Durante a semana, uma estátua do personagem de desenho animado Snoopy foi “ferida” em São Paulo, depois que alguém “sequestrou” sua orelha…

Quando uma estátua do Snoopy ‘ferida’ chama mais atenção que um manifestante agredido

Quando uma estátua do Snoopy ‘ferida’ chama mais atenção que um manifestante agredidoDurante a semana, uma estátua do personagem de desenho animado Snoopy foi “ferida” em São Paulo, depois que alguém “sequestrou” sua orelha…


Quando uma estátua do Snoopy ‘ferida’ chama mais atenção que um manifestante agredido

Foto: Alice V/Democratize

Durante a semana, uma estátua do personagem de desenho animado Snoopy foi “ferida” em São Paulo, depois que alguém “sequestrou” sua orelha. O resultado disso foi comoção e indignação nas redes sociais. Ao mesmo tempo, um manifestante levou um tiro de bala de borracha no rosto. Adivinhem qual caso chamou mais atenção?

Podemos analisar que tipo de sociedade somos nos baseando nas principais preocupações dela.

Vejam bem: não tenho nada contra o singelo personagem Snoopy, figura carismática de um desenho que fez parte de várias gerações.

Este artigo trata-se de uma análise sobre a nossa sociedade como fator coletivo que somos, que pensa cada vez mais de forma individualista.

Tudo começou quando a produtora do filme “Snoopy Charlie Brown — Peanuts, o Filme” resolveu espalhar dez estátuas do carismático beagle ao redor de São Paulo. Vejam bem, não se trata exatamente de um “presente para a cidade”, e sim objetos pontuais de marketing que tem como objetivo principal divulgar o filme. É uma peça de publicidade. Ponto.

Pois bem, algumas destas estátuas foram danificadas. No Pacaembu, o beagle perdeu a pata. Na Paulista, as orelhas. Alguns meios de comunicação fizeram questão até de utilizar a palavra “sequestrada” — um tanto quanto sensacionalista para dizer a verdade.

Foto: Reprodução/UOL

Isso já foi motivo suficiente para uma verdadeira comoção nas redes sociais. Fãs do personagem se diziam indignados pelos “atos de vandalismo”. Páginas que uma vez ou outra condenam a chamada “onda do politicamente correto” não gostaram nem um pouco da “brincadeira”.

“Não se pode ter nada no Brasil que alguém destrói”, esbravejavam os comentários nas redes sociais.

É sério. Houve uma verdadeira onda de indignação e comoção por peças publicitárias pontuais e que, não por acaso, por conta de serem vandalizadas, algo atraindo ainda mais atenção para as estátuas e obviamente para o filme. Engraçado, não?

Resolvi fazer um teste.

Na última manifestação do Movimento Passe Livre contra o aumento das passagens em São Paulo, quinta-feira (21), mais de 7 mil pessoas participaram. Houve repressão policial desproporcional, quando manifestantes tentavam seguir seu trajeto previamente divulgado e a SSP não permitiu. Vários feridos, inclusive um rapaz que levou um tiro de bala de borracha no rosto. Fotos fortes.

Então resolvi pesquisar. Entrei no Google, e digitei por: “snoopy vandalismo”, para ver quantos resultados a pesquisa encontraria e como foi a atenção dos meios de comunicação com o nosso carismático Snoopy sem pata ou sem orelhas.

Tchanam: mais de 22.800 resultados. Primeira notícia que aparece é do portal G1: “Estátuas do personagem Snoopy são danificadas em São Paulo”. E tem mais: o jornal Correio vai além, com título “Vandalismo com Snoopy causa comoção na internet”.

Resolvi ver os comentários desta notícia no G1. Selecionei os melhores:

“ Cade os guardas municipais pra cuidar das estátuas? será q estao pagando de puliça em algum lugar da cidade? pq é trabalho deles zelar pelo patrimonio publico.” — não, a estátua de marketing promocional do Snoopy não é patrimônio público.

“E ainda tem quem diga que o problema do país são os políticos e corruptos, e olha o que fazem. O problema do Brasil é o brasileiro, é esse povo sem educação que não respeita e não pode ter nada que já faz isso. Nessas horas da vergonha de dizer que e faço parte desse bando de animais.” — um pouco de síndrome de vira-lata.

“Zé Povinho strikes again! Ninguém segura a evolução da imbecilidade neste país…” — R.I.P. Snoopy.

Ok. Muita indignação e muita dor pelas peças publicitárias agredidas em São Paulo. Agora vamos ver sobre o manifestante ferido com bala de borracha no rosto no último protesto. Pesquisei pelas palavras “manifestante bala de borracha rosto” no Google. Mais de 38 mil resultados, mas nas primeiras páginas, apenas notícias relacionadas com casos de 2015 e 2014.

