O filósofo marxista Slavoj Zizek explica o governo do novo presidente argentino Mauricio Macri, através de trechos de sua obra. Uma repeti…

Primeiro como tragédia, depois como farsa

Primeiro como tragédia, depois como farsaO filósofo marxista Slavoj Zizek explica o governo do novo presidente argentino Mauricio Macri, através de trechos de sua obra. Uma repeti…


Primeiro como tragédia, depois como farsa

Foto: Maria Eugenia Vidal

O filósofo marxista Slavoj Zizek explica o governo do novo presidente argentino Mauricio Macri, através de trechos de sua obra. Uma repetição da história, o presidente da Argentina busca cometer os mesmos erros replicados nas últimas décadas pela Grécia, Portugal e Espanha, e pelo próprio país. A questão que fica é: seria então, proposital?

Em nossa história, “tempos interessantes” são de fato os períodos de agitação, guerra e luta pelo poder, em que milhões de espectadores inocentes sofrem as consequências. Nos países desenvolvidos, estamos claramente nos aproximando de um novo período de tempos interessantes.

Depois de décadas (de promessa) de Estado de bem-estar social, em que os cortes financeiros se limitavam a curtos períodos e se apoiavam na promessa de que tudo logo voltaria ao normal, entramos num novo período em que a crise, ou melhor, um tipo de estado de emergência econômica, que necessita de todos os tipos de medidas de austeridade (corte de benefícios, redução dos serviços gratuitos de saúde e educação, empregos cada vez mais temporários etc.), é permanente e está em constante transformação, tornando-se simplesmente um modo de viver.

E, de forma bastante lógica, na medida em que a economia seja considerada a esfera da não ideologia, esse admirável mundo novo de mercadorização global se considera pós-ideológico. É claro que o aparelho ideológico de Estado ainda existe, e mais do que nunca; entretanto, como vimos, uma vez que, em sua autopercepção, a ideologia se localize em sujeitos, em contraste com os indivíduos pré-ideológicos, essa hegemonia da esfera econômica só pode parecer ausência de ideologia. Isso não significa que a ideologia apenas reflita diretamente a economia como sua base real; continuamos totalmente dentro da esfera do aparelho ideológico de Estado, a economia funciona aqui como modelo ideológico, de modo que temos toda a razão em dizer que a economia funciona aqui como aparelho ideológico de Estado — ao contrário da vida econômica, que definitivamente não segue o modelo idealizado do mercado liberal.

Os movimentos de protesto contras as políticas de austeridade que se espalharam pela Europa em 2010 — especialmente na Grécia e na França, em menor medida na Irlanda, Itália e Espanha — deram origem a duas ficções. A primeira, forjada pelo poder e pela mídia, está sedimentada na despolitização da crise: as medidas de restrição orçamentária decretadas pelos governos são tratadas não como escolha política, mas como uma resposta técnica aos imperativos financeiros. A moral da história é: se queremos que a economia se estabilize, devemos apertar o cinto. O outro relato, o dos grevistas e manifestantes, postula que as medidas econômicas severas são apenas uma ferramenta a mais nas mãos do capital para desmantelar os últimos vestígios do Estado de bem-estar social. No primeiro caso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aparece como um árbitro cuja tarefa é fazer respeitar a ordem e a disciplina; no outro, o FMI desempenha seu papel de suplente no mercado financeiro mundializado.

Se cada uma dessas perspectivas contém alguns elementos de verdade, tanto uma como a outra estão fundamentalmente equivocadas. É evidente que a estratégia de defesa dos dirigentes europeus não leva em conta o fato de o enorme déficit nas contas públicas ser gerado, em grande medida, pelas dezenas de bilhões destinados ao salvamento dos bancos. O crédito acordado em Atenas, por exemplo, servirá em primeiro lugar para reembolsar as dívidas com os bancos franceses e alemães. A ajuda da União Europeia à Grécia não tem outra função a não ser socorrer o setor bancário privado. Em segundo lugar, a argumentação dos manifestantes revela a fragilidade da esquerda contemporânea: sem um viés programático, resume-se à luta contra o desaparecimento das conquistas sociais desse tipo de governo. A utopia do movimento social não consiste mais em mudar o sistema, e sim em se convencer de que é possível se adaptar ao Estado de bem-estar social. Essa posição defensiva remete a uma objeção difícil de refutar: se queremos permanecer dentro da ordem do sistema capitalista mundializado, não temos outra opção senão aceitar os sacrifícios impostos aos trabalhadores, estudantes e aposentados.

A tragédia grega se repete, desta vez na Argentina

“Você não pode” é a grande frase de ordem, do primeiro comandante: você não pode se engajar em grandes ações coletivas, porque necessariamente se transformarão em terror totalitário; você não pode se pendurar no Estado de bem-estar social, porque corre o risco de perder sua competitividade e provocar uma crise econômica; você não pode viver fora do mercado mundial, a não ser que se submeta ao regime da Coreia do Norte. A ecologia, em sua versão ideológica, agrega a esse inventário as próprias “proibições”, esses famosos valores base — não mais de dois graus de aquecimento climático — fundamentados por especialistas.

Hoje, a ideologia dominante se esforça em nos convencer da impossibilidade de uma transformação radical, da impossibilidade do fim do capitalismo, da impossibilidade da criação de uma democracia não reduzida a um jogo parlamentar corrupto. Ao mesmo tempo, torna invisível o antagonismo que atravessa nossas sociedades. É por isso que Lacan, como estratégia para superar essas barreiras ideológicas, substituiu a fórmula “tudo é possível” pela constatação “o impossível acontece”.


Trechos retirados da obra do filósofo esloveno Slavoj Zizek, traduzidos pelo Democratize

By Democratize on February 11, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

Posts Relacionados

On Top
error: Para reproduzir o conteúdo do Democratize, entre em contato pelo formulário.
%d blogueiros gostam disto: