Por Francisco Toledo

Pepe Mujica e a esquerda brasileira órfã

Pepe Mujica e a esquerda brasileira órfãPor Francisco Toledo


Foto: Fernando Frazão

Pepe Mujica e a esquerda brasileira órfã

Por Francisco Toledo

Na semana passada, o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica participou de um encontro com estudantes na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde deixou a Concha Acústica completamente lotada. No local: membros de coletivos e organizações pró-PT, de oposição de esquerda, progressistas, tradicionais… em um ambiente político crítico, a única personalidade capaz de unir a esquerda no Brasil veio de outro país.

Não é novidade que o ex-presidente do Uruguai, o famoso Mujica, é unanimidade quando o assunto é caráter e compromisso com aquilo que realmente acredita. Porém, foi curioso o fato de que precisamos de uma personalidade vinda de fora para conseguir unir no mesmo espaço pessoas que se auto-denominam esquerda de oposição ao governo petista, e também militantes de movimentos e organizações que defendem a gestão de Dilma Rousseff em Brasília.

Tal fato mostra com claridade a situação política na qual se encontra a esquerda brasileira nos dias de hoje. Após mais de 12 anos de gestão petista, ficou difícil o Brasil ter um nome forte que seja apoiado por todas as vertentes da esquerda no país. Antes de 2002, o mais próximo que tínhamos disso era o próprio ex-presidente Lula. Para alguns, as suas virtudes valeram mais a pena: a implementação de programas moderados de distribuição de renda que fizeram a linha da pobreza no país diminuir, como o Bolsa Família, ou uma política estrangeira mais independente, barrando a interferência dos Estados Unidos e do FMI no Brasil. Para outros, o ex-metalúrgico traiu as suas promessas, ao se aliar aos bancos, com políticas neoliberais, e principalmente com a classe política conservadora, encabeçada pela figura do seu ex vice-presidente, José Alencar. Com ele, vieram o PMDB, PP, e tantos partidos que se formos analisar na prática hoje no Congresso, atua mais como oposição de direita do que situação.

Vivemos um período pós-Lula em que não existe no Brasil nenhum nome capaz de lotar um espaço com tantos perfis diferentes, como Mujica fez no Rio de Janeiro na semana passada. E acredite, não é preciso muito para tal — o que mostra o quão órfãos estamos.

Foto: Fernando Frazão

O ex-presidente uruguaio está longe de ser um revolucionário socialista capaz de reverter o sistema e mudar paradigmas. Bem na realidade, ele apenas aplicou aquilo que pregou nos seus dias pós-revolucionários: um programa político reformista, de caráter progressista e que buscasse ao máximo diminuir as desigualdades entre os povos. Claro, todos o conhecem por suas medidas mais polêmicas — como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a legalização do uso da maconha e a legalização do aborto.

São medidas que, sim, são de fato importantes. Mas nada muito diferente do que se vê nos dias de hoje em países mais progressistas da Europa, ou até mesmo em estados norte-americanos. Até mesmo no discurso, o nosso querido Pepe já parece abandonar o seu viés mais radical, talvez por não acreditar mais naquilo pelo qual lutou — ou porque simplesmente ele tem a consciência de que sozinho não conseguirá absolutamente nada.

Mas para você ter noção do quanto o Brasil vive uma carência de políticos ou nomes fortes que representem de fato a vontade de mudança de toda uma população — principalmente no espectro de esquerda — acabamos precisando de uma pessoa de fora que, longe de ser revolucionário, acabe conseguindo unir todo um setor político.

Em um país onde a descriminalização da maconha avança com passos de tartaruga, onde a legalização do aborto é um sonho distante, onde qualquer taxa para ricos é vista como afronta com a democracia, ou onde a questão LGBT ainda é vista como um tabu em diversos setores da sociedade, uma pessoa como Mujica já seria considerado um salvador da pátria — e não um reconciliador, como de fato é. É injusto dizer que isso é um problema da América Latina, já que governos como o do Equador e Colômbia conseguem aplicar políticas progressistas com mais rapidez e eficiência do que o Brasil. Ou até mesmo sobre distribuição de renda, com exemplos como o chavismo na Venezuela e Evo Morales na Bolívia. Até mesmo na Argentina a situação política consegue ser mais agradável de opções e nomes fortes.

E quem poderia ser o nosso Mujica?

Temos sim, alguns nomes que possam trazer para a prática possíveis reformas progressistas que consigam mudar um pouco a cara da nossa sociedade. Não são revolucionários, não propõe uma mudança brusca no sistema, mas são reformistas e social-democratas no estilo europeu, que possuem todas as chances de conseguir disputar o voto do manifestante anti-Dilma — pelo menos aqueles despolitizados, que não possuem um viés ideológico necessariamente aplicado, ou seja, a metade.

Um dos nomes mais interessantes no cenário brasileiro atual é o de Marcelo Freixo, deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Ele conta com o mesmo carisma e ideias de Mujica, mas o fator principal é: ele acredita naquilo que fala, e transmite isso. Em um Brasil onde políticos mudam de partido a cada quatro anos, e de opinião a cada dois, é raro encontrarmos alguém como Freixo. Primeiro pela sua incansável luta por um sistema de segurança mais humano e justo, que não veja o morador da periferia como inimigo, e sim aliado.

Marcelo Freixo — Foto: Daryan Dornelles

Vale lembrar que Freixo foi o deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro em 2014, e é visto hoje como um dos nomes favoritos para a eleição no ano que vem — contando com a possibilidade de receber apoio do próprio Partido dos Trabalhadores no Rio.

A característica mais impressionante de Freixo é que ele possui um direcionamento político bem aplicado. Ele poderia ter sido candidato para governador do estado do Rio no ano passado — onde conseguiria competir de frente com o atual governador Pezão (PMDB), indicado pelo ex-governador Sérgio Cabral. Também poderia querer mais — uma cadeira no Congresso Nacional, ou até mesmo no Senado. Afinal, ele tem um nome construído e estabelecido, e qualquer político hoje em dia acabaria por fazendo isso. Mas não. Freixo tem um direcionamento específico: a prefeitura do Rio de Janeiro. E enquanto não consegui-lá, seu trabalho na ALERJ continuará com toda a força possível.

Existem sim, outros nomes capazes de construir uma fama dentro da esquerda no Brasil, e encher quadras e faculdades para debate: Luciana Genro (PSOL), o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), entre outros. Mas ambos, não possuem mais unanimidade. Não são a primeira escolha de um, mas talvez seja de outro. A diferença deles com Mujica é que o ex-presidente uruguaio é a escolha de ambos.

Em um Brasil órfão do antigo PT, vivemos dias difíceis. Mas nada que não possa ser superado.

By Democratize on August 31, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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