Sem problema. Coloquei para pesquisar por essas palavras “na última semana”. Poucos resultados. Quase nenhum meio de comunicação grande noticiando o fato. O site Pragmatismo Político retratou o ocorrido, de forma pontual e correta. Outros sites que noticiaram o caso eram a VICE, o “Diário do Poder” e o Vio Mundo. Sites que não se comparam com portais de notícias como o G1 no requisito de acessos.

Mas calma! Tem uma notícia do G1 sobre isso também. Mas não mereceu título. O portal anuncia: “Detidos no 5º ato contra aumento da tarifa em São Paulo são liberados”. Ou seja, prefere focar no fato de que a Polícia deteve manifestantes — logo levando a entender ao leitor que, se prendeu, é porque a pessoa que ia nessa manifestação não planejava coisas “boas”.

Mas o que esperar da grande mídia?

Resolvi então ler os comentários. Ali sim, é de se esperar encontrar um pouco de solidariedade, comoção e indignação. Não? Veja:

“Líderes de jovens inocentes úteis e criminosos oportunistas — orientados e financiados por partidos que visam a anarquia e o caos social, tirando o foco do real problema — aumento de tarifa é o efeito cascata produzido pelo governo federal, do PT — o Estado de São Paulo não se curvará para anarquistas e bandidos que querem plantar o caos em São Paulo. A SSP e PM não entregarão SP para um bando de “nóias” desocupados e financiados…” — diz, revoltado CONTRA a manifestação, um dos internautas.

“MPL adora apanhar da polícia pra se fazerem de vítimas.” — sim, porque claro, todo mundo vai em uma manifestação esperando sofrer uma agressão policial ou até mesmo levar um tiro de bala de borracha no rosto.

“É so prestar atenção nas roupas, nas tatuagens nos cabelos, etc. é tudo de primeira todos são filhos de papai, tenha certeza que eles nunca pegara um transporte publico na vida.” — é claro, porque podemos definir a classe social de uma pessoa a partir de existência ou não de tatuagens em seus corpos.

Mais um manifestante ferido no último protesto em São Paulo | Foto: Wesley Passos/Democratize

É um tanto quanto lamentável ver como a sociedade brasileira, em boa parte a classe média, se revolta tanto quando uma estátua que é objeto publicitário de filme é “vandalizada”, mas parece não só pouco se interessar como também aprovar o comportamento policial quando um manifestante é ferido no rosto com um tiro de bala de borracha, que poderia tê-lo deixado até cego, por questões de centímetros.

Uma estátua que é motivo de marketing, que deve provavelmente ficar apenas enquanto o filme é rodado nos cinemas da cidade, tem mais importância do que uma vida humana.

Eu não quero viver em uma sociedade assim. Pelo menos não faço questão disso.

Mas é importante analisarmos isso. O brasileiro médio, que tanto reclama da corrupção e da forma como o “povo é tratado no SUS”, é o principal culpado do tipo de sociedade dividida e violenta que temos hoje. Ele é o motor que impulsiona tal violência, por acreditar que deve existir moralidade e rigor quando um objetivo não-vivo é danificado por “vândalos”, mas quando quem é vandalizado é um ser humano pelo Estado, representado pela figura da Polícia Militar, existem justificativas plausíveis para que isso tenha ocorrido.

Eu fotografo as ruas desde 2013. Tenho opiniões pessoais como qualquer indivíduo. Acredito em ideologias e tenho convicção de que a Polícia Militar não representa o melhor modelo de segurança para uma sociedade democrática e civilizada. Nem por isso, em todos esses três anos, faltei com respeito com qualquer policial militar — ou até mesmo em discussões políticas com colegas na faculdade ou trabalho.

Mesmo assim, fui alvo de uma bomba de efeito moral no dia 12 de janeiro deste ano, que fez estilhaços entrarem na minha panturrilha direita. O estilhaço desta bomba vai ficar na minha perna, já que os médicos não conseguiram tirar.

O que mais me entristece é ver que, na opinião desse brasileiro médio, existe justificativa para que isso tenha ocorrido. “Se estivesse em casa ou trabalhando”… amigo, eu estava trabalhando. E mesmo se quisesse estar lá, é meu direito constitucional. O rapaz que levou o tiro de bala de borracha no rosto no dia 21, que provavelmente vai ser qualificado por alguns como “vândalo” simplesmente por estar presente em uma manifestação na qual você não concorda com a pauta, também tem o direito de se manifestar. Vivemos, em teoria, em uma sociedade democrática que possui liberdades políticas além do voto.

Talvez, o Passe Livre deveria adotar a seguinte tática para conseguir apoio da opinião pública: se vestir de Snoopy e esperar a polícia bater neles. Ou melhor, levar algumas estátuas do Snoopy para a próxima manifestação e usar como escudo. Assim que a primeira pata da estátua for destruída por um tiro de bala de borracha, pronto. É comoção nacional, e a tarifa vai cair.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on January 24, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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