Abandonados pelo poder público, famílias contam com a ajuda de voluntários e ONGs para poder compartilhar a dor da perda, um ano após a…

Um ano após chacina em Osasco, familiares das vítimas ainda precisam de ajuda psicológica

Um ano após chacina em Osasco, familiares das vítimas ainda precisam de ajuda psicológicaAbandonados pelo poder público, famílias contam com a ajuda de voluntários e ONGs para poder compartilhar a dor da perda, um ano após a…


Um ano após chacina em Osasco, familiares das vítimas ainda precisam de ajuda psicológica

Fotos: Francisco Toledo/Democratize

Abandonados pelo poder público, famílias contam com a ajuda de voluntários e ONGs para poder compartilhar a dor da perda, um ano após a chacina na Zona Oeste de São Paulo.


Por Francisco Toledo
e Thais Helena Ribeiro

Uma sala pequena, algumas cadeiras, um lanche e um suco. Naquele espaço, um homem segura seu caderno e sua caneta, fazendo anotações enquanto as demais pessoas na roda contam seus dramas pessoais.

Parecia apenas mais uma sessão de terapia em grupo comum. Mas não era.

Naquela sala, que ficava dentro de uma igreja no bairro do Jardim Munhoz Jr, periferia de Osasco, estavam familiares das vítimas de uma das chacinas mais brutais e violentas da história recente do estado de São Paulo.

Tudo aconteceu no dia 13 de agosto de 2015. Homens armados e encapuzados cometeram uma série de assassinatos, resultando na morte de pelo menos 19 pessoas. Os crimes foram cometidos de “forma simultânea” em Osasco, Barueri e Itapevi. Das vítimas, pelo menos 8 foram assassinadas dentro de um bar no Jardim Munhoz Jr.

Quase um ano depois, os familiares das vítimas ainda precisam de ajuda. Na roda de conversa, o sentimento em comum é de luto — mas também de indignação. Eles reclamam da falta de auxílio por parte do poder público.

Aquela roda de conversa com um psicólogo só foi possível graças ao envolvimento de voluntários, ativistas e da ONG Rio de Paz, responsável pelas manifestações contra a chacina na Avenida Paulista. Representando o grupo, a ativista Fernanda Vallim acompanhava a conversa entre os familiares e o psicólogo. Eu e Thaís, repórter pela Agência Democratize, também fomos convidados para participar, e ouvir o que aquelas pessoas tinham para dizer sobre a dor da perda, e a insatisfação de não ter justiça um ano após os assassinatos.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Sob orientação do psicólogo, cada familiar contou sobre como foi tentar superar a dor da perda durante o ano que passou. “Quando você vai estender a roupa no varal, percebe que tá faltando alguma coisa. É assim. São as coisas pequenas”, disse a Dona Zilda, mãe de uma das vítimas da chacina.

Entre as lágrimas, sobrou espaço para questionamentos e insegurança.

Casos de abuso policial após os assassinatos se tornaram rotina para as famílias das vítimas, que se sentem perseguidas.

Razões não faltam. Em dezembro do ano passado, seis PMs e um coordenador da Guarda Civil Metropolitana de Barueri foram indiciados pelos assassinatos, sendo presos. Porém, a Justiça Militar determinou pela revogação da prisão de oito agentes responsáveis pelas mortes. Apenas quatro seguem presos, enquanto outros quatro estão soltos.

Além do medo e da insegurança, não faltam questionamentos.

O senhor A* estava no bar onde ocorreu a chacina em Osasco, no dia 13 de agosto de 2015. Depois de um dia de trabalho, resolveu descansar e beber com os amigos. Acabou cochilando. Ele não percebeu, mas homens encapuzados e armados entraram no bar. Levou um tiro no rosto.

Porém, sobreviveu. “Um milagre”, disse para a nossa equipe. Mas os danos causados pela tentativa de assassinato são visíveis, e afetam a vida do senhor A* diariamente. Por causa do tiro, hoje ele se comunica com dificuldade. Na sua alimentação, uma mudança completa: não pode mais consumir carne e alimentos pesados. Vive apenas de sopa, suco e água. Até mesmo o trabalho ficou pra trás. Mesmo que o disparo tenha atingido seu rosto, ele perdeu boa parte da mobilidade nas pernas, andando com dificuldade.

Sua indenização — assim como as famílias das vítimas — ainda não foi devidamente paga. Da mesma forma, o Estado não prestou nenhuma forma de ajuda para o senhor A* manter seu padrão de vida. Hoje, impossibilitado de trabalhar, ele depende dos amigos e da vizinhança, que sempre o ajudaram desde a chacina. “Já foi negado o meu INSS uma vez, né. Entrei com o segundo pedido, agora só estou esperando a resposta… E vou vivendo assim, né”, disse para a nossa equipe.

Na esquerda: Dona Aparecida, mãe de uma das vítimas ; Na direita: Jean, companheiro de uma das vítimasNa esquerda: Jorge Henrique, irmão de uma das vítimas ; Na direita: Dona Zilda, mãe de uma das vítimas

Para Jean, companheiro de uma das vítimas da chacina, a dor foi insuportável. Segundo relatos dos amigos, os primeiros meses foram os mais complicados. Emagreceu e se isolou. Hoje, Jean participa de consultas com um psicológo fornecido pelo Estado, que trouxeram melhorias significativas.

O problema é que esse psicólogo não poderia ir até a periferia de Osasco, onde vive a maioria das famílias — para eles, outro grave erro cometido pelo poder público, já que muitos não possuem condição financeira ou tempo para se locomover até São Paulo durante a semana.

Já para a Dona Zilda, a reação ao luto veio de uma forma diferente.

Engajada, ela fala sobre o contato que tem com outros grupos de mães que perderam seus filhos por causa da violência em São Paulo. Não só participou das manifestações da Rio de Paz cobrando justiça para as famílias, como pretende organizar para o dia 13 de agosto deste ano, data do primeiro aniversário da chacina, uma manifestação em memória das vítimas, em frente ao bar localizado no Munhoz Jr.

No final daquela roda de conversa, foi possível escutar algumas risadas. Alguns sorrisos, ainda tímidos. Para vencer o luto, a dor da perda, a insegurança e a falta de assistência do Estado, uma forte amizade foi estabelecida entre os familiares.

O encontro entre o psicólogo e as famílias deve continuar nos próximos meses, naquela mesma sala da igreja do bairro.


*Por motivos pessoais, não divulgamos a real identidade do senhor A


Francisco Toledo é co-fundador e fotojornalista pela Agência Democratize em São Paulo
Thais Helena Ribeiro publicitária e repórter pela Agência Democratize em São Paulo

By Democratize on August 2, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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