Foto: Nelson Almeida/AFP

Quando a tragédia vira lucro para o jornalismo e para as empresas

Tão lamentável quanto o acidente envolvendo os jogadores e equipe da Chapecoense, foi a postura de sites como Catraca Livre e Estadão, que se utilizaram de matérias sensacionalistas para buscar curtidas e acessos. Pior que isso, lojas como o Netshoes aumentaram o valor das camisas do clube para lucrar diante do acidente. Afinal, esse tipo de postura é um reflexo da sociedade em que vivemos?

Um grave acidente de avião na madrugada desta terça-feira (29) deixou mais de 70 mortos e feridos, em uma viagem do clube da Chapecoense para a Colômbia, onde disputaria a final da Copa Sul Americana.

Tratava-se de um evento histórico para o clube, que através de um amplo trabalho de base conseguia chegar ao seu ápice, representando o Brasil na final de um dos torneios mais importantes da América Latina, que dava direito para uma vaga na Copa Libertadores de 2017.

O que deveria ser um momento de luto e respeito pelos familiares acabou se tornando mais um lamentável episódio do jornalismo brasileiro.

Se aproveitando da tragédia, o site de notícias Catraca Livre decidiu publicar uma sequência de reportagens sensacionalistas. Em uma delas, chamada “10 fotos de pessoas em seu último dia de vida”, o site utilizou a foto de dois jogadores da Chapecoense dentro do avião antes da queda, com a legenda: “Jogadores do Chapecoense fazendo selfie no avião que, pouco depois, se acidentaria”. A matéria teve mais de 44 mil reações no Facebook, além de mais de 1.5 mil compartilhamentos. Porém, a reação dos seguidores foi imediata:

“Do que adianta ser contra a homofobia, racismmo… se neste momento não tem nenhum pingo de solidariedade e humanismo. Revejam seus conceitos e respeitem a dor dos familiares e de toda uma cidade”, comentou um dos seguidores na página.

Não foi o único post sensacionalista da página após a tragédia. Se aproveitando do acidente de avião, o site ainda publicou uma matéria chamada “10 mitos e verdades sobre viajar de avião”, utilizando a hashtag “acidentenaColômbia”.

Como resultado das investidas, o público do Catraca Livre caiu pela primeira vez nesta terça-feira, diminuindo o número de seguidores. Internautas chegaram a registrar até o meio dia a quantidade de curtidas na página:

Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook

Até às 13h13, o Catraca Livre despencou com 8.023.789 curtidas, perdendo mais de 30 mil seguidores no Facebook.

Para justificar as publicações, o site apontou em nota que considera “relevante jornalisticamente mostrar outros aspectos da tragédia como, por exemplo, o medo de voar e os mitos”.

Porém, o sensacionalismo em busca de clicks não partiu apenas do Catraca, como também de um dos maiores jornais do país, o Estado de São Paulo.

Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook

Em publicação, o Estadão reclamou dos seus seguidores por compartilhar a homenagem dada ao Chapecoense sem linkar e marcar a página de esportes do jornal, chamada Fera.

Mas esse tipo de postura não partiu apenas dos meios de comunicação, como também de sites que vendem produtos esportivos, como é o caso do Netshoes. A camiseta do Chapecoense aumentou pelo menos R$120 após a tragédia. A denuncia foi feita nas redes sociais, apontando o registro de aumento do valor: a camisa, que custava inicialmente pouco menos de R$150 no dia 27 de novembro, passou para R$250 na manhã desta terça-feira. Verificamos o status do produto atualmente em sua página, porém a camisa teve suas vendas esgotadas, sendo possível apenas a compra após reserva, pelo valor de R$150 novamente.

Reprodução/Twitter
Reprodução/Twitter

Mas afinal, o que isso significa?

Como explicar a comercialização de uma tragédia que afetou diretamente e indiretamente tantas vidas?

Trata-se de um reflexo do que a sociedade pensa atualmente?

É difícil de analisar a postura dos meios de comunicação e de empresas que buscam lucrar e aumentar seus acessos a partir de uma tragédia que tira vidas humanas – pelo menos deveria ser. Porém, trata-se de algo cotidiano que já faz parte da “cultura das redes sociais”, onde a busca incansável pelo furo e pela exposição de opiniões se demonstra cada vez mais necessária.

A atitude de sites como Catraca e Estadão demonstram por si só todos os motivos que levaram o jornalismo tradicional ao fracasso. Retratar a vida humana como objeto descartável em prol de clicks. Afinal, por mais que sua postura seja julgada por boa parte dos seguidores no atual momento, trata-se de um episódio que nas próximas semanas provavelmente será substituido por outro – na visão deles, claro, ignorando completamente a dor e sentimento dos familiares que terão de carregar o peso da tragédia por toda a vida.

Sem mencionar o fato de que, apesar das curtidas na página do Catraca Livre terem pela primeira vez diminuido, a repercussão por si só já gerou clicks e engajamento nas redes sociais. É a velha história: fale mal, mas fale de mim. O site pode ter perdido seguidores, mas ao mesmo tempo manteve a grande maioria dentro do seu núcleo de influência, que acessa ao material compartilhado por curiosidade – ou talvez pelo simples calor do momento da tragédia. O Catraca pode ter perdido dezenas de milhares de seguidores, mas ganhou o triplo de acessos, que se torna posteriormente lucro com seus patrocinadores.

Ou seja: por mais que exista uma crítica sobre a atitude de tais meios de comunicação, ainda existe um público fiel – maioria – que acessa esse material, compartilha e reproduz o mesmo discurso sensacionalista.

É a velha história: só existe um “programa do Datena” porque existe ao mesmo tempo um público que consome esse tipo de informação.

Talvez, esse tipo de jornalismo é, de fato, apenas um reflexo da sociedade em que vivemos nos dias de hoje. Uma sociedade que se diz cansada da violência e pouco representada pelos meios de comunicação, mas que ainda não percebeu que ela é a maior consumidora de ambos.

EM NOTA: A Netshoes afirma que a alteração do valor da camisa foi automática, sem qualquer influência diante da tragédia ocorrida com o time da Chapecoense. Segundo nota oficial, a camisa do clube estava com preço promocional e, na manhã desta terça (29), teve suas últimas unidades vendidas (camisa II) por R$159,00. Com o esgotamento do produto, por uma programação de sistema, o valor retornou ao preço original R$249,00, junto com o alerta de indisponibilidade do produto.

 

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