Os mesmos grupos que levaram mais de um milhão de pessoas para as ruas no começo de 2015, não conseguiram sequer colocar 20 mil na Avenida…

Protesto por impeachment tem forte queda em adesão — e em discurso

Protesto por impeachment tem forte queda em adesão — e em discursoOs mesmos grupos que levaram mais de um milhão de pessoas para as ruas no começo de 2015, não conseguiram sequer colocar 20 mil na Avenida…


Protesto por impeachment tem forte queda em adesão — e em discurso

Foto: Wesley Passos/Democratize

Os mesmos grupos que levaram mais de um milhão de pessoas para as ruas no começo de 2015, não conseguiram sequer colocar 20 mil na Avenida Paulista na tarde de ontem, domingo. A queda em adesão é acompanhada pela escassez em discurso racional e político, onde entre as personalidades pró-impeachment se encontravam pessoas como Alexandre Frota.

Pode ser exagero chamar de fracasso, afinal, a esquerda defende que não importa a quantidade de pessoas em uma manifestação, o importante é transmitir a mensagem.

Mas o problema é que as manifestações de ontem pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) não conseguiram sequer transmitir sua mensagem de forma adequada. E não foi só em São Paulo.

Reunindo cerca de 15 a 20 mil pessoas, o protesto na Avenida Paulista já demonstrava sinais de cansaço e fim de festa desde o começo da tarde. O público chave continuava sendo o mesmo: homens e mulheres acima dos 40 anos de idade, de classe média para alta, em sua larga escala brancos. Nos últimos protestos, porém, encontrávamos também trabalhadores de classe C, o que acabou inflando os atos anteriores. Desta vez foi diferente.

E um dos motivos deve ser a falta de um discurso eficiente sobre a crise econômica e política. Após as denúncias contra Eduardo Cunha (PMDB), um dos maiores defensores do impeachment de Dilma, a classe C parece não ter mais se animado com as manifestações promovidas por grupos como MBL, Vem pra Rua e Revoltados Online. Faz sentido. Afinal, quando vemos aquela foto dos “líderes” desses movimentos em Brasília sorrindo ao lado do presidente da Câmara, como leais defensores da moral e bons costumes, é como se fossemos apunhalados pelas costas.

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

E olha só: até o efetivo escalado pela Polícia Militar demonstra que já era esperado um baixo número de manifestantes. Afinal, o espaço para selfies entre manifestantes e policiais não era o mesmo do que nas manifestações anteriores.

A falta de um discurso eficaz e direto, além de uma certa unidade entre os grupos, também acabou provocando esse clima de fim de festa. Apesar de alguns políticos terem comparecido, como os velhos senadores Aloysio Nunes e José Serra — todos tucanos — quem mais chamou a atenção dos manifestantes e da mídia foi o “ator” Alexandre Frota.

Ele, que assumiu em rede nacional ter estuprado uma mulher — relatado em ritmo de piada — falava sobre como o Brasil precisa de um presidente que organize as coisas, nem que seja com a força, além de que o “Brasil ainda muito viadinho”, que os valores antigos e tradicionais precisariam voltar, e só Bolsonaro poderia salvar a pátria. Seguindo essa típica lógica de síndrome de latino-americano colonizado que necessita de um herói, o ator pornô ainda citou a luta dos estudantes como algo a ser seguido — mas depois se corrigiu, falando que manifestação apoiada pela CUT e MST não dava pra confiar.

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Os balões e os bonecos infláveis tampavam os espaços vazios da Avenida Paulista, que já não contava mais com o acompanhamento em tempo real de veículos como a Globo News — como feito nas manifestações passadas.

Outras cidades como Brasília acabaram reunindo menos de 5 mil pessoas. Até mesmo capitais que haviam protagonizado 60 ou 100 mil pessoas nas ruas, como no Rio de Janeiro, não conseguiu sequer colocar 5 mil manifestantes pelo impeachment de Dilma.

O que, em teoria, não faria sentido. Afinal, só agora que o impeachment foi de fato encaminhado pelo Congresso. O problema é que os organizadores não se importam sobre a forma como foi encaminhado e principalmente por quem foi encaminhado. Já a população, essa se importa. E ai nasce o erro primário e juvenil desses movimentos.

Confiar nas mãos de Eduardo Cunha e tê-lo tratado como aliado político em prol “de uma causa maior” foi o pecado de Bicudo e Kataguiri. Com isso, a população já não confia mais na representatividade desses movimentos, dando um verdadeiro tiro no pé. Confiar em um deputado federal acusado de ter milhões em conta na Suíça para tratar de um impeachment contra uma presidenta que teve seu governo acusado de diversos casos de corrupção é, no mínimo, hipócrita.

Mas já é tarde. Eles poderão dizer que a mobilização foi feita em cima da hora, e que na realidade é um “esquenta” para as manifestações de 2016. Se enganam, porém, sobre tudo isso. Em 2013, o Passe Livre colocou de 20 mil pessoas em um dia na rua para mais de 100 mil em menos de uma semana — e sem a capacidade financeira mobilizadora de tais grupos, afinal, o Passe Livre não precisa vender “kit tarifa zero”.

Em março de 2016, caso realmente ocorra a manifestação prometida por esses grupos, não deverá ser maior do que a de ontem. O fato é que fracassou, não pelos números, e sim pelo contexto apresentado. É o fim dos protestos pelo impeachment de Dilma — isso não significa que ela saiu vitoriosa, de forma alguma. Afinal de contas, por culpa dela tivemos que aturar isso:


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on December 14, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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