Uma verdadeira “rebelião taxista” ocorre nos 2 últimos dias em São Paulo, após decreto do prefeito Fernando Haddad (PT) regulamentando o…

Sabe o atendimento perfeito do Uber? Ele tem um preço nada agradável

Sabe o atendimento perfeito do Uber? Ele tem um preço nada agradávelUma verdadeira “rebelião taxista” ocorre nos 2 últimos dias em São Paulo, após decreto do prefeito Fernando Haddad (PT) regulamentando o…


Sabe o atendimento perfeito do Uber? Ele tem um preço nada agradável

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Uma verdadeira “rebelião taxista” ocorre nos 2 últimos dias em São Paulo, após decreto do prefeito Fernando Haddad (PT) regulamentando o aplicativo de caronas. O Uber oferece melhor atendimento aos seus clientes: mas e aos seus funcionários?

Carros ali, carros aqui.

Carros, carros e carros.

Assim como vemos nas ruas todos os dias, na TV não tem sido muito diferente.

Após o decreto de Haddad sobre a regulamentação do Uber na capital São Paulo, os taxistas resolveram “parar a cidade”. Protestos pontuais ali e aqui, além de algumas agressões que já se tornam “essenciais para o debate” sobre o assunto na mídia corporativa.

Jurista e deputado municipal em São Pedro do Sul, em Portugal, meu colega Rui Costa costuma dizer que o Uber não é um problema dos taxistas, e sim um problema social.

“O debate sobre o Uber é mais que um debate sobre uma atividade específica: é um debate sobre modelos de socidade”, escreveu em um portal de esquerda português no ano passado.

Eu concordo. Mas em uma cidade como São Paulo, acho que vai além.

Temos aqui o que eu costumo chamar de “legado da individualidade”.

E o que seria esse legado?

O Brasil nunca passou por nenhuma experiência “por fora” do tradicional capitalismo de terceiro mundo. Sempre fomos um território para multinacionais de países desenvolvidos “explorarem”. Nunca tivemos um governo determinando benefícios sociais como regra ou lei; pelo menos até 2002, quando o ex-presidente Lula fez o mínimo disso.

Nunca vivemos no chamado Estado de Bem Estar Social. Ainda assim temos a sorte de ter um sistema de saúde e de educação universal, de livre acesso para a população. Algo que sempre foi visto como um “obstáculo” por alguns empresários de ambos os ramos e por políticos de direita, ansiosos em abrir o mercado nas áreas. Pelo menos nisso, temos a Constituição Federal do nosso lado.

A sociedade brasileira sempre teve como foco seu individualismo subdesenvolvido de classe média.

“Quero colocar o meu filho em uma escola privada”. “Ao completar 18 anos a primeira coisa que farei será comprar um carro”. “Não vamos no postinho de saúde, o atendimento é ruim e eu quero ser atendido exclusivamente por um médico de confiança nem que eu tenha que pagar um valor absurdo por isso”.

Veja bem. Não existe problema em achar que uma escola privada é melhor que uma pública — o que em diversos casos é! Também não existe o menor problema em querer ser atendido de forma pontual por um médico de confiança.

O problema existe a partir do momento em que isso custa uma fortuna e você simplesmente acha isso normal. De vez em quando reclama, mas não entende o verdadeiro significado disso.

O mesmo vale para o Uber, o Táxi, e o transporte individual como um todo.

É sempre muito bom receber um melhor atendimento, pagando um valor mais baixo do que seria pago em um Táxi, claro. Eu mesmo já não sei mais o que é pisar em um Táxi após a chegada do Uber em São Paulo.

Mas será que podemos deixar o nosso individualismo um pouquinho de lado e começar a prestar atenção nas coisas?

O Uber exige que os motoristas tenham carro preto bem cuidado, ofereçam água e bala e aceitem o preço de corrida estabelecido pelo aplicativo, que fica com 20 a 25% do valor total. Se a jornada de trabalho estiver muito longa, ele não recebe mais corridas. Em contrapartida, o dono de carro que queira trabalhar com a empresa tem pouco a fazer. Se ele for descredenciado no sistema, simplesmente perde o negócio e o investimento feito no automóvel.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o presidente da Associação dos Motoristas do Uber, Nelson Bazolli, deixou claro o quanto a política de preços agressivos do aplicativo tem estourado na mão dos motoristas.

“O Uber vendeu um sonho em que os motoristas tiravam R$ 7 mil por mês. Hoje não dá para tirar R$ 2 mil.”

Nos Estados Unidos, estudos já mostram a desigualdade de forças nessa parceria entre motoristas e Uber. Na Índia, a comissão do aplicativo foi reduzida após uma ameaça de greve. Talvez seja o momento de abrir essa conversa no Brasil. Os valores muito baixos são atraentes para os passageiros, que passam a abandonar os táxis tradicionais, mas já começa a ficar inviável para quem realiza a corrida.

Talvez seja o momento certo para olharmos para o coletivo.

Imagina que coisa louca se existisse uma estação de metrô do lado da sua casa? Ou se o ônibus tivesse prioridade em toda São Paulo, com ar condicionado e uma capacidade respeitável e digna de passageiros, onde todos pudessem sentar? Ciclofaixas espalhadas na periferia e no Centro, feitas de forma segura. O fim das máfias nas empresas de ônibus e o fim do cartel nos trens e metrô.

Talvez, se existisse tudo isso, não precisaríamos perder tempo nesse debate sobre Uber vs Taxi.

É questão de prioridades. Qual a sua?


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on May 11, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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