Marketing ou ideologia pura e simples? Qualquer que seja a razão, o que a IstoÉ tem feito não tem sequer sombra de jornalismo.

Revista ou panfleto?

Revista ou panfleto?Marketing ou ideologia pura e simples? Qualquer que seja a razão, o que a IstoÉ tem feito não tem sequer sombra de jornalismo.


Revista ou panfleto?

Foto: Reprodução/Huffpost Brasil

Marketing ou ideologia pura e simples? Qualquer que seja a razão, o que a IstoÉ tem feito não tem sequer sombra de jornalismo.

Na última sexta-feira (3 de abril) já circulava em grupos de whatsapp trechos do que seria a matéria de capa da revista IstoÉ, sugerindo que Dilma Rousseff estivesse à beira de um colapso mental ou mesmo próxima à esquizofrenia. No sábado pela manhã, as bancas estamparam a capa histórica.

A ideia de que Dilma Rousseff é autoritária e temperamental não é, de todo, nova. Já circula há anos, desde que a Presidenta assumiu a República. Não foram poucas as associações com seu passado de luta anti-ditadura, tendo inclusive sua ficha criminal divulgada em um dos jornais de maior circulação do país (era, na realidade, a ficha que o DOPS — Departamento de Ordem Política e Social — tinha).

Mas a capa desta semana é, de fato, uma peça histórica. Não apenas pela total falta de respeito com a figura pública, mas pelo teor absurdamente machista e misógino. O texto de capa traz “Em surtos de descontrole com a iminência de seu afastamento e completamente fora de si, Dilma quebra móveis dentro do Palácio, grita com subordinados, xinga autoridades, ataca poderes constituídos e perde (também) as condições emocionais para conduzir o país”.

Não é preciso fazer grandes buscas para verificar que a linha editorial da revista é, basicamente, de oposição ao governo federal (o que, em si, não é crime nem problema). Também não é preciso ser homem e machista para saber que a ferramenta predileta de desqualificação de uma mulher em qualquer discussão é chamá-la de histérica. Juntar as duas coisas em uma única capa, no entanto, seria algo inédito.

Seria. Não fosse a tática velha conhecida de países vizinhos e/ou próximos politicamente ao Brasil. Na Venezuela eram comuns programas inteiros discutindo a capacidade intelectual de Hugo Chavez. As revistas também não o pouparam. Cristina Kirchner também foi alvo de capa semelhante. Em realidade, a capa da IstoÉ é quase um plágio da revista argentina “Notícias de La Semana”, como se pode observar abaixo:

A revista, no entanto, foi além. Fez do tal descontrole da Presidenta argentina, quase uma série editorial dividia em fascículos:

Até mesmo a comparação feita pela IstoÉ entre Maria Louca e Dilma, foi uma reprodução panfletária do não-jornalismo argentino.

É perfeitamente possível, plausível e digno que jornais e revistas tenham sua linha editorial clara e transparente ao leitor. Foi digno de aplauso quando o Estadão, em 2010, publicou um editorial de apoio ao então candidato José Serra. Demonstra seriedade no trabalho e qualificação na leitura do veículo. O mesmo ocorreu, no mesmo ano inclusive, com a revista TRIP, então apoiando Marina Silva e com a revista Carta Capital, que naquele ano apoiou Dilma Rousseff.

O que é inaceitável, do ponto de vista jornalístico (e ético), é que se faça do veículo um panfleto completamente alheio à realidade. É preciso que a grande mídia decida: Ou bem Dilma é uma terrorista perigosa, que atacou homens-de-bem (de bens?) durante a ditadura (eles dão outro nome, mas o escriba é filho de gente torturada, seria pedir demais que houvesse aqui tal reprodução); ou então Dilma é essa pessoa frágil, quase esquizofrênica, que quebra móveis e se entope de remédios para dormir. As duas figuras não dá, fica por demais inverossímil.

Mais adequado, lógico e honesto, é reproduzir um editorial afirmando que deseja o impeachment da Dilma e, para tanto, apresentando argumentos lógicos. O leitor e a leitora, com toda certeza serão capazes de discernir e construir uma opinião. A menos é claro, que se considere, como fez uma outra grande produtora de conteúdos (vulgo, Globo), que o leitor médio é o Homer Simpson.

A revista IstoÉ pode até ter um lucro breve no número de revistas vendidas, por conta de tal clássico. Mas a credibilidade que perde, dificilmente será recuperada. Não é por acaso que a capa em questão não foi veiculada pela revista Veja. Nem os próprios leitores crêem na veracidade das informações ali produzidas. A IstoÉ percorre o mesmo caminho.

A seguir nessa toada, será necessário criar uma nova publicação para os próximos panfletos.

Em tempo: A Advocacia Geral da União (AGU) soltou uma nota sobre a reportagem:

A Advocacia-Geral da União (AGU) acionará o Ministério da Justiça para que determine a abertura de inquérito para apurar crime de ofensa contra a honra da presidenta da República cometido pela revista IstoÉ em reportagens publicadas nas duas últimas edições.

A AGU também invocará a Lei de Direito de Resposta para garantir, junto ao Poder Judiciário, o mesmo espaço destinado pela revista à difusão de informações inverídicas e acusações levianas.

Eventuais ações judiciais de reparação de danos morais também estão sob análise de advogados privados da presidenta Dilma Rousseff.


Texto por Victor Amatucci, do ImprenÇa, exclusivo para Democratize

By Democratize on April 4, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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