Esta foi a primeira vez que GCM agiu em conjunto com a Polícia Militar na Cracolândia. Imagens recebidas via whatsapp.

Prefeitura, Polícia Militar e GCM se unem para ataque a usuários de drogas na Cracolândia

Aconteceu na noite de ontem (17), uma invasão da polícia militar na Cracolândia, com bombas de gás e tiros de balas de borracha. A ação policial começou por volta das 20h, quando a Polícia Militar invadiu o fluxo e começou a dispersar as pessoas com truculência. Houve muita confusão e diversos usuários ficaram feridos.

Informações cedidas ao Democratize por uma fonte que pediu sigilo dão conta de que a ação foi feita em conjunto, por equipe de gestão da Prefeitura de São Paulo, com suporte da Polícia Militar do Estado e Guarda Civil Metropolitana. A ação teria sido planejada em reunião realizada ainda na primeira semana de janeiro. A ideia inicial, proposta nessa reunião, seria a internação compulsória dos dependentes químicos. No entanto, foi contida pelo Secretário Municipal de Saúde, Wilson Pollara. Também estavam presentes nessa reunião o prefeito de São Paulo, João Doria, e o secretário adjunto de Desenvolvimento Social, Filipe Sabará, que coordenará a nova proposta de recuperação dos usuários de drogas proposta pelo Programa Redenção, do governo municipal.

Pautado basicamente na abstinência e internação, Redenção seguirá o modelo do Programa Recomeço, do governo estadual. Filipe Sabará é empresário e um dos fundadores da ONG Associação de Resgate à Cidadania por Amor à Humanidade (Arcah), uma comunidade terapêutica cuja sede fica na cidade de Botucatu, interior de São Paulo.

Conhecido em colunas sociais, Sabará possui quatro empresas e sua família fornece insumos à Natura. Para se tornar adjunto da atual Secretária Municipal de Assistência Social e Desenvolvimento, Soninha Francine, deixou à frente da ONG Arcah, Alex Seibel, acionista da Duratex, e o advogado Rodrigo Leite, que também fazem parte da elite paulistana. Como são conhecidos por possuir um bom relacionamento com figuras influentes da cidade de São Paulo, uma das formas de captar recursos para a ONG são jantares cujo preço do convite varia entre 500 e 2 mil reais, e leilões de obras de arte.

Esta foi a primeira vez que GCM agiu em conjunto com a Polícia Militar na Cracolândia, repetindo as dobradinhas do governo estadual e municipal, ambos PSDB, nas propostas para a gestão da cidade de São Paulo. A violência ao tratar de dependentes químicos traz à tona uma deficiência de compreensão do governo municipal sobre a questão, tratada como um caso apenas de segurança pública, e não prioritariamente de saúde pública e de distribuição de renda. De política higienista, Doria também cortou, em seu segundo dia de mandato, o salário de dependentes químicos em recuperação, atendidos pelo Programa De Braços Abertos, que ganhavam 15 reais por dia em troca de serviços de varrição no centro de São Paulo, região da Luz.

Desde o período eleitoral, o novo prefeito havia se mostrado contrário à continuidade do Programa De Braços Abertos, criado pela gestão de Fernando Haddad (PT). O de Braços Abertos é um programa de redução de danos; dos 416 beneficiários, 88% dizem ter diminuído o uso de crack, em uma política que se destacou em comparação a experiências anteriores. Por não exigir dos beneficiários o fim imediato do uso de drogas, De Braços Abertos costuma ser incompreendido por grande parte da população. No entanto, foi avaliado internacionalmente e tem o maior índice de recuperação já registrado por políticas semelhantes.

Além de cortar o salário de dependentes químicos atendidos pelo programa De Braços Abertos, que ganhavam para realizar serviços de varrição na região da Luz, foi anunciado, recentemente, que o Programa Redenção terá testes antidoping frequentes, como exigência para que os usuários recebam o direito a moradias assistidas, em residências, prédios ou hotéis, onde dividem quartos monitorados por assistentes sociais e/ou funcionários de entidades parceiras.

No Programa De Braços Abertos, a prefeitura municipal já oferecia moradia em hotéis, porém, sem a obrigatoriedade de testes para comprovação de abstinência, uma vez que o índice de reincidência até que os usuários se recuperem é alto e não se pode correr o risco de perder estas pessoas em processo de recuperação. Ainda: nos Programas Recomeço e Redenção, não há acompanhamento após a internação, portanto, não se sabe sua eficácia, visto que não há registros que comprovem se os usuários voltaram ou não a usar drogas após o período de internação.

Também ao contrário das propostas do governo estadual e municipal, a gestão anterior apostava na reinserção do usuário de drogas na sociedade através da capacitação para o mercado de trabalho, ao passo que os outros dois projetos psdbistas focam mais na abstinência e o isolamento. Os três fornecem atendimento médico e odontológico.

A transparência nos dados sobre recuperação e reinserção social também são bastante díspares: enquanto o “De Braços Abertos”, lançado em 2014, apresentou relatórios periódicos com seus resultados, a Secretaria de Saúde do Estado ainda não fornece dados precisos sobre a eficiência do “Recomeço”, lançado em 2013, e que será parâmetro para a ação municipal  [Recomendamos leitura de reportagem veiculada sobre o assunto em setembro de 2016, pelo Democratize].

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