Em entrevista ao Democratize, o jornalista turco Ahmet Şık fala sobre a situação atual que vive seu país, e faz comparações entre o…

“Quer saber como será o futuro do Brasil? Olhe para a Turquia”

“Quer saber como será o futuro do Brasil? Olhe para a Turquia”Em entrevista ao Democratize, o jornalista turco Ahmet Şık fala sobre a situação atual que vive seu país, e faz comparações entre o…


“Quer saber como será o futuro do Brasil? Olhe para a Turquia”

Foto: Reprodução/Google

Em entrevista ao Democratize, o jornalista turco Ahmet Şık fala sobre a situação atual que vive seu país, e faz comparações entre o presidente Tayyip Erdogan e o governo Temer no Brasil: “A crise econômica foi um fator decisivo para o aumento do autoritarismo na Turquia, e deve acontecer o mesmo no Brasil”.


Em maio de 2013, Ahmet Şık acompanhava mais uma manifestação no Gezi Park em Istambul. Por meses, grupos ambientalistas protestavam contra a demolição do parque, sendo perseguidos ou ignorados pelo governo.

Naquele dia seria diferente.

Dia 31, a polícia utilizou caminhões de água e gás lacrimogêneo para expulsar os cerca de 50 manifestantes que acampavam na Gezi Park. Os ambientalistas resistiam, atraindo a atenção e olhares de quem passava por lá. Pelo Facebook e Twitter, as pessoas chamavam uns aos outros para ver o que estava acontecendo. No final do dia, o que era apenas um grupo de 50 manifestantes terminou em mais de 100 prisões pela polícia. E lá estava Ahmet, que não foi preso apenas porque acabou sendo hospitalizado após ser acertado por um artefato de gás lacrimogêneo no rosto.

De lá pra cá, a Turquia nunca mais foi a mesma.

E o mesmo vale para seu presidente, Erdogan.

Conversamos com Ahmet sobre a atual situação política na Turquia, e como o Brasil deve se preparar diante de uma ofensiva contra os movimentos sociais e sindicais no novo governo interino de Michel Temer.

Para ele, ambos os países são similares por conta do atual contexto econômico.

“Veja bem. Quando ainda era primeiro-ministro, Erdogan conseguiu alcançar ótimos números na economia. O país chegou a flertar com a União Europeia, tivemos o controle da inflação, os juros cairam… digamos que nos seus 11 anos de mandato como primeiro-ministro, a Turquia se mostrou ao mundo como futura potência”, disse o jornalista, comparando com os anos do governo Lula no Brasil: “Podemos dizer o mesmo do Brasil, não? Com o Lula e o PT, vocês tiveram um crescimento econômico e político jamais visto. Ninguém imaginava que isso acabaria terminando tão cedo”.

Mas ai começaram os problemas.

E praticamente na mesma época e nas mesmas circunstâncias.

Em 2013, as manifestações contra a demolição do Gezi Park logo se tornaram uma onda de revoltas ao redor do país contra Erdogan. No Brasil, os protestos contra o aumento das passagens no transporte público acabou se expandindo para algo maior, envolvendo até mesmo a Copa do Mundo que ocorreria no ano seguinte.

“Em 2013 a economia começava a dar sinais negativos. O flerte com a União Europeia se tornava algo cada vez mais distante. A guerra na Síria afetou demais a capacidade de Erdogan administrar sua política de diplomacia”, relatou Ahmet.

Foto: Thorsten Strasas

Com os protestos, veio a repressão e a perseguição contra movimentos estudantis — lá e aqui.

“Eu me lembro que alguns jovens carregavam a bandeira do Brasil no Gezi Park. E também me lembro de ver fotos com rapazes segurando cartazes se referindo à Turquia nos protestos do Brasil. Essa ligação é algo inexplicável, que vai além do que podemos imaginar”, nos contou Ahmet. Para o jornalista turco, a violência policial fez com que os protestos em ambos os países se tornasse algo maior, “deixando abertas as feridas que estavam escondidas por trás dos panos da estabilidade econômica”.

Ambos os protestos tiveram seu momento ápice no mês de junho de 2013.

Não por acaso, também em 2013, foi quando os maiores escândalos de corrupção envolvendo Erdogan surgiram.

“Foi engraçado. Erdogan disse que tudo aquilo era um golpe planejado por Israel. A polícia prendeu funcionários importantes do Halk Bankasi [uma espécie de Banco do Brasil] e até mesmo alguns ministros e filhos de ministros. Mas mesmo assim, no ano seguinte [2014], ele conseguiu se eleger presidente logo no primeiro turno”, relata o jornalista.

“Agora pensa. Início de uma crise econômica. Violência policial. Protestos gigantes. Corrupção. Vitória nas eleições em 2014. Estamos falando do Brasil ou da Turquia?” — questionou em referência ao processo eleitoral que deu à presidente Dilma Rousseff seu segundo mandato em 2014, após vencer o tucano Aécio Neves nas eleições presidenciais.

Mas com a crise econômica, o cenário político turco se tornou cada vez mais insustentável.

“Nos últimos dois anos, após os protestos e as eleições, o que vimos foi: o aumento do autoritarismo policial, o Parlamento permitindo que Erdogan tenha superpoderes, jornalistas sendo presos e opositores sendo caçados”, denuncia Ahmet.

Recentemente, a justiça turca concedeu liberdade à colunista holandesa Ebru Umar, que havia sido detida em Kusadasi por twittar contra o presidente turco. “Vocês imaginam que coisa de doido? De maluco. Você usar a hashtag #FuckErdogan no Twitter e algumas horas depois aparecer um monte de policial armado na porta do seu quarto de hotel. Pois é isso acontece aqui e com ajuda da lei”.

Para Ahmet, o destino do Brasil já está traçado: “Se formos seguir a mesma linha de comparação que infelizmente tem batido uma com a outra até o momento, esse é o futuro do Brasil. Quer saber como será o futuro do Brasil? Olhe para a Turquia”.

“Pelo o que acompanho nos jornais daqui, vocês tiraram um governo de centro-esquerda para colocar um de centro-direita. Mas na atual circunstância política não existe mais espaço para centros. Um governo impopular como o de Erdogan só foi possível por conta de sua farsa política, com manobras e violência policial, com medo. Se o novo presidente brasileiro segue a mesma tendência, esperem pelo pior”, disse o jornalista, encerrando a conversa.

Encontro entre Erdogan e Dilma Rousseff durante o G20, em 2011 | Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Censura, perseguição contra jornalistas e oposição, monitoramento político nas redes sociais.

Tudo isso parece um verdadeiro absurdo para a realidade brasileira.

Mas também parecia ser a mesma coisa poucos anos atrás na Turquia, até mesmo depois dos protestos no Gezi Park.

Se quiser saber os próximos capítulos: olhe para a Turquia e verá.

By Democratize on May 24, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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