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O que pensam os moradores de prédios ocupados sobre o filme Aquarius?

A Agência Democratize convidou moradores de ocupações e militantes do movimento sem teto de São Paulo para assistir o filme Aquarius, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Para isso, contou com o apoio do Circuito SP Cine*, que cedeu uma sessão gratuita do longa metragem na Galeria Olido.

O filme que aborda a especulação imobiliária foi lançado nos cinemas no dia 1º de setembro e esteve entre os mais cotados para ser o brasileiro indicado para concorrer à categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar 2017. No entanto, após a repercussão de uma série de manifestações políticas realizadas pelo elenco em festivais brasileiros e internacionais contra Michel Temer, o longa – elogiado pela crítica internacional e que esteve no ranking das maiores bilheterias do Brasil – sequer entrou para a disputa.

No filme, a personagem Clara, interpretada por Sônia Braga, é uma jornalista aposentada, mãe de três filhos adultos, viúva e sobrevivente de um câncer de mama, que mora em um antigo prédio – o Aquarius – em uma região privilegiada de Recife (PE). No entanto, uma construtora que quer fazer um novo empreendimento no local adquire todos os prédios da vizinhança, exceto o de Clara, que é enfática ao declarar para amigos, família e empreiteira que sua casa não está à venda e que ela não se mudará do local. Para pressioná-la a mudar de ideia, a empresa passa a fazer ameaças e cometer assédios, que vão se tornando cada vez menos velados, ainda que o discurso seja de “sempre abertos ao diálogo”.

Para Carmen Ferreira, líder do MTSC (Movimento Sem Teto do Centro), ainda que a questão da moradia apareça no filme sob a ótica dos mais abastados, o filme tem forte correlação com o movimento sem teto. “A especulação imobiliária é o câncer das cidades, o câncer urbano […] Vivemos a mercê de pequenos grupos, canalhas, bandidos, que se colocam numa posição dessa, e se vinculam à essa especulação”, comenta.

Sua filha, Preta Ferreira, complementa que a relação de poder usada pelas empreiteiras para pressionar a evacuação de um prédio é contraditória à função social que um edifício deve ter. “O setor imobiliário compra o prédio, se apodera e quer que a minoria saia, para fazer o que quiser. E se não conseguir, o prédio fica lá, abandonado, sem função social na propriedade. Não interessa se tem cupim, rato ou barata, ele quer o prédio, o prédio é dele. Mas se o prédio não tem função social da propriedade, por que vai ficar com as empreiteiras? Tem que ficar com a população de baixa renda sim”, reforça.

Aqui vale uma pausa. O movimento sem teto em que Carmen e Preta atuam conta, hoje, com dez ocupações no centro de São Paulo. São prédios que estavam abandonados e depredados há muitos anos, com grandes dívidas com o município, estado ou União, enquanto famílias de baixa renda não conseguem encontrar opções de moradia com prestações condizentes a seus salários. Mas, quando um prédio é ocupado, ele ganha função social, como moradia para crianças, jovens, adultos e idosos, entre brasileiros, imigrantes e refugiados, que passam a cuidar do local através de mutirões de limpeza, pintura e elétrica, preocupando-se em não interferir em partes estruturais do prédio.

Ocupação José Bonifácio, no centro de São Paulo - FLM || Foto: Victor Amatucci / Democratize
Ocupação José Bonifácio, no centro de São Paulo – FLM || Foto: Victor Amatucci / Democratize

Assim, pode-se dizer que o movimento de moradia transforma locais abandonados e depredados em um lar organizado e com capacidade produtiva e residencial, como é o caso da Ocupação Cambridge*, onde vive Josiane Nascimento há 1 ano e meio, também espectadora de Aquarius. Para ela, o filme é uma boa oportunidade de reflexão, porém, traz uma realidade mais “civilizada” quando comparada à forma como os movimentos de moradia são tratados. “Dentro das ocupações não tem adesivinho na parede avisando que é para sair. E, ao invés das imobiliárias ou empreiteiras chegarem, é a PM e o oficial de Justiça, que não querem saber se são famílias de bem, se tem crianças, idosos, deficientes físicos. Não tem essa de senhorzinho chegando de terno e gravata. A realidade é totalmente diferente, a reintegração de posse é com Choque e gás de pimenta na cara de quem for; não importa se é trabalhador, tem que sair”, denuncia.

