Foto: Wladimir Raeder/Democratize

Para empresário muçulmano, perseguição deve desencadear xenofobia no Brasil

Em julho deste ano, a Polícia Federal prendeu pelo menos 10 pessoas suspeitas de ligação com o terrorismo no Brasil. Sem provas concretas e apenas com suposições, a ação foi feita com cunho midiático, segundo o empresário muçulmano Ali Said Sati. Para ele, medida tomada pelo ministro Alexandre de Moraes deve desencadear uma xenofobia jamais vista no Brasil

Com informações de Wladimir Raeder

Em julho deste ano, alguns dias antes do começo dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, a Polícia Federal começou a Operação Hashtag. Comandada pessoalmente pelo Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, a intenção era prender brasileiros que estariam planejando ataques terroristas durante o evento no Rio.

Inicialmente, era isso que se imaginava. Porém não foi bem assim.

Dez pessoas foram presas na operação, e nenhuma delas sequer com provas concretas.

Utilizando como base a lei anti-terrorismo, aplicada pelo governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), as prisões foram feitas a partir de suposições. O próprio Alexandre de Moraes, durante entrevista coletiva, afirmou que nenhum dos investigados tinham ligação ou contato com membros do Estado Islâmico, tratando-se de uma “célula absolutamente amadora”, porque não tinha “nenhum preparo”.

Um dos fatores que levaram a operação, foi a tentativa de compra de uma arma AK-47 no Paraguai. Para Moraes, isso já era o suficiente.

O Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes | Foto: Edson Cruz Costa

Na época, a forma como foi conduzida a operação por Moraes chegou a incomodar o próprio presidente Michel Temer (PMDB), que não gostou do status midiático da operação, e principalmente do modo como Alexandre de Moraes preferiu “tomar os créditos”.

Para Ali Said Sati, empresário muçulmano e brasileiro, a Operação Hashtag não passou de uma atitude midiática por parte do Ministro da Justiça.

“Eu acho que o que ele quis ali foi mostrar que eles estão preocupados com a questão terrorista em relação às Olimpíadas. Também acho que o ministro fez uma operação midiática pra inglês ver, e usou de maneira irresponsável pessoas para ele mostrar isso ai”, disse o empresário em entrevista para a Agência Democratize.

Segundo Ali, boa parte da comunidade muçulmana no Brasil comparou a situação pós-prisões com o 11 de setembro de 2001, quando a Al Qaeda atacou a cidade de Nova York atingindo o World Trade Center: “Quando teve o ataque, começou uma certa discriminação que não existia, e a gente ficou muito preocupado com isso”.

As prisões sem nenhuma prova concreta podem gerar casos de xenofobia mais intensos no Brasil, o que seria uma responsabilidade do Estado brasileiro, segundo o empresário.

Os ataques e preconceito contra a comunidade muçulmana no Brasil já começaram, nos contou Ali, sendo as redes sociais o palco principal da xenofobia. “Inclusive na internet você vê muita xenofobia, que você não via antes das prisões desses meninos”, disse.

Recentemente, o Ministério Público Federal denunciou pelo menos 8 presos por ações ligadas ao terrorismo. Os procuradores federais pediram a extensão da prisão preventiva dos denunciados até o fim das investigações policiais. Os oito devem responder pelos crimes de promoção de organização terrorista e associação criminosa, e cinco deles também foram denunciados por incentivo de crianças e adolescentes à prática de atos criminosos, além de um deles também responder por recrutamento para organização terrorista, informou o MPF em comunicado.

Segundo Ali, a postura conservadora da mídia também acaba influenciando na xenofobia e na perseguição contra a comunidade muçulmana no Brasil, como foi o caso da Revista VEJA, que publicou neste ano uma reportagem chamada ‘Um jihadista no Brasil’.

“Muitos brasileiros estão se convertendo. É o caso de uma mesquita aqui no Embu, conheço todos os meninos de lá. A mesquita que eles fizeram em uma quebrada ai, coisa mais linda. Pessoal que recuperou sua auto-estima indo para o Islã. E de repente saiu na VEJA, de uma maneira bem tipica dela de xenófoba, uma reportagem que os caras estavam recrutando pro Estado Islâmico… Fico triste pra caramba, porque conheço todos eles, não possuem ligação com ninguém de fora”, desabafou o empresário.

Veja a entrevista completa, com imagens de Wladimir Raeder:

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