Criado em 2004, o movimento interno “Esquerda Pra Valer” (EPV) atua dentro do PSDB promovendo o que dizem ser “uma guinada para a esquerda…

“PSDB Esquerda Pra Valer”: conheça o núcleo tucano anti-impeachment

“PSDB Esquerda Pra Valer”: conheça o núcleo tucano anti-impeachmentCriado em 2004, o movimento interno “Esquerda Pra Valer” (EPV) atua dentro do PSDB promovendo o que dizem ser “uma guinada para a esquerda…


“PSDB Esquerda Pra Valer”: conheça o núcleo tucano anti-impeachment

Na foto: Mário Covas (PSDB), Lula (PT) e Brizola (PDT) — Acervo Folha

Criado em 2004, o movimento interno “Esquerda Pra Valer” (EPV) atua dentro do PSDB promovendo o que dizem ser “uma guinada para a esquerda” dentro do partido. Membros defendem a desmilitarização da polícia, além de criticarem o impeachment em torno de Dilma Rousseff (PT) e a redução da maioridade penal.

Parece até brincadeira, mas não é.

Pelo menos não pra quem faz parte dele. O núcleo “Esquerda Pra Valer”, que um dia já foi determinante dentro do partido, hoje tenta se reerguer e ir contra a maré dentro do próprio PSDB: defendem a desmilitarização da Polícia Militar, são contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, apostam na defesa da causa LGBT e de minorias, além de não gostarem nem um pouco da proposta de redução da maioridade penal apresentada no Congresso em 2015.

Em seu manifesto nas redes sociais, o núcleo tucano sustenta que o partido volte a defender bandeiras “históricas”, citando o grito de guerra da Juventude do PSDB no II Congresso Nacional do partido: “PSDB, esquerda pra valer!”.

“Assim nasceu o Movimento PSDB Esquerda Pra Valer (EPV), que se organizou a partir de São Paulo em 2004, atuando em defesa dos princípios e compromissos da doutrina tucana, que se encontram no manifesto de fundação de 25 de junho de 1988, nos programas do partido de 1988 e 2007, e no seu estatuto”, detalha o manifesto.

Apesar de destacar as 5 mil lideranças, militantes e simpatizantes do núcleo de esquerda, esse número ainda é fraco.

O PSDB vive na última década o reflexo deixado pelo governo Fernando Henrique Cardoso nos anos 90, sendo taxado de “centro-direita” por muitos justamente por conta do histórico da era FHC: privatização em massa, falta de políticas sociais públicas, um enorme déficit de projetos para integração de minorias — LGBT, negros, entre outros — além de alianças políticas que levaram o partido a andar de braços dados com o extinto PFL (hoje, DEM), partido que nasceu de núcleos herdeiros do ARENA, pró-ditadura militar.

Por conta desse reflexo, a democracia interna do partido vive uma década frágil, com lideranças específicas determinando o futuro da sigla, independente da vontade de sua base. Prova disso é a presença de nomes como Aécio Neves e Geraldo Alckmin no pedestal do poder tucano, homens “inquestionáveis” internamente.

Reunião do EPV em 2015 | Foto: Reprodução/Facebook

Sobre isso, o manifesto destaca: “No bojo deste aparente fortalecimento do partido, uma armadilha. Setores conservadores, escorados no PSDB não por serem tucanos, mas sim anti-petistas, tentam direcionar o partido para uma postura liberal conservadora. Mais perigoso ainda é o fato de que parte do próprio partido tem sido seduzida a desempenhar este papel”.

Ainda assim, seguindo um direcionamento muito parecido com o que foi dado pelo lulismo petista pós-2002, o EPV descarta qualquer influência política da experiência socialista do século XX em seu programa, afirmando que “é preciso que defendamos uma posição de esquerda à luz do século XXI”, continuando afirmando que a questão central da esquerda do século XXI não deve seguir o dilema da privatização X estatização.

Ironicamente, o EPV segue uma cartilha muito parecida com a defendida hoje pelo setor majoritário do PT, que é a negação da experiência socialista do século XX, traçando novos caminhos que combinam o setor privado com o público, tentando alcançar uma espécie de “Estado de bem-estar social”, mas sem a obrigatoriedade do Estado.

Ainda contraditório, uma das lideranças do EPV — Welbi Maia — defendeu recentemente a candidatura de Andrea Matarazzo para a prefeitura de São Paulo pelo partido. Longe de representar a “guinada para a esquerda”, o empresário Matarazzo já foi indiciado por corrupção pela Polícia Federal, em relação ao recebimento de propina pela empresa francesa Alstom. Mais lamentável ainda foi a frase soltada por Matarazzo em entrevista ao El País, afirmando que “o ciclista em São Paulo se acha intocável”, e que “acha que pode tudo”, em uma clara tentativa de atacar o prefeito petista Fernando Haddad por sua política de ciclofaixas na cidade.

De qualquer forma, é interessante analisar a história do PSDB desde a sua criação, passando pelo governo FHC e pela Era Lula, até os dias de hoje. O partido, que foi criado com tendências social-democratas, seguiu para o neoliberalismo e hoje beira o conservadorismo histérico. Núcleos como o EPV, apesar de não serem perfeitos, podem servir de contra-ponto na criação de um debate político sincero e sem populismos, levantando questões reais ao invés de simplesmente apelar para a demagogia em busca de votos.

Pode ser que, daqui a dez anos, nossos filhos acabem debatendo sobre a criação de um “núcleo de esquerda” dentro do PT, atolado por burocratas e lideranças reacionárias, que rasgaram sua constituição em busca do poder através de políticas de direita. Para tanto, vale lembrar do que o ex-governador tucano Mário Covas dizia sobre pautas como a redução da maioridade penal.

By Democratize on February 11, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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