Em 2014, muitos setores criticavam o movimento #NãoVaiTerCopa. Falavam em tentativa de tornar o evento da FIFA um caos; outros em…

Qual a relação do caos no Rio de Janeiro com a Copa do Mundo de 2014?

Qual a relação do caos no Rio de Janeiro com a Copa do Mundo de 2014?Em 2014, muitos setores criticavam o movimento #NãoVaiTerCopa. Falavam em tentativa de tornar o evento da FIFA um caos; outros em…


Qual a relação do caos no Rio de Janeiro com a Copa do Mundo de 2014?

Protesto na final da Copa do Mundo, no Rio de Janeiro em julho de 2014 | Foto: Francisco Toledo/Democratize

Em 2014, muitos setores criticavam o movimento #NãoVaiTerCopa. Falavam em tentativa de tornar o evento da FIFA um caos; outros em desestabilização política do governo Dilma. Filósofos e “intelectuais” chamavam manifestantes de terroristas, de aliados da direita. Pouco mais de um ano depois, a herança da Copa do Mundo pode ser vista no caos das contas públicas do Rio de Janeiro.

Trata-se do meu último texto no Democratize neste ano de 2015, e parece que estou escrevendo em 2014. O motivo disso é a Copa do Mundo.

Lembro bem: já nos protestos de 2013 muitos criticavam o coro popular contra o evento da FIFA no Brasil. Falavam que “não se podia criticar algo que ainda nem aconteceu”, e outros até em desestabilização da ordem e do clima político em Brasília. Pela primeira vez o colunista da VEJA, Reinaldo Azevedo, concordando palavra por palavra com o governista e petista assumido Emir Sader.

Chegou 2014, e a promessa de protestos ainda maiores era grande. Não demorou muito: janeiro já contou com manifestações marcadas logo de cara, nas primeiras semanas. Em São Paulo, reuniu mais de 10 mil pessoas. No Rio, protestos contra o aumento das passagens acabavam se misturando com atos contra a Copa. Em um deles, um cinegrafista da Rede Bandeirantes acabou falecendo. E utilizando da vida alheia, os meios de comunicação ao lado de intelectuais governistas e de direita partiram para a criminalização dos movimentos sociais — parecia até algo orquestrado.

Quem não se lembra do “jornalista” Paulo Henrique Amorim, em seu blog Conversa Afiada, celebrando a prisão de ativistas no Rio de Janeiro, como a Sininho. Não se recordam? Separo título e subtítulo: ‘O triste fim do “Não Vai ter Copa”; São os “manifestantes da “doença infantil do transportismo”’.

PHA, que aliás, teve em 2014 um dos anos mais sensacionais de sua carreira. Não conseguiu defender apenas a FIFA, uma das instituições de esporte mais sujas do mundo, como também a Odebrecht — quem diria, menos de um ano depois, a mesma estaria com seus CEOs por trás das grades.

Aliás, foi no blog do PHA que aparece outro personagem da esquerda governista que resolveu ir contra manifestantes e a favor de multinacionais estrangeiras — Emir Sader.

No texto, Sader afirma que as manifestações de junho de 2013 e as contra a Copa do Mundo são uma “obra que vem de fora”, ou seja, de agentes internacionais que estariam apostando na desestabilização do Brasil, e assim com a ruptura do governo petista e uma vitória da oposição de direita. Emir Sader que, aliás, chegou a defender que torcedores da Gaviões da Fiel fossem pra cima de manifestantes do MTST, quando os mesmos ameaçaram protestar em frente ao Itaquerão — uma obra da Odebrecht, afinal. E fascista são apenas aqueles que atacaram Chico Buarque…

Militarização da polícia nos protestos populares ocorreu fortemente em 2014 | Foto: Francisco Toledo/Democratize

Como ironia do destino, é justamente o MTST de Guilherme Boulos que hoje defende e compõe quase maioria dos movimentos de rua contra o impeachment de Dilma Rousseff, através da Frente Povo Sem Medo. Que vergonha deve ter sido para Emir Sader, ir ao protesto “contra o golpe” na Avenida Paulista e ter dado de cara com Boulos, após ter torcido um ano atrás para que torcedores de uma uniformizada batessem em seus militantes.

Mas apesar de todos os protestos, as centenas de prisões, a quase-morte de um manifestante, e a perseguição do Estado contra 23 ativistas no Rio de Janeiro, a Copa aconteceu. Com ela, aconteceram também no Rio as remoções, as dezenas de milhares de pessoas que perderam suas casas, o Exército na Favela da Maré, e muitas coisas ainda piores como a morte do dançarino DG, etc. Para elas, os intelectuais como Sader e os jornalistas como PHA se silenciaram. O importante era haver Copa, e com isso manter uma estabilidade política que daria um importante passo para um segundo mandato de sucesso para a presidenta Dilma Rousseff.

