Com líderes de direita gritando palavras de guerra acima do ódio, já não é exagerado afirmar que a Europa está à beira de uma guerra civil…

Prossegue o avanço da extrema-direita na Europa

Prossegue o avanço da extrema-direita na EuropaCom líderes de direita gritando palavras de guerra acima do ódio, já não é exagerado afirmar que a Europa está à beira de uma guerra civil…


Prossegue o avanço da extrema-direita na Europa

Com líderes de direita gritando palavras de guerra acima do ódio, já não é exagerado afirmar que a Europa está à beira de uma guerra civil de baixa intensidade contra os refugiados.

Explosivos, pilhas de propaganda nazista e um número substancial de armas de fogo são exibidos em uma mesa na delegacia de Bamberg. Eles foram recuperados das casas de vários neonazistas na cidade bávara. Treze pessoas foram presas por suspeita de planejar um ataque terrorista contra um centro de refugiados local, que atualmente abriga mais de 400 refugiados.

Os neonazistas planejaram carregar o material até o centro, durante uma marcha de protesto organizada pela extrema-direita, do grupo Die Rechte (The Right), usando explosivos e bombas de nitrato que eles compraram com facilidade na Internet. O ataque teria sido desastroso, e muito provavelmente mortal.

Esses eventos não ocorrem por conta própria.

Na mesma semana, a Europa foi abalada por um ataque com uma espada assassina em uma escola na Suécia, deixando dois mortos e vários feridos. O suspeito de 21 anos de idade, que estava vestido de preto e usando um capacete da SS (serviço secreto alemão no período de Hitler), supostamente tinha ligações com a extrema-direita sueca, e claramente selecionou suas vítimas se baseando na raça.

Em Cologne, o candidato a prefeito Henriette Reker, cuja campanha gira em torno do apoio dos refugiados, foi gravemente ferido com um ataque de faca. Mais uma vez, o autor era afiliado com a extrema-direita, e declarou abertamente que estava agindo para “proteger o país dos estrangeiros”.

Ao lado dos “incidentes” que recebem ampla cobertura da mídia, está uma série aparentemente interminável de ataques incendiários e outras formas de terrorismo contra centros de requerentes de asilo na Alemanha, Suécia e Holanda. Além de alguns devotos neonazistas, um número ainda maior de cidadãos sem qualquer experiência prévia no ativismo de extrema-direita estão começando a organizar comitês e campanhas contra a abertura de centros de refugiados em seus bairros.

Os defensores de uma abordagem mais solidária recebem ameaças, e os novos movimentos de extrema-direita ganham visibilidade nas ruas da Europa — sem contar o cada vez maior PEGIDA na Alemanha, que agora também tem filiais na Áustria, Suíça, Holanda e Bélgica.

Protesto do PEGIDA na Alemanha contra os refugiados | Foto: Robert Michael/AFP

Poucos políticos tradicionais têm estado dispostos a dialogar abertamente com esses movimentos, embora haja exceções significativas. O infame Geert Wilders, líder do Partido da Liberdade na Holanda, esteve presente em uma manifestação do PEGIDA em Dresden.

Embora este fato não seja confirmado, o partido de Wilders também parece investir fortemente na formação e financiamento de comitês de cidadão — como os citado acima. Seus colegas, aparentemente mais moderados, evitam associar-se publicamente com estas iniciativas ativistas de direita. Em vez disso, eles parecem ficar de fora, apenas incendiando o debate.

A primeira e mais proeminente tática é sistematicamente chamar todo refugiado de “caçador de fortuna”, alegando que todos deixaram suas casas e vieram para a Europa, com o objetivo de viver uma vida de luxo, tudo às custas do trabalho pesado do cidadão europeu.

O líder de extrema-direita holandês, Geert Wilders: se você acha Bolsonaro radical, espere até conhecer Wilders | Foto: AFP

Ironicamente, políticos de direita pró-austeridade salientam que o Estado social europeu não será capaz de sustentar-se sob esta pressão. O aumento repentino da população europeia e os custos que implica, segundo eles, vai nos privar de meios financeiros para manter nosso padrão atual de segurança social e de solidariedade.

Curiosamente, estamos falando dos mesmos políticos e partidos que têm consistentemente feito esforços para estrangular o estado de bem-estar nas últimas quatro décadas. Mas esse “argumento” é também particularmente adequado para aqueles que representam a “nova direita” populista (Wilders na Holanda, Marine Le Pen na França e Nigel Farage no Reino Unido), que tendem a seguir políticas econômicas fortemente neoliberais, enquanto andam disfarçados de conservadores, como partidos anti-austeridade “sociais”.

