Nada contra os carros de som. Nada contra as centrais sindicais. Nada contra os movimentos por moradia. Mas, se o ‘Fora Temer’ é uma…

Precisamos falar sobre a verticalização dos atos ‘Fora Temer’

Precisamos falar sobre a verticalização dos atos ‘Fora Temer’Nada contra os carros de som. Nada contra as centrais sindicais. Nada contra os movimentos por moradia. Mas, se o ‘Fora Temer’ é uma…


Precisamos falar sobre a verticalização dos atos ‘Fora Temer’

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Nada contra os carros de som. Nada contra as centrais sindicais. Nada contra os movimentos por moradia. Mas, se o ‘Fora Temer’ é uma mobilização popular, ela precisa partir da própria sociedade não organizada, descentralizada e espontânea.


Por Francisco Toledo

Existe um enorme conflito de interesses quando se trata de mobilização popular nas esquerdas.

E isso não é exclusividade no Brasil.

Nos protestos em Seattle nos Estados Unidos, em 1999 contra a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), que foi feita na cidade na época, tivemos uma prévia do viria a ser as grandes manifestações e mobilizações na Espanha, Grécia, França, Brasil e nos próprios Estados Unidos quase uma década depois.

Naquele ano, os movimentos autônomos anti-globalização ganhavam cada vez mais força. Formado em sua maioria por adeptos da chamada “esquerda verde”, ou ecossocialistas, boa parte dos protestos contra a OMC ficaram conhecidos por não ter uma liderança específica, e principalmente negar a verticalização do movimento político. Não por acaso, isso causou estragos no diálogo com o Estado, resultando em conflitos públicos entre a polícia e manifestantes.

Do outro lado, na mesma Seattle, sindicatos organizados realizavam passeatas previamente anunciadas, com hora e local já estabelecidos pra começar e terminar. Não faltavam caminhões de som, discursos apaixonados no microfone, aplausos, bandeiras, etc.

Muitos que apanhavam da polícia em Seattle nas manifestações convocadas por estudantes contra a OMC questionavam o silêncio dos grandes sindicatos.

Nos protestos organizados por estudantes contra a OMC em Seattle, o único diálogo com a polícia era a repressão | Foto: Wikipedia

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos assistiam pela primeira vez a ação direta de grupos adeptos da tática Black Bloc. Algo já conhecido na Europa décadas atrás, que viria a se tornar um verdadeiro fenômeno global após os protestos em Genova, na Itália, em 2001.

A partir deste momento, criou-se um conflito interno “novo” nas esquerdas: o formato de mobilização nas ruas para conquistar um objetivo que os três lados possuem em específico. No caso de Seattle, tratava-se de boicotar a reunião da OMC, tornando público o espetáculo empresarial e político que guia os interesses da organização contra a população marginalizada da sociedade.

No nosso caso, em 2016, é o ‘Fora Temer’.

Durante todo o ano de 2015, várias manifestações “contra o golpe” foram realizadas por movimentos verticais, que possuem uma já conhecida dinâmica de diálogo com o poder público, partidos políticos e centrais sindicais organizadas. Neste ano, antes de Dilma Rousseff ser afastada em definitivo no mês de agosto, dezenas de protestos similares aconteceram.

Nada novo. Nada capaz de bater de frente com os números das manifestações contra Dilma, que com o apoio midiático se tornava uma espécie de “carnaval (des)politizado”.

Por mais que os protestos contra Dilma também tenham sido centralizados em três movimentos que apenas aparentam ser “jovem”, é impossível competir com um grupo que tem o apoio empresarial e midiático de setores da sociedade. Além do mais, as manifestações contra Dilma sempre foram vendidas como algo espontâneo — o que de fato nunca foi. Porém, isso dava a sensação ao manifestante de que aquilo tudo era algo elaborado coletivamente, e que cada peça ali tinha a mesma importância.

Isso é mentira, óbvio. Mas para um manifestante “iniciante”, despolitizado e com pouca vivência no debate social, trata-se de uma sensação de poder que nenhum textão no Facebook conseguiria combater.

Mas ai Dilma caiu. E Temer assumiu em definitivo.

Antes disso, no dia 29 de agosto, manifestantes convocados pela Frente Povo Sem Medo realizaram o que seria o primeiro protesto contra o novo presidente, sob a bandeira do “Fora Temer”.

É importante lembrar de uma coisa: naquele dia, o coordenador nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos, estava em Brasília acompanhando o discurso de Dilma Rousseff no Senado Federal. Para quem não sabe, o MTST é o principal componente de mobilização de rua dentro da Frente Povo Sem Medo.

