“Na Europa, as decisões são tomadas em Bruxelas. Nos Estados Unidos, cerca de 70% da população — que são os com rendimentos mais baixos …

Para Noam Chomsky, a democracia como conhecemos será coisa do passado

Para Noam Chomsky, a democracia como conhecemos será coisa do passado“Na Europa, as decisões são tomadas em Bruxelas. Nos Estados Unidos, cerca de 70% da população — que são os com rendimentos mais baixos …


Para Noam Chomsky, a democracia como conhecemos será coisa do passado

Acervo Pessoal

“Na Europa, as decisões são tomadas em Bruxelas. Nos Estados Unidos, cerca de 70% da população — que são os com rendimentos mais baixos — está totalmente desvinculada do processo político”, lamentou o linguista e intelectual histórico norte-americano Noam Chomsky.

Questionado, durante uma entrevista ao El Mundo, sobre os dados da World Value Surveys, e sobre o fato deles revelarem que o apoio à democracia “está a cair em todo mundo”, o politólogo assinalou não estar de acordo com esta interpretação.

Segundo Chomsky, o que está a cair é o “apoio às democracias formais porque não são verdadeiras democracias”.

“Na Europa, as decisões tomam-se em Bruxelas. Nos EUA cerca de 70% da população — os 70% com rendimentos mais baixos — está totalmente desvinculada do processo político”, o que “demonstra que há uma correlação enorme entre nível econômico e educativo e mobilização política”, avançou.

“Não é de estranhar que as pessoas não se entusiasmem com a democracia”, sublinhou ainda.

O linguista destacou que as políticas neoliberais impostas pelas elites foram extremamente negativas e que, na Europa, “aplicar austeridade no meio de uma recessão foi absurdo, e inclusive os economistas do FMI criticaram os seus efeitos nos países periféricos do euro, como Espanha”.

“É algo que só pode se explicar como luta de classes: o objetivo era minar a democracia e eliminar as conquistas da social democracia, que tinham sido bastante significativas. Neste contexto, não deveria surpreender-nos que tenha havido uma resposta”, frisou.

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, do Syriza | Foto: Vagelis Poulis

Para Chomsky, esta situação poderá talvez levar-nos a mais democracia, referindo que essa tem sido a reivindicação do Podemos, bem como foi a do Syriza “antes de capitular”: “O caso grego é interessante. Convocaram um referendo. Que os gregos tenham voz nos seus assuntos não é antidemocrático. O que foi antidemocrático foi a reação tão histérica da UE. O Syriza foi pulverizado pelos eurocratas, para demonstrar aos europeus que deviam abandonar toda a esperança de ter mais democracia”.

Sobre a questão dos refugiados, Chomsky criticou a atuação dos Estados Unidos e da Europa, lembrando que países como o Líbano ou a Jordânia estão acolhendo muitos mais refugiados, ainda que “essas pessoas fujam de guerras causadas, em grande parte, pelas políticas de Ocidente”.

“Por sua vez, em países como França, com a Frente Nacional, ou Alemanha, com os neonazis, a chegada desses refugiados está provocando reações nacionalistas”, lamentou.

“Essa é a verdadeira crise, não a dos refugiados”, alertou, fazendo referência a Donald Trump, “com a sua rejeição aos refugiados do Oriente Médio” e a Obama, “que é o presidente que expulsou mais imigrantes sem documento”.

“As políticas de Obama para o México e as da Alemanha para a Turquia são muito similares. Ambos dizem a esses países: ‘Você fica encarregado dessa gente. Os mantenha longe da nossa fronteira’”, afirmou o ativista político.

Sobre o seu apoio a Bernie Sanders, Chomsky sublinhou que “é interessante que o chamem radical”.

“Se analisarmos o seu programa, é muito do New Deal [as políticas econômicas que os EUA utilizaram para combater a Grande Depressão]. Eisenhower não se teria oposto a Sanders. Ele apoiava uma saúde pública. E o sistema de saúde dos EUA é uma vergonha”, avançou.

O pré-candidato democrata Bernie Sanders, em comício nos Estados Unidos | Foto: Daniel Maldonado

Segundo Noam Chomsky, a visita de Obama a Cuba é “um sinal de que o poder dos Estados Unidos está diminuindo muito rapidamente”. “E quando digo poder falo da capacidade de impor decisões a outros países, que é a definição de poder em Relações Internacionais”, esclareceu.

Lembrando que, em 2014, na Cimeira das Américas que se celebrou em Santiago do Chile, os EUA não tiveram quaisquer apoios em duas matérias — a sua política em relação a Cuba e a guerra contra as drogas — o linguista sublinhou que na realidade, eram os EUA que corriam o risco de ficarem isolados.

Sobre a possibilidade de existir um conflito entre os EUA e a China, Chomsky considera que esse risco não se coloca atualmente, já que “a China tem uma política exterior e de defesa dissuasora, não para projetar o seu poder”, com exceção do Mar do Sul da China [uma parte do Pacífico equivalente a sete vezes Espanha que Pequim está a anexar na prática].

“O verdadeiro problema é com Rússia”, assinalou o ativista político, recordando que há pouco tempo o ex secretário da Defesa William Perry afirmou que o risco de um conflito nuclear com a Rússia é agora maior que durante a Guerra Fria”, existindo “um arco de instabilidade ao longo da fronteira oeste da Rússia, desde os Estados bálticos até à Turquia, passando pela Ucrânia”.

O grupo de extrema-direita neonazi Right Sector, durante manifestações na Ucrânia em 2014 | Foto: Tomas Rafa

Chomsky assinalou que, “quando acabou a II Guerra Mundial, os EUA tinham mais poder do que alguma vez qualquer país teve na História”, contudo, depois “o mundo econômico deixou de ser unipolar, passando a ser tripolar, um ao redor dos EUA, outro da Alemanha e um do Japão — e agora é multipolar, com a emergência dos BRIC [o acrónimo formado por Brasil, Rússia, Índia, e China], Taiwan e outras locomotoras econômicas”.

“Do ponto de vista militar, os Estados Unidos não têm rival”, mas isso “não se traduz numa capacidade para impor o seu ponto de vista aos demais”, apontou, acrescentando que “quando o Governo de Obama diz que ‘lidera desde atrás’, não está a mentir”.

O linguista lembrou que “essa expressão nasceu durante a intervenção na Líbia em 2011, que foi liderada pela Grã-Bretanha, que empurrou a França, que empurrou os Estados Unidos”, e que, “agora, a política dos EUA na Síria é totalmente contraditória”.

“Obama está a apoiar o grupo mais efetivo na luta contra o Estado Islâmico, que são os curdos sírios, mas esses mesmos curdos têm vínculos com os curdos do Iraque, entre os quais há organizações que os EUA consideram terroristas”, referiu, lembrando ainda que “os curdos da Turquia são considerados pelo Governo desse país — que é um dos membros mais importantes da NATO — a maior ameaça para a sua segurança nacional”.

Para Chomsky, não há nenhuma grande potência que seja um modelo: “As grandes potências não são a Oxfam, e sim aquelas que se baseiam na maximização do poder. Às vezes, as suas consequências são benéficas, mas de forma involuntária”.


Matéria traduzida e elaborada pelo site português Esquerda.Net

By Democratize on April 28, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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