Um segundo quadro proeminente é, naturalmente, a alegação de que todo muçulmano é um terrorista em potencial — ou, na melhor das hipóteses, um fundamentalista — e que a segurança nacional dos Estados-membros europeus está em jogo.

Este quadro de islamofobia não é exatamente novo, é claro, mas é surpreendentemente ver que alguns meios de comunicação e políticos procuram ativamente retratar refugiados sírios e afegãos como fanáticos religiosos. Por exemplo, algumas semanas atrás vários meios de comunicação espalharam o boato de que nos asilos para refugiados na Alemanha, os cristãos seriam sistematicamente intimidados por seus colegas muçulmanos.

Por falta de qualquer terrorismo muçulmano perpetrado recentemente (em oposição ao nacionalismo e outras formas racistas de inspiração de violência política, que tem crescido ao longo dos últimos meses), os políticos conservadores em toda a Europa espalharam esse rumor, a fim de sublinhar uma vez mais que os cristãos não estão seguros desde que os refugiados muçulmanos foram autorizados a ter acesso ao continente europeu.

Além disso, vários governos — os da Eslováquia, República Checa, Estônia, Bulgária, Chipre e Polônia — tiraram proveito deste estereótipo islamofóbico generalizado, e anunciaram que só irão conceder admissão a um grupo limitado de refugiados cristãos.

Esta suposta incompatibilidade entre islâmicos e cristãos é empregada de outra forma, cada vez mais proeminente, onde os políticos o utilizam para invocar o medo entre os seus círculos eleitorais. Os homens muçulmanos são de forma consistente e sistemática descritos como sexualmente hiper-agressivos. Embora preocupante, relatos de assédio sexual, casamentos forçados e estupro em centros de refugiados europeus circularam acima do esperado, pela própria mídia e pelas redes sociais.

O terrorista sueco de extrema-direita tirou uma foto com estudantes antes do ataque | Foto: Reprodução

Como alguns políticos dizem, os homens refugiados vieram pra cá sem nenhuma outra intenção a não ser estuprar “nossas” mulheres e filhas — uma qualificação que, claro, é chocantemente problemática em muitos aspectos, ainda notavelmente ouvido muitas vezes até mesmo no debate público mainstream.

Geert Wilders, por exemplo, afirmou no Parlamento que os refugiados sírios são verdadeiras “bombas de testosterona”. O principal ideólogo de seu partido, Martin Bosma, uma vez advertiu que os muçulmanos estavam tentando ganhar controle sobre a sociedade holandesa através de uma “política do útero”.

Como foi dito, esta imagem de refugiados recém-chegados como inerentemente preguiçosos, ingratos, abusivos, perigosos e intolerantes não é acolhida apenas pela extrema-direita. Muito pelo contrário: parece que os políticos de direita moderada — para não mencionar o ocasional “social-democrata” — são muitas vezes não menos ansiosos para apresentar o chamado discurso sobre como os refugiados são uma ameaça iminente para o modo de vida europeu.

Como a “nova” extrema-direita tem sido cada vez mais capaz de apresentar-se como uma voz respeitável e legítima no debate público, até mesmo alguns partidos populares ditos “socialistas” estão particularmente dispostos a correr o risco de perder o apoio de seus eleitores. Como consequência, e em linha com o desenvolvimento dos últimos 15 anos, o discurso político dominante em muitos países da Europa mudou drasticamente para a direita.

Como a direita moldou com sucesso a percepção pública dominante dos refugiados, a esquerda evita qualquer confronto direto sobre estas matérias. Com medo de perder o apoio popular, eles tendem a lidar com a “crise” dos refugiados em termos de gestão. Na melhor hipóteses, eles invocam uma língua fraca e despolitizada que apresenta seu eleitorado como “hospitaleiro” e deseja boas-vindas aos novos europeus “convidados”.

A esquerda mainstream, é claro, é mais do que disposta a condenar a crescente violência organizada contra os refugiados. Mas, no entanto, não consegue estabelecer a sua ligação com a linguagem explicitamente racista que é produzida pelos seus homólogos de direita.

Já não é exagero, eu acho, dizer que a Europa está à beira de uma guerra civil de baixa intensidade contra refugiados e outras comunidades minoritárias. A responsabilidade por esta violência organizada se encontra nas mãos cheias de sangue dos políticos de extrema-direita europeus.


Texto por Matthijs van de Sande, pesquisador político com doutorado em filosofia política na KU Leuven (Bélgica). Ele é um membro do Doorbraak, organização anti-racista de esquerda radical com sede na Holanda.

By Democratize on November 5, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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