Mas não foi isso que aconteceu…

A tal instabilidade política, que viria por conta da presença de agentes externos e de manifestantes, na verdade veio por causa das promessas descumpridas de campanha e das pedaladas fiscais — além da corrupção interna no governo, no Partido dos Trabalhadores e do então seu principal aliado, o PMDB. A Odebrecht, aquela gigante empresa defendida com unhas e dentes por PHA, assistiu seus patrões serem colocados atrás das grades. Mais nomes do PT também foram. O ajuste fiscal, tão negado por Dilma Rousseff na campanha de 2014, veio com tudo, contando ainda com a presença do já ex-ministro da Fazenda, o chicagoboy Levy. As pedaladas também vieram acompanhar o desastre político orquestrado por uma gestão um tanto quanto incompetente.

Tudo isso veio, e a tal “herança da Copa” tão esperada pela população brasileira deu espaço para a crise e a recessão.

E pior: no Rio de Janeiro, veio em forma de caos.

O governador Pezão (PMDB), aliado próximo do governo de Dilma Rousseff, decretou situação de emergência na Saúde do estado. O objetivo é acelerar a ajuda dos governo federal para tentar solucionar a crise nos hospitais estaduais. Um relatório do Conselho Regional de Medicina (Cremerj), baseado nos relatos dos médicos que trabalham na Região Metropolitana do Rio, mostra aponta as unidades estaduais que estão praticamente desativadas devido à crise financeira que afeta a saúde do estado. Os casos mais graves são no Hospital Albert Schweizer, em Realengo, o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, e no Hospital Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias.

Anos atrás, apenas na área de Segurança Pública, o estado do Rio calculou gastos de mais de 300 milhões de reais para a Copa do Mundo. O dinheiro saiu dos cofres públicos, durante gestão de Sérgio Cabral, também do PMDB e também aliado direto do governo federal. O Rio de Janeiro também tomou um empréstimo com o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) no valor de R$ 250 milhões e usou uma porcentagem de um empréstimo de R$ 1,2 bilhão com a Caixa Econômica Federal para bancar a reforma do Maracanã, apontou reportagem da Agência Pública de Jornalismo.

Protesto contra a prisão de ativistas durante a Copa, em São Paulo | Foto: Francisco Toledo/Democratize

E não tem sido apenas a Copa o motivo de gastos exorbitantes do estado do Rio de Janeiro: os Jogos Olímpicos, outro evento para gringo ver, também.

No total, mais de 38 bilhões de reais fazem parte do orçamento do evento, que acontecerá no Rio de Janeiro em 2016. Porém, segundo reportagem do UOL em agosto deste ano, esse valor, entretanto, está longe de ser o total gasto por governos e entidades privadas com o evento. A conta apresentada pela APO simplesmente omite custos da Rio-2016. E esse tipo de “maquiagem” colabora muito para a redução das estimativas de gastos com a Olimpíada.

Ainda segundo a reportagem, o orçamento apresentado pela APO não considera, por exemplo, o gasto de cerca de R$ 62 milhões que a Prefeitura do Rio terá para mobiliar apartamentos das vilas olímpicas. A licitação para compra de geladeiras, camas e sofás para atletas e árbitros já foi lançada. No edital, a SMH (Secretaria Municipal de Habitação) informa que os móveis servirão para atender necessidades do Comitê Organizador da Rio-2016. Essa conta, porém, é ignorada no orçamento olímpico.

O que nos faz pensar: até quando iremos tolerar tudo isso?

O caos no qual se encontra o Rio de Janeiro deveria colocar uma carga de culpa nas costas de colunistas da VEJA e intelectuais governistas, mas não coloca. Para eles, tanto faz. O importante é o jogo político em Brasília, e se aparecer alguma “terceira voz” vindo das ruas, é terrorista plantado para desestabilizar um lado ou o outro. Não entenderam a mensagem ainda, e provavelmente nunca conseguirão. Não por acaso, tanto o principal partido da oposição (PSDB) quanto o PT já não são mais considerados viáveis pela sociedade civil como alternativas políticas.

Enquanto ativista leva surra da polícia, morador da favela perde o seu barraco, jovem negro da periferia é assassinado na favela, e cidadãos morrem na fila do hospital público, o importante é defender os eventos internacionais e as multinacionais que os cercam — tudo pela ordem.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on December 26, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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