Foto: Reprodução/Facebook/Arquivo Pessoal

Professor alemão é impedido de dar aula em universidade por ser comunista

Kerem Schamberger foi impedido de dar aulas na Universidade Ludwig-Maximilian, em Munique, onde é aluno em doutorado, por ser dirigente do Partido Comunista da Alemanha. Caso chama atenção para o crescimento da extrema-direita conservadora no país.

Jovem de 30 anos, Kerem é graduado em Comunicação Social e aluno em doutorado na Universidade Ludwig-Maximilian (LMU), em Munique, e hoje foi impedido de dar aulas por simplesmente ser comunista.

A polêmica tem por base um decreto de 1972, que obriga todos os funcionários adstritos ao serviço público a passar por uma “averiguação do Estado para evitar radicalismos”. Segundo esta lei, todos os cidadãos, que pretendam trabalhar em funções públicas, e estejam filiados num partido político, necessitam de aprovação do serviço secreto alemão.

Shamberger, para além de filiado, é porta-voz em Munique do Partido Comunista Alemão, o DKP, tendo também sido candidato autárquico nas listas do Die Linke (A Esquerda), o maior partido de oposição no país.

No seu currículo militante, se registra ainda ter sido porta-voz da Juventude Trabalhadora Socialista Alemã, além de apoiar o grupo Juventude Vermelha e a Associação das Vítimas do Regime Nazista – Federação dos Antifascistas e das Antifascistas, todos os grupos vigiados pelo Departamento Federal de Proteção da Constituição, que os classifica como “extremistas”.

A LMU pediu em julho autorização para que Shamberger pudesse lecionar – exigência para todos os alunos em doutorado -, mas ainda não obteve resposta.

O aluno em doutorado se defende dizendo que o impedimento de lecionar na universidade é inconstitucional, uma vez que a Carta Magna alemã garante a livre escolha de uma profissão. Em entrevista a um jornal alemão, Shamberger afirmou que esta situação contribui para “demonizar os comunistas” e ser uma forma de intimidação para quem pense em se filiar ao Partido Comunista Alemão.

Foto: Reprodução/Facebook/Arquivo Pessoal
Foto: Reprodução/Facebook/Arquivo Pessoal

“Conheço jovens que queriam entrar para o partido, mas que pensam duas vezes, três vezes antes porque sabem as consequências que isso pode ter caso queiram fazer carreira na função pública”, disse.

À imprensa, as autoridades disseram que não podem dar detalhes do caso por questões de privacidade. A LMU e o orientador de Shamberger, Michael Meyen, já declararam apoio ao seu aluno.

O denominado “Decreto dos Radicais” foi criado durante o governo do chanceler social-democrata Willy Brandt (1969-1974) e especifica que a fidelidade à ordem constitucional deve ser um requisito para trabalhar no setor público. A intenção, porém, quando o decreto foi criado, era principalmente acabar combatendo a influência dos comunistas na então República Federal da Alemanha.

Desde a criação da lei até 1991, cerca de 1,4 milhão de pessoas passaram pelo processo pelo qual Shamberger passa hoje. Só este ano, entre janeiro e agosto, 537 candidatos foram negados.

Apesar do decreto ainda estar em vigor, cada estado da Alemanha tem aplicado a lei de maneira diferente. O número de casos em que pessoas são impedidas de ocuparem cargos públicos, devido à sua filiação política, tem diminuído drasticamente nos últimos casos, mas, como este caso comprova, ainda se registram.

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