Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Os seguidores do MBL começam a questionar o envolvimento do grupo com Temer

Com Michel Temer cada vez mais próximo do final prematuro de seu governo, um dos protagonistas do processo de impeachment de Dilma Rousseff parece perder a confiança dos próprios seguidores diante de seu silêncio e aliança com o governo. Sem críticas diretas ao presidente, o Movimento Brasil Livre prefere perseguir o movimento feminista e fazer lobby em defesa da PEC que congela o orçamento de Saúde e Educação por 20 anos.

“Ainda esperando o MBL organizar manifestações contra Temer. Impressionante, o PT já saiu do poder, Lula, Dilma e demais, mas o MBL continua falado do passado. E por incrível que pareça, não fala dos escândalos de corrupção de Temer, atual governo”.

O comentário acima foi o mais curtido em uma das publicações do Movimento Brasil Livre neste domingo (11) em seu Facebook, onde critica – mais uma vez como de costume – a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a ex-presidente Dilma Rousseff. Seguindo o mesmo padrão, das últimas semanas pra cá o descontentamento dos seguidores do grupo só aumenta a cada postagem feita na página oficial.

O motivo? O grupo que foi um dos protagonistas do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) parece ignorar a impopularidade do atual presidente por causa de sua aliança com o atual governo federal.

Trata-se do pior momento de Michel Temer (PMDB) no Palácio do Planalto desde que assumiu a presidência, em maio deste ano. Segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha neste domingo, Temer deve viver seus últimos dias na cadeira do cargo mais importante do país. Isso porque, de acordo com o levantamento, 51% dos brasileiros consideram a gestão do presidente como ruim ou péssima, comparando com os 31% do mês de julho.

Segundo a pesquisa, 40% dos entrevistados ainda consideram o governo de Temer como pior do que o de Dilma Rousseff, enquanto 34% consideram igual e apenas 21% melhor. Para 75% da população, indica o Datafolha, Temer representa a defesa dos setores mais ricos da sociedade, além de 65% dos entrevistados o considerarem como “presidente falso”. Mais de 60% defende, hoje, a realização de novas eleições diretas ainda neste ano para o cargo da presidência da República.

Observação importante: a pesquisa foi realizada ainda antes do período mais turbulento do governo do PMDB. Quando feita, a delação da Odebrecht ainda não havia sido vazada pela imprensa.

Foto: Beto Barata/PR/Fotos Públicas
Foto: Beto Barata/PR/Fotos Públicas

Ou seja, o cenário deve se tornar ainda mais inviável para o presidente nas próximas duas semanas. Isso porque Temer foi um dos políticos mais citados nas delações da Odebrecht nesta semana: seu nome apareceu cerca de 43 vezes. Seu braço direito e ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, foi mencionado 45 vezes, além de Moreira Franco (secretário de Parceria e Investimentos do governo), que foi citado 34 vezes. Mais que Temer apenas seu ex-ministro Geddel Vieira Lima, que aparece em 67 trechos das delações, além do “campeão” e líder do governo no Congresso, o senador Romero Jucá (PMDB) que tem 105 menções nos relatos. Vale lembrar que Jucá também foi ex-ministro de Michel Temer, caindo nas primeiras semanas de governo após vazamento de gravações com o empresário Sergio Machado, onde os áudios mostram uma articulação para a derrubada de Dilma em prol da classe política contra a Operação Lava Jato.

Segundo a delação, Temer incumbiu Padilha de operacionalizar pagamentos da campanha de 2014, quando pediu pessoalmente a quantia de R$10 milhões a Marcelo Odebrecht, em um jantar no Palácio do Jaburu em março de 2014. “Foi ele [Padilha] o representante escolhido por Michel Temer – fato que demonstrava a confiança entre os dois -, que recebeu e endereçou os pagamentos realizados a pretexto de campanha solicitadas por Michel Temer […] Após a chegada de Michel Temer, sentamos na varanda em cadeiras de couro preto, com estrutura de alumínio. No jantar, acredito que considerando a importância do PMDB e a condição de possuir o Vice-Presidente da República como presidente do referido partido político, Marcelo Odebrecht definiu que seria feito pagamento no valor de R$10 milhões”, disse o delator Melo Filho.

Além de Temer, Padilha, Moreira Franco, Jucá e Geddel, outros nomes importantes da base de sustentação do governo foram citados:

  • Renan Calheiros (PMDB): o presidente do Senado recebeu apelido de “Justiça” na lista de codinomes da empreiteira
  • Rodrigo Maia (DEM): o presidente da Câmara teria recebido R$100 mil, sob o codinome de “Botafogo”
Foto: Wesley Passos/Democratize
Foto: Wesley Passos/Democratize

Mas parece que isso não é o suficiente para o Movimento Brasil Livre se afastar do atual governo, conforme pede seus seguidores.

A proximidade do grupo liderado pelo jovem Kim Kataguiri é baseada em interesses políticos e pessoais dos investidores do MBL, que apostam na aprovação de medidas de austeridade como a PEC 241/55, que pretende congelar os gastos com Educação e Saúde por 20 anos e enfrenta apenas mais uma votação no Senado para ser aprovada. Além de outras reformas defendidas pelo governo, como a da Previdência e a Trabalhista.

Em defesa da PEC 241/55 e da Reforma do Ensino Médio, o MBL se mobilizou em todo o país para rechaçar as ocupações nas escolas e universidades públicas, que ocorrem desde o mês de setembro. A ação do grupo chegou a resultar em agressões físicas e ameaças de morte pelas redes sociais.

No dia 4 deste mês, o MBL chegou a ir para as ruas junto com demais grupos “em defesa da Operação Lava Jato”. O chamado foi feito de última hora, pois o grupo temia a adesão ao grito “Fora Temer”. O resultado: em São Paulo, menos de mil pessoas acompanharam os discursos das lideranças do grupo na Avenida Paulista, enquanto mais de 10 mil manifestantes estavam ao lado do caminhão do principal movimento, Vem pra Rua. A atuação do MBL chegou a ser comparada com a fraca adesão dos intervencionistas pró-militar, que também levaram caminhão de som.

Neste ano, o MBL chegou a eleger lideranças do grupo em cargos políticos nas eleições, como foi o caso de Fernando Holiday, eleito vereador em São Paulo pelo DEM – um dos partidos mais citados na recente delação da Odebrecht. Outros partidos como PMDB, PSDB e PP também estão claramente envolvidos e contaram com candidaturas do grupo neste ano.

Separamos alguns comentários dos seguidores do próprio MBL criticando a atuação do grupo. Veja:

Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook

 

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