Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Por aliança com governo, MBL e grupos evitam utilizar “Fora Temer”

Mesmo após a grave denúncia do ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, envolvendo uma suposta pressão de Michel Temer em defesa dos interesses pessoais de Geddel, grupos que articularam o impeachment de Dilma Rousseff nas ruas evitam utilizar e demandar o “Fora Temer”. Motivo é a relação próxima entre MBL e Vem pra Rua com o Planalto: enquanto o MBL trabalha com ministérios como o da Educação, o Vem pra Rua tinha em uma das suas lideranças o braço direito de Geddel.

A situação em Brasília atingiu seu momento mais delicado desde o afastamento de Dilma Rousseff do Planalto, em maio deste ano.

Isso porque o clima nos bastidores é de incerteza após a polêmica declaração do ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, para a Polícia Federal envolvendo o nome do presidente Michel Temer (PMDB).

Antes de sair da pasta, Calero chegou a gravar as conversas que tinha com Temer e seu ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima – além do chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha. Calero narrou ter recebido pressão de vários ministros para que convencesse o Iphan a voltar atrás na decisão de barrar o empreendimento La Vue, onde Geddel diz ter adquirido um apartamento. Segundo o ex-ministro, porém, a pressão mais surpreendente veio do próprio Temer. Em depoimento para a Polícia Federal, Calero diz ter tido reuniões onde Temer pressionava e insistia para que ele levasse o processo sobre o prédio à Advocacia-Geral da União. Relatou ainda sua contrariedade com as pressões e desabafou com Nara de Deus, chefe de gabinete de Temer, que teria ficado “estupefata”.

A notícia de seu depoimento para a PF caiu como uma bomba em Brasília, resultando no pedido de demissão de Geddel na manhã desta sexta-feira (25).

Porém, analistas consideram que o atual cenário para Michel Temer já ultrapassou o desgaste, se tornando quase impossível sua continuidade.

Segundo Moysés Pinto Neto, professor na Universidade Luterana do Brasil, com doutorado em Filosofia na PUC do Rio Grande do Sul, a atual conjuntura política abre “uma pequena e brevíssima fresta […] para que se forme outra confluência monstruosa”, se referindo aos protestos de 2013.

“As barbeiragens do PMDB podem ter provocado uma curvatura que faz se encontrarem as ocupações, movimentos sindicais e batalhadores irresignados, de um lado, e a classe média na sua pauta anticorrupção, de outro. Compondo-se novamente esse arranjo Frankenstein, tudo pode mudar muito rápido no Brasil, a conjuntura pode virar mais uma vez e, no mínimo, adia-se um pouco o futuro tenebroso que se anuncia”, disse o professor em sua rede social.

A complexidade do atual cenário vai além: questões como a eventual aprovação da anistia ao caixa dois, articulada principalmente pela base do governo Temer e pelo presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM), causaram polêmica e muito debate nesta semana.

Isso tudo ocorrendo enquanto o governo do PMDB tenta aprovar no Congresso a “PEC do Fim do Mundo”, que pretende congelar gastos sociais na Saúde e Educação por pelo menos 20 anos. Esse projeto já causou nos últimos meses centenas de ocupações em universidades públicas e até mesmo privadas, além de milhares de escolas estaduais ao redor do país. Sem mencionar as intenções do governo para que, ainda em dezembro, a Reforma da Previdência passe pelo Congresso. Hoje, em clima de turbulência política, isso se torna cada vez mais distante para Michel Temer.

Protestos contra Dilma não pouparam o desejo de seu afastamento nos dois últimos anos | Foto: Wesley Passos/Democratize
Protestos contra Dilma não pouparam o desejo de seu afastamento nos dois últimos anos | Foto: Wesley Passos/Democratize

Grupos e lideranças anti-Dilma preferem o silêncio

Mesmo diante dessa catarse, as principais lideranças políticas e os grupos que realizaram manifestações contra Dilma Rousseff ainda preferem o silêncio.

