Assistindo aos noticiários, temos a ideia de que o governo do presidente Erdogan é legítimo. Mas não é bem assim. A tentativa dos militares…

Um golpe dentro de outro golpe aconteceu na Turquia

Um golpe dentro de outro golpe aconteceu na TurquiaAssistindo aos noticiários, temos a ideia de que o governo do presidente Erdogan é legítimo. Mas não é bem assim. A tentativa dos militares…


Um golpe dentro de outro golpe aconteceu na Turquia

Protesto contra Erdogan em 2013 | Foto: AFP

Assistindo aos noticiários, temos a ideia de que o governo do presidente Erdogan é legítimo. Mas não é bem assim. A tentativa dos militares de derrubá-lo, gerando o caos no país e a morte de centenas de pessoas, é um reflexo de políticas autoritárias do próprio presidente, que persegue jornalistas e opositores políticos.


A organização Repórteres sem Fronteiras registrou um declínio contínuo da liberdade de imprensa na Turquia nos anos em que o presidente Erdogan comanda o país. E isso se torna cada vez mais notório quando pesquisamos acontecimentos recentes envolvendo o governo e órgãos de imprensa na Turquia.

Não por acaso, no mesmo ano em que manifestações gigantescas aconteceram e quase derrubaram o então primeiro-ministro Erdogan, o país ficou em 100ª posição entre 179 nações no Índice de Liberdade de Imprensa de 2013. Nos anos seguintes, a situação pouco mudou — na realidade piorou. Em outubro de 2015, a polícia turca assumiu o controle de canais de TV que Erdogan considerava de “oposição”. A polícia entrou na sede das emissoras durante transmissões ao vivo, e ocorreu justamente 4 dias antes das eleições legislativas antecipadas no país. Pior do que isso, em abril deste ano, a jornalista holandesa de orgiem turca Ebru Umar, foi presa por mensagens contra o presidente em uma rede social, o Twitter.

Mas ela não é a única: desde que Erdogan foi eleito presidente em 2014, deixando o cargo de primeiro-ministro, mais de 2 mil processos judiciais foram abertos na Turquia contra artistas, jornalistas e civis por “ofensa ao presidente”. No mesmo mês de abril deste ano, pelo menos cinco homens foram presos por “insultar” Erdogan, sendo acusados de injúria contra o presidente nas redes sociais. A própria Internet já virou alvo do atual presidente, quando ainda era primeiro-ministro durante as manifestações de 2013, e mandou fechar os sinais de páginas como Facebook e Twitter, para evitar a propagação dos atos contra seu mandato.

Foto: lamoncloa.gob.es

Neste cenário absurdo de limitações nas liberdades individuais e de expressão, rebeldes militares tentaram derrubar Erdogan, na noite desta sexta-feira (15).

Em um comunicado lido pela rede de televisão TRT, o Exército afirma que o país será governado por um chamado “Conselho de Paz em Casa”, para dar “a todos os cidadãos todos os direitos e restabelecer a ordem constitucional”.

Porém, a tentativa de golpe contra um governo que já é considerado autoritário não deu certo. Mais de 200 pessoas morreram nas poucas horas em que os militares conseguiram manter o poder, mas sob pressão de manifestações convocadas pelo próprio presidente, os rebeldes não conseguiram resistir.

Um fator cômico é que Erdogan utilizou as redes sociais para convocar as manifestações em defesa de seu governo — justamente a via que ele costuma reprimir e censurar durante sua administração, na tentativa de evitar protestos contra sua gestão. Pior do que isso, são as políticas de caráter de extremo conservadorismo contra a comunidade LGBT, que na Turquia não pode se manifestar e muito menos realizar a sua Parada do Orgulho LGBT, já reprimida por policiais nos últimos anos.

O grupo armado de extrema-esquerda turco, DHKP-C, ganha cada vez mais força | Foto: Getty

Desta forma, a tentativa de golpe dentro de um governo que aplica, de forma “institucional”, um golpe cotidiano contra a população, fracassou.

Por outro lado, o radicalismo de grupos de extrema-esquerda cresce cada vez mais, tornando cada vez mais possível uma revolta armada partindo da própria população contra o governo de Erdogan, que alterando leis e a própria constituição, se mantém no poder — antes como primeiro-ministro e agora como presidente.

“O presidente turco Erdogan não é legítimo. Mais de 2 mil pessoas foram perseguidas judicialmente por “ofender a imagem de Erdogan” nas redes sociais, com postagens cômicas e críticas. Jornais foram fechados desde 2013, jornalistas presos. O que aconteceu ontem foi um golpe, sim. Mas que só serviu para dar ainda mais motivos para Erdogan limitar as liberdades civis na Turquia” — disse um integrante do DHKP-C, movimento armado de extrema-esquerda no país ao Democratize, sobre a atual conjuntura política turca.

Uma possível guerra civil na Turquia foi evitada — mas ela se torna cada vez mais previsível com o tempo.

By Democratize on July 16, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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