A tipografia, renovada, no epicentro das ações contra o governo interino.

Qual afeto nos governa?

Qual afeto nos governa?A tipografia, renovada, no epicentro das ações contra o governo interino.


Qual afeto nos governa?

Foto: Fábio Martins/Democratize

A tipografia, renovada, no epicentro das ações contra o governo interino.


Uma das primeiras greves de que se tiveram notícias, ou não, no Brasil, foi realizada nas estranhas da imprensa. Mais precisamente, no dia 08 de setembro de 1858, no parque gráfico dos principais jornais cariocas. Os tipógrafos — como assim são chamados os operadores das impressoras que até o início do século passado ainda eram presença massiça nos jornais brasileiros — pararam os trabalhos, após não obterem resultados satisfatórios nas negociações pela melhoria de seus salários. Dias depois, passaram a editar clandestinamente o seu próprio jornal, intitulado “Jornal dos Tipógrafos”, que circulou durante três meses , em 60 números.

158 anos depois, a técnica, renovada, é posta no epicentro das ações artísticas contra o governo interino de Michel Temer e retoma fôlego político. Não mais com operários, mas com artistas; não mais pelo aumento de salários, mas contra a retirada massiva de direitos constitucionais, o Galpão 4 da Funarte MG tornou-se uma verdadeira gráfica ativista. A ação, intitulada “Tipografia para Resistir”, foi idealizada pelo coletivo Gráfica Tática e realizada durante todo o dia 08 de junho na Fundação — que foi ocupada dos dias 15 de maio a 15 de junho.

Foto: Fábio Martins/Democratize

Os caracteres, de chumbo ou madeira, se viram nos mais improváveis arranjos. Se outrora foram matéria para a produção de obras artísticas e peças gráficas de toda sorte, agora os tipos davam, através de suas formas e através também das tintas que faziam imprimir sobre os papéis, a afirmativa do golpe e a negativa do interino neutro. Mãos, habilidosas ou não, mergulhavam na sinergia dos processos gráficos e deles emergiam a questão: “qual afeto nos governa?”. Não se limitando a isso, os varais do galpão eram ocupados com cópias de “você acha isso normal?”, “Retroceder nunca. Temer Jamais!”, “Um golpe de estado jamais abolirá o acaso”. Até mesmo a negativa crua “NãO” foi impressa, acompanhada de uma gravura que mostra o presidente interino como o Drácula do filme de 1931.

Mais de 40 artistas participaram das atividades da Gráfica Tática durante todo o dia 8 de junho. Os impressoes tiveram como principal objetivo alimentar o ato nacional do dia 10 de junho, que em Belo Horizonte reuniu mais de 40.000 pessoas.

Foto: Fábio Martins/DemocratizeFoto: Fábio Martins/Democratize

Mais tarde, com o apoio do coletivo Corpo Tátil, a ação se desdobrou em uma performance, realizada nas ruas da região. Sem palavras de ordem, mas com o silêncio interrompido somente pelo tráfego dos automóveis e pelo som estridente das buzinas; bandeiras vestidas como mortalhas, os oito artistas fizeram ver novamente a pergunta: “qual afeto nos governa?”.

Em resposta, como de costume, endossos e insultos: enquanto alguns buzinavam, em sinal de apoio, outros questionavam “e vai por quem lá?”. Houve até mesmo quem dissesse “vocês devem ganhar uma grana preta pra fazer isso, né?”, além do clássico e reacionário “Vai trabalhar, vagabundo!”. Nada que abalasse os artistas.

Ação terminada, gráfica recolhida e corpos cansados, concluí: mesmo que exibamos o produto da sinergia dos afetos, ainda somos governados pelo ódio. Mas isso não é tudo.

Fotos: Fábio Martins/Democratize


Reportagem e fotos por Fábio Martins, formado em Artes Visuais — habitação em Artes Gráficas — pela UFMG, colaborador da Agência Democratize

By Democratize on June 17, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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