Enquanto o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, tentou minimizar as acusações contra seu “amigo” Geddel, sinalizando o seu posicionamento pró-Temer, grupos como o Movimento Brasil Livre e Vem pra Rua se encontram em um fogo cruzado que pode resultar na debandada de seguidores para a esquerda.

Ambos prometem uma grande manifestação no dia 4 de dezembro, domingo, em todo o país. Porém, preferiram não “comprar” o “Fora Temer”, se guiando apenas na pauta anti-corrupção, vista como genérica e fraca para pressionar diretamente o Planalto e Congresso. Segundo esses grupos, a intenção dos protestos é forçar o Congresso a recuar sobre a anistia ao caixa dois, além do já tradicional “apoio a Lava Jato”.

Isso ocorre justamente pelos acordos feitos nos bastidores entre tais grupos e o governo de Michel Temer, antes mesmo do impeachment de Dilma Rousseff se desenrolar meses atrás.

Enquanto o MBL tem no Ministério da Educação de Mendonça Filho (DEM) a sua base dentro do Planalto, chegando a articular e se mobilizar contra as ocupações nas escolas para proteger seu “padrinho” em Brasília, o Vem pra Rua conta com uma de suas lideranças sendo o braço direito do já ex-ministro Geddel. Líder do grupo, Jailton Almeida assumiu o cargo de coordenador-geral de participação social na gestão pública do Palácio do Planalto. A promoção foi dada por Geddel, aumentando o dobro no salário do então funcionário público de carreira, que atuava apenas como analista técnico administrativo do Ministério da Integração.

O evento promovido pelo Vem pra Rua já reune mais de 36 mil pessoas confirmadas no Facebook em São Paulo, além de 49 mil interessados e 508 mil convidados.

Protesto contra Temer em setembro deste ano, em São Paulo, promovido pelas frentes de esquerda | Foto: Wladimir Raeder/Democratize
Protesto contra Temer em setembro deste ano, em São Paulo, promovido pelas frentes de esquerda | Foto: Wladimir Raeder/Democratize

Papel da esquerda nas ruas ainda é indefinido

Maior protagonista das mobilizações contra o governo desde que Temer assumiu o Palácio do Planalto, a esquerda ainda não definiu como será sua mobilização nas ruas para pressionar mais uma vez pelo “Fora Temer”.

Isso ocorre, em partes, por causa do posicionamento polêmico do Partido dos Trabalhadores diante da anistia ao caixa dois. O partido rachou na Câmara dos Deputados, com mais da metade preferindo apoiar o projeto. Outra parte, minoria, chegou a publicar uma nota oficial repudiando a tentativa de “legalizar a corrupção institucional”.

O que pode ser considerado o “pontapé inicial” da esquerda nas ruas contra Temer é o ato convocado para este domingo pela Frente Povo Sem Medo, encabeçada pelo MTST, na Avenida Paulista. Inicialmente, o ato se posicionava apenas contra a PEC 55/241 e contra o “avanço conservador” do governo de Temer e suas reformas. Além disso, as presenças do ex-presidente do Uruguai, Mujica, e do ex-presidente Lula (PT) haviam sido confirmadas para realizar discursos. O cenário mudou, e com isso outras demandas foram adotadas: o “Fora Temer” voltou, além da pauta contra a anistia ao caixa dois. Com isso, as então confirmadas presenças de Mujica e Lula foram canceladas.

Até o momento, quase 7 mil pessoas confirmaram presença no evento, além de 13 mil tendo interesse e quase 35 mil convidados.

De qualquer forma, ainda não se sabe como será o comportamento da esquerda nas ruas diante da real possibilidade de “repetir Junho”, como disse o professor Moysés Pinto Neto em seu Facebook. Porém, trata-se do momento mais delicado de Michel Temer na presidência, o que representa uma abertura que talvez seja muito difícil de encontrar novamente nos próximos dois anos.

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