Na última sexta-feira (6) o Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, o primeiro colégio ocupado na cidade do Rio de Janeiro, foi cenário…

Ocupa, Desocupa: E a Culpa?

Ocupa, Desocupa: E a Culpa?Na última sexta-feira (6) o Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, o primeiro colégio ocupado na cidade do Rio de Janeiro, foi cenário…


Ocupa, Desocupa: E a Culpa?

Foto: Bárbara Dias/Democratize

Na última sexta-feira (6) o Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, o primeiro colégio ocupado na cidade do Rio de Janeiro, foi cenário do confronto entre alunos de dois movimentos divergentes, o Ocupa e o Desocupa. O Democratize esteve presente durante o confronto, que se manteve em alta durante todo o dia.

Os secundaristas do movimento de ocupação das escolas, que já são mais de 70 instituições em todo o estado, estavam cientes da reunião que aconteceria com os membros do Desocupa na manhã da última sexta-feira. No dia anterior, os alunos receberam a informação de que um membro do Ministério Público estaria presente na reunião, por isso demandaram a ajuda jurídica da advogada de direitos humanos Eloisa Samy, que compareceu à escola antes mesmo do início da reunião. Segundo a advogada, os estudantes mostraram áudios enviados por membros do Desocupa que continham ameaças aos secundaristas que estavam na escola. Às 10 horas da manhã os alunos do Descoupa já estavam na porta da escola e com um martelo quebraram o portão, enquanto gritavam ameaças aos secundaristas que se localizavam no segundo andar da instituição. Os ânimos esquentaram e as agressões se tornavam cada vez mais próximas de ultrapassar o campo verbal e atingir o físico. A escola se tornou um campo de batalha.

Os ocupantes buscavam manter a calma frente aos gritos e atitudes hostis dos alunos decididos a desocupar a escola, que utilizavam a necessidade de volta as aulas como justificativa pelos seus atos. O segundo andar se tornou o espaço principal para compreender o que acontecia: de um lado, cercados e praticamente impedidos de se locomover, alunos do movimento Ocupa. Do outro, alunos gritando ameaças e pressionando a saída dos secundaristas que, apesar da pressão, não cediam e nem abaixavam a cabeça. A parcialidade que a visão nos limita facilmente faria crescer a comoção com os secundaristas que ocupam a escola: uns choravam dentro da sala em que estavam os colchonetes e os mantimentos, outros choravam apresentando hematomas de agressão e todos, quase que organizados, mantinham o mesmo olhar perdido frente ao desespero que a situação se tornava. O Democratize resolveu se aproximar do olhar desiludido e perguntar por qual motivo ele estava ali, onde antes habitava garra e coragem.

‘’Nesse exato momento estão tentando nos tirar a força daqui. Eu fico triste em ver uma revolução que chegou a esse patamar sofrer agora tanta afronta e tanto regresso. Infelizmente, estou vivendo pra ver isso acontecer, estudante contra estudante, e eu não consigo entender um movimento que chegou nessa magnitude ser freado pelos próprios estudantes’’ (Relatou um dos secundaristas do Ocupa Mendes, que preferiu não se identificar)

Desviar o ponto de vista para o outro lado não terminava com a percepção dos olhares desiludidos, que eram os mesmos — mas em um lado oposto do campo.

Foto: Bárbara Dias/Democratize

‘’O que eles estão exigindo é justo. Uma estrutura melhor, mais salas, já que as turmas estão super lotadas. O ar condicionado não é dos melhores, é horrível. Mas a gente tinha que conseguir passar por isso pelo menos para ultrapassar o ano letivo. Eu estou no terceiro ano e preciso terminar o ensino médio. Eu não tenho opção de outro colégio e tenho que fazer o ENEM. Eu preciso entrar numa faculdade, eu entendo que a escola publica é defasada, como tudo aqui no Brasil… Eu não estou desmerecendo a luta deles, mas também tem que ver o nosso. Eu prefiro terminar os estudos do jeito ruim que está do que não terminar.’’. (Relatou uma aluna do Desocupa)

Enquanto alunos do Desocupa fechavam as portas com vassouras para que as salas não voltem a ser invadidas, alunos do Ocupa corriam na tentativa de impedir que um homem, que segundo eles fazia parte da diretoria da escola, desligasse todo sistema de luz do prédio. O desespero tomava conta do lugar e os olhares, a cada minuto, ficavam mais perdidos e tensos.

Dados estatísticos comprovam a veracidade da necessidade de exigência dos alunos que ocupam as escolas. Dados estatísticos também comprovam a precariedade dos alunos de escolas publicas frente à concorrência no ENEM. Dados estatísticos, mais do que a parcialidade emocional que a situação desperta, guiam a reflexão ao caminho da compreensão de todo o conflito. Sempre que falo de compreensão sou guiada por uma citação lida a um tempo, de uma historiadora alemã.

Foto: Bárbara Dias/Democratize

‘’Compreender não significa negar o ultrajante, subtrair o inaudito do que tem precedentes, ou explicar fenômenos por meio de analogias e generalidades tais que se deixa de sentir o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa antes examinar e suportar conscientemente o fardo que os acontecimentos colocaram sobre nós — sem negar sua existência nem vergar humildemente a seu peso, como se tudo o que de fato aconteceu não pudesse ter acontecido de outra forma. Compreender significa, em suma, encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela — qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido.” (ARENDT, 2011)

Encarar a realidade é não descartar lados, mas compreender suas essências e respeitá-las. Mas jamais ausentar se de reconhecer a culpa. Alunos que clamam pela desocupação de escolas podem estar sendo guiados pelo senso comum, pelo comodismo, pela conivência já tão naturalizada no nosso estado, pela pressão dos pais, pelo medo do futuro… Teorias não faltam para descrevê-los. Os secundarista que ocupam as escolas estão sendo guiados por terceiros, dizem alguns. Guiados pelo instinto agressivo de vandalizar e bagunçar ambientes, pela anarquia criminosa que a grande mídia insiste em utilizar para adjetivar todo ato que vá contra o senso comum. Pensar em teorias para descrever cada um dos movimentos e ceder a tentativas falidas de demonizar um dos lados deveriam ser esquecidas para que se possa buscar a questão que a compreensão desperta. Ocupa, Desocupa… E a culpa? A culpa do Estado que promove esforços para olharmos dois lados quando o questionamento a priori deveria estar bem no topo.

Compreendo que quero passar no ENEM. Eu quero ter uma merenda saudável e respeitosa. Eu quero que entendam que as cidades estão cada vez mais quentes e eu preciso de ar condicionado funcionando — do contrário, me falta concentração pra qualquer outra coisa que não seja o martírio causado pelo calor.Eu quero um passe livre. Eu quero material didático de ponta, daqueles que os filhos de chefe de estado utilizam… Sabe? Eu quero ter professores ganhando salários dignos, porque eles me dignificam. Eu quero uma sala bem pintada e decorada, igual as que eu vejo em gabinetes de Brasília. Eu quero ser educado. Eu quero ser muito bem educado! Para que um dia, talvez, eu esteja em Brasília e eu me lembre de compreender os estudantes, já que fui um — e lutei como um estudante deve lutar. Eu quero respeito. Eu quero direito e deveres sendo cumpridos pelo Estado! Do contrário, como irei cumprir e reconhecer os meus? Eu sou ocupa com força. Eu sou desocupa com necessidade. Mas a culpa não é do estudante. A culpa é do estado.

Foto: Sara Vieira/Democratize


Texto por Sara Vieira, colaboradora da Agência Democratize no Rio de Janeiro

By Democratize on May 9, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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