Aproximadamente 500 pessoas vivem no prédio de Josiane. São 178 famílias. Cerca de 160 moradores são crianças, jovens e idosos. Além de brasileiros, também há, na ocupação, refugiados e imigrantes do Haiti, Congo, Nigéria, Bolívia, Peru e Paraguai. No dia seguinte à ocupação do edifício, realizada há 6 anos, os novos moradores retiraram cerca de 15 toneladas de lixo. Foram necessários quase 60 caminhões da prefeitura para retirar o entulho colocado para fora do prédio. Portanto, não fosse a ocupação, o prédio possivelmente ainda estaria sujo, abandonado e as famílias, nas ruas.

Ao contrário dos mitos sobre como é a vida nas ocupações, há trabalhadores, crianças e idosos; um dos critérios para morar no local é manter os filhos na escola
Ao contrário dos mitos sobre como é a vida dentro nas ocupações, há trabalhadores, crianças e idosos; um dos critérios para morar no local é manter os filhos na escola | Foto: Victor Amatucci / Democratize

Juciara Barros Araújo, a Jully, que mora na ocupação José Bonifácio, corrobora a opinião de Josiane quanto à pressão vivida cotidianamente por quem faz parte do movimento sem teto. “Nas ocupações, a gente sofre opressão, tentativas de suborno, quem faz parte do movimento de moradia sabe como é nosso dia-a-dia, como é, às vezes, não poder dormir por medo da opressão policial, as mensagens que recebemos, maconha que é colocada dentro do prédio para criar provas contra o movimento… É uma luta constante. E o que a personagem do filme mostra é que a gente tem que lutar, persistir. Nós somos subestimados e devemos mostrar para “eles” que o capitalismo não vence.”

Mas dentro desta luta, há ainda outro paralelo com o longa metragem; este, afetivo. Quem mora em uma ocupação também tem história. É o que relembra Felipe de Araújo, que mora com sua mãe e seu irmão na Ocupação Lord, localizada no bairro Santa Cecília, São Paulo. O imóvel, que já foi um hotel famoso por conta dos artistas que se hospedavam na década 90, ficou abandonado por muitos anos, até que as famílias da FLM (Frente de Luta por Moradia) o ocuparam, em 2012. Atualmente, aproximadamente 400 famílias moram na mesma ocupação de Felipe, que comenta a história de vida da personagem do filme Aquarius correlacionando-a às múltiplas vivências de quem faz parte da luta por moradia. “Ela [a personagem Clara] apenas queria se manter morando em um lugar onde teve uma história de vida, criou seus filhos e viveu diversas experiências bacanas. O dinheiro não apaga a história que você vive em um lugar”, destaca.

A relação afetiva com o lar faz parte de trajetória de Felipe, que cresceu junto à luta popular pelo direito à moradia, vendo centenas de famílias criarem laços dentro das ocupações, um olhando pelo outro, e jovens como ele buscando oportunidade de formação, desenvolvimento e cidadania, tornando-se protagonistas do próprio futuro. Ele mesmo, ingressou no curso de Direito em 2014, motivado por uma moça que participava de um grupo de base em que auxiliava. “Minha mãe na época ficou muito entusiasmada, por conta de eu ser o primeiro membro da família a fazer uma faculdade”, relembra, rebatendo as críticas de que quem está nas ocupações é um invasor sem propósito.  “A gente vê que o imóvel, o prédio, sempre é colocado à frente do que as pessoas precisam, quando deveria ser o contrário”, reforça.

Confira alguns dos relatos pós exibição do filme:


*A Agência Democratize agradece à equipe do Circuito SP Cine pela sessão de cinema oferecida gratuitamente a todos, no dia 19 de outubro, para exibição do filme Aquarius.

**Nesta terça-feira (25), às 21h50, ocorre a primeira exibição em São Paulo do filme “Era o Hotel Cambridge, durante a Mostra Internacional de Cinema. O filme narra a trajetória de um grupo de refugiados que divide com os sem-teto uma ocupação no centro de São Paulo A sessão é no Cinearte (Av. Paulista, 2073).

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