação norte-americana gerar lucros através da desgraça alheia do que qualquer ação solidária que realmente combata a fome em países pobres.

Ser hipócrita e carente não traz felicidade. Carência é uma versão americanizada do que realmente é: consumismo depressivo. Parece até legal vista de fora, com vocês comprando tantos produtos com baixos impostos e torrando grana com uma péssima alimentação baseada em fast food, mas isso não é real e definitivamente não dura muito.

Se você precisa pagar mais barato por uma Smart TV do que nós, pobres cidadãos do terceiro mundo, para se sentir tão diferentão e especial, então você não é especial. Se você precisa invadir países no Oriente Médio para roubar o petróleo alheio para se sentir importante, então você não é importante. Pode acreditar, esse monte de mentiras não funciona.

E sabe o que é pior? Essa carência e hipocrisia faz com que seu povo comece a bater de frente com os outros. Brancos perseguindo negros por acharem que ali é a SUA terra, homens religiosos querendo queimar na fogueira homens gays porque a SUA religião não permite tal coisa. Uma dona de casa dando um sarrafo em outra dona de casa porque chegou primeiro na fila da Black Friday.

Quer saber? Eu poderia ficar aqui por horas fazendo referências ao texto desse jornalista gringo, Mark Manson, parceiro de vocês. Ele veio pra cá, ficou quatro anos, e fez o que vocês geralmente fazem com outros países “menores” do que o de vocês: generalizar.

Mas acho que o que foi escrito nesta carta já é o suficiente. Eu realmente acredito que no país de vocês existam pessoas maravilhosas que não concordam com muitos aspectos da própria sociedade. Aqui também é assim. Mas o objetivo desta carta foi exatamente mostrar o quão irresponsável é um “jornalista” que prefere cagar senso-comum ao invés de realmente fazer aquilo para o qual ele é pago: jornalismo.

Seu amigo,

Francisco Toledo


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on February 19, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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