A foto em destaque, clicada pelo nosso fotógrafo Gustavo Oliveira, pode ser o último registro de qualquer sinal de paz em Brasília. Nas pr…

Todos os olhos (e corações) estão agora em Brasília

Todos os olhos (e corações) estão agora em BrasíliaA foto em destaque, clicada pelo nosso fotógrafo Gustavo Oliveira, pode ser o último registro de qualquer sinal de paz em Brasília. Nas pr…


Todos os olhos (e corações) estão agora em Brasília

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

A foto em destaque, clicada pelo nosso fotógrafo Gustavo Oliveira, pode ser o último registro de qualquer sinal de paz em Brasília. Nas próximas horas, o muro que protagonizou a cena do beijo deve se tornar a única coisa que separa os grupos pró e contra o impeachment. Acabou a paz.

Defender a democracia. Os dois lados utilizam desse argumento. E com essa tese, ambos conseguiram o apoio de grupos diferentes. Criaram uma polarização: os coxinhas, generalizados como de direita, conservadores, fascistas. E os petralhas, também generalizados como vagabundos, vândalos, ladrões.

Uns dizem que a continuidade do governo Dilma já não é desejada por ampla maioria da população. Dizem que a voz do povo deve ser ouvida. Outros dizem que o impeachment sem crime de responsabilidade é golpe.

Quem diria. Os dois lados estão certos nisso.

Não é apenas a classe média que ficou cansada dos últimos anos do governo Dilma. Na realidade, quem mais foi afetado fica na periferia, nos bairros mais afastados. Estamos falando das classes C, D e E. Estamos falando daqueles que perderam empregos, que assistiram seus direitos mais básicos como o seguro-desemprego ser modificado, que mais convivem com a violência do Estado. Segundo pesquisa do Instituto DataPopular, a periferia também não aguenta mais o governo petista. Existe um grande receio de que a crise, diante da continuidade do governo Dilma, acabe eliminando os programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida ou o Bolsa Família.

E sim, o impeachment como apresentado é golpe. Não existe crime de responsabilidade.

Todos sabemos do que se trata. São interesses políticos que estão envolvidos em todo esse processo de impeachment. É a vingança de Eduardo Cunha (PMDB), homem que só foi capaz de chegar aonde chegou graças ao governismo sem limites do próprio PT. São os interesses de grupos bem específicos, representados por figuras tucanas como Aécio Neves e José Serra. São movimentos de rua que foram financiados por organizações estrangeiras — apesar deles viverem negando isso.

Então qual é o caminho?

Não dá. Já é tarde para a pergunta.

Permitimos uma falsa polarização entre dois grupos que, no fundo, pensam a mesma coisa. A classe C, D e E não quer menos Estado. Querem mais.

Querem educação de qualidade, saúde universal, programas sociais que tornem capaz o crescimento de sua renda, de seu bem estar. Não por acaso, é o mesmo que a esquerda de base que tem ocupado as ruas contra o impeachment quer. Não o Movimento Brasil Livre, do Kataguiri. Não é o que Aécio, Cunha ou Temer desejam.

Agora é tarde.

Nos resta assistir o que acontecerá em Brasília nas próximas horas. Todos os olhos (e corações) estarão em Brasília. Em uma Câmara dos Deputados que precisa imediatamente ser reformulada. Em deputados que não possuem a mínima coerência de falar sobre corrupção.

A foto acima é do nosso fotógrafo, Gustavo Oliveira, em Brasília. Foi tirada no já famoso ‘Muro da Vergonha’, que deve separar manifestantes pró e contra o impeachment neste domingo.

Deve ser, provavelmente, a última demonstração de amor naquele espaço. A intervenção dos dois protagonistas dela não representam, ao meu ver, a ideia de conciliação de classes. Mas sim a falsa polarização. A moça, vestida com a camisa da seleção brasileira, pode muito bem acreditar que a desigualdade social é um mero retorno do sistema de mercados. Afinal, é isso que pensam aqueles que desejam a saída de Dilma na periferia. E o rapaz, vestido de vermelho, pode muito bem concordar com ela sobre isso. Então qual a diferença?

Fomos enganados.

E independente do resultado nas próximas horas, iremos demorar um pouco para recuperar o tempo perdido.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

[Para uso comercial da foto destacada, por favor entrar em contato no e-mail: democratizemidia@gmail.com]

By Democratize on April 17, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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