E sem Boulos para ditar a organização do ato, sobrou para os militantes combativos, que vivem diariamente nas ocupações, lutando pelo direito a moradia, resistindo contra a violência policial nas reintegrações de posse.

E esses militantes não aceitaram um “não” da Polícia Militar, quando foram impedidos de andar livremente na Avenida Paulista para se manifestar em frente ao prédio da Fiesp, símbolo máximo do movimento anti-Dilma em São Paulo. E por terem decidido seguir o ato, acabaram sofrendo a repressão policial já vista em outras manifestações de movimentos não-organizados, como o Movimento Passe Livre (MPL) e os secundaristas.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Montaram barricadas — o que posteriormente acabou se tornando um símbolo de resistência nas manifestações durante a semana — , gritavam palavras de ordem, resistiram o máximo que puderam contra a Polícia Militar. Foi histórico.

Nos dias seguintes, as manifestações continuaram. Desta vez, com Guilherme Boulos de volta a São Paulo, sem a presença de “articulador” da Frente Povo Sem Medo. Foram atos convocados nas redes sociais, de forma espontânea, por grupos que talvez nunca haviam de fato organizado manifestações de rua. Mesmo assim, a adesão foi forte. Terça-feira, quarta-feira e quinta-feira. Não faltou repressão, mas não faltou resistência e aquela sensação de que existe uma real possibilidade de organização popular nas ruas para articular uma grande mobilização contra o atual governo.

Mas quando chegou domingo, a história começou a mudar.

O ato convocado novamente pela Frente Povo Sem Medo, desta vez, teve lideranças políticas. Teve carros de som. E teve principalmente uma criminalização desnecessária contra os movimentos autônomos, principalmente os adeptos da tática Black Bloc.

Isso tudo não impediu o ato de ser um sucesso. Mais de 100 mil pessoas marcharam em um dia histórico contra o presidente Michel Temer em São Paulo.

Mas isso tudo também não impediu a violência por parte da Polícia Militar, que inventou motivos para agredir a manifestação após seu encerramento, no Largo da Batata.

E o que aconteceu de lá pra cá?

As manifestações, que eram diárias, foram perdendo o fôlego. Mas não a adesão propriamente dita.

Na quarta-feira, feriado de 7 de setembro, pelo menos 20 mil pessoas marcharam no ‘Fora Temer’ organizado por movimentos autônomos. Os adeptos Black Bloc na linha de frente. Um jogral atrás do outro. Era visível a desorganização do grupo. Mesmo assim, nada que fosse motivo de crítica.

No final das contas, mostraram para a esquerda mais tradicional como funciona: máscarados na linha de frente e nenhuma lixeira quebrada. Nenhum vidro de banco quebrado. Ninguém ferido. Justamente porque a Polícia Militar, desta vez, não atacou.

Se na semana retrasada tivemos 6 protestos contra Michel Temer em 7 dias, na última foram 2 em 7.

É preciso falar sobre o protagonismo da juventude — e ir além: precisamos debater sobre o caráter espontâneo de uma grande mobilização contra Michel Temer, algo que pode ser feito através das redes sociais, permitindo ao manifestante o verdadeiro sentimento de fazer parte de alguma coisa, e não ser apenas mais um número final na manchete de jornal.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Você pode estar pensando: “Mas nada impede que os grupos autônomos organizem protestos contra Michel Temer”.

Claro, nada impede.

Mas não se trata da exclusão ou separação em definitivo de ambos os grupos de esquerda na mobilização, e sim na unidade como algo coletivo, construido de forma horizontal, para se tornar algo que possa trazer aquele núcleo de manifestantes que não seguem qualquer militância política, mas que estão insatisfeitos com a possibilidade de perder direitos trabalhistas, de perder direitos sociais.

Não se trata de excluir os movimentos mais tradicionais.

E sim de viabilizar uma nova forma conjunta, sem a velha criminalização, em busca de algo que possa realmente fazer tremer o Palácio do Planalto. Algo como foi em Junho de 2013. Algo que, se feito de forma correta, tem tudo para acontecer nos próximos dias contra Michel Temer.


Francisco Toledo é co-fundador e escritor pela Agência Democratize em São Paulo

By Democratize on September 12, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

Posts Relacionados

On Top
error: Para reproduzir o conteúdo do Democratize, entre em contato pelo formulário.
%d blogueiros gostam disto: