Hoje, muitos se questionam sobre os motivos de não conseguirmos “repetir a dose”, se referindo aos gigantes protestos ao redor do Brasil em…

O que marcou a vitória dos protestos em 2013?

O que marcou a vitória dos protestos em 2013?Hoje, muitos se questionam sobre os motivos de não conseguirmos “repetir a dose”, se referindo aos gigantes protestos ao redor do Brasil em…


O que marcou a vitória dos protestos em 2013?

Foto: Gustavo Basso

Hoje, muitos se questionam sobre os motivos de não conseguirmos “repetir a dose”, se referindo aos gigantes protestos ao redor do Brasil em 2013. Neste ano, o Passe Livre voltou pra rua e até certo momento achávamos que seria possível o sentimento de déjà vu. Não veio. E vamos explicar os motivos.

Quem não se lembra dos protestos de junho de 2013? Cada pessoa que participou de alguma forma daquele momento histórico deve guardar uma lembrança distinta sobre o que foi, como foi e no que aquilo refletiu sobre a pessoa que se tornou hoje.

A verdade é que os protestos causados pelo aumento das passagens em São Paulo em junho de 2013 seguem exatamente a mesma “cartilha” de outras revoltas populares desde 1968: começam como um protesto direcionado com um público bem fechado, que por conta da falta de canais de diálogo com o Estado acaba resultando em repressão. Essa repressão, por sua vez, até então escondida dos olhares da grande mídia, se torna pública. Os protestos aumentam, a massa de pessoas também, se tornando algo maior e imprevisível. Pautas novas surgem, a repressão não desaparece. Tudo isso em um intervalo de um ou dois meses no máximo. Sim, no máximo.

No cenário brasileiro, 2013 foi um ano que marcou como divisor de águas. Poucas pessoas haviam vivenciando a oportunidade de participar de movimentos políticos de rua, sendo que a última grande mobilização foi ainda no começo dos anos 90, pelo “Fora Collor”. Mas ao mesmo tempo, não era a primeira vez que o Passe Livre ia para as ruas em São Paulo e no resto do país. O MPL protagonizou manifestações levemente grandes em 2011, ainda na administração de Gilberto Kassab em São Paulo, contra o aumento para R$3 no transporte público. Três mil, sete mil, e talvez ainda mais pessoas participaram da sequência de manifestações na época. A repressão, que marcou 2013, também esteve presente em 2011. Não virou notícia, não gerou indignação. A passagem aumentou e ali ficou.

Então, qual a diferença de 2011 para os protestos de 2013, e consequentemente, por que as manifestações deste começo de ano não parecem surtir efeito para repetir a dose?

Vamos explicar alguns fatores que podem nos ajudar a entender tudo isso.

Um: a Copa do Mundo — e a Copa das Confederações

Foto: Izaias Buson

Foi em 2013 que a economia brasileira começou a dar sinais de caducar. E também foi em 2013 que iria começar a verdadeira preparação para o maior evento já recebido pelo país até então: a Copa do Mundo. E parte dessa preparação era a realização da Copa das Confederações.

Se formos analisar, os protestos em São Paulo em junho de 2013 pararam após a revogação do aumento, no sétimo ato convocado pelo MPL. Isso foi em meados do dia 20. Dali até julho, apenas um grande protesto ocorreu em São Paulo — que foi contra a PEC37, em um sábado ensolarado com clima de “paz e amor” na Avenida Paulista.

No resto do país, algumas cidades ainda batalhavam pela redução da tarifa — algo que não seria muito difícil após a maior capital do Brasil recuar junto com o governo estadual. Mas ainda havia uma onda de indignação, que levaria milhares e milhares de pessoas para as ruas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Fortaleza e tantas outras cidades.

Muito interessante ver, então, para onde os protestos foram se direcionando a partir do final do mês de junho: o destino final da maioria daquelas manifestações era um só — o estádio de futebol. Em Belo Horizonte, a parte externa do Mineirão foi o palco de históricos conflitos entre polícia e manifestantes. E não era pouca gente, não.

Resumindo: início de crise econômica, adicionando o fato de estarmos prestes a receber um dos eventos mais caros do mundo — no qual o país gastou mais do que devia — mais a realização dos jogos da Copa das Confederações. Todos esses ingredientes acabaram se transformando em uma bomba de indignação social após a explosão dos protestos contra a tarifa, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, desencadeando manifestações ainda maiores e com diversos focos. Em 2016, apesar de termos um cenário econômico ainda mais caótico, a máquina do Estado já se encontra mais preparada para conseguir “burlar” possíveis revoltas similares através do seu braço armado, que é a polícia. Além disso, não temos mais uma Copa do Mundo — um evento a nível nacional. Não existe a mínima possibilidade dos Jogos Olímpicos surtirem o mesmo efeito, principalmente por serem focados em uma única cidade, que é o Rio de Janeiro.

Dois: a onda de manifestações na Turquia e Oriente Médio

Foto: Simon Be

Uma gigante onda de protestos também tomou conta de Istambul, capital turca, em meados de junho de 2013. Seguindo basicamente o mesmo padrão brasileiro: inicialmente com manifestações focadas contra a destruição de um parque público no Centro da cidade, que foram brutalmente reprimidas e se tornaram revoltas massivas contra o governo turco de Erdogan — que não por acaso, acabou sendo reeleito posteriormente, assim como Dilma Rousseff.

O exemplo turco acabou contaminando os ânimos nos protestos feitos no Brasil, principalmente em Porto Alegre e São Paulo. Existe uma influência direta na perspectiva de lá pra cá. Manifestantes no Brasil carregavam cartazes com palavras de ordem como “Isso aqui vai virar a Turquia”, em referência aos protestos de lá.

Outro fator muito interessante de se analisar é a semelhança econômica entre os dois países. Tanto Brasil quanto Turquia buscavam, pelo menos na época, um lugar de referência na política internacional, inspirados por anos de crescimento econômico. Nos dias de hoje, três anos depois, ambos tentam sair de uma escalada de crise econômica e política — além disso, a máquina repressiva dos dois países cresceu de forma semelhante, com perseguição contra ativistas e criminalização de manifestações públicas.

Três: a repercussão dos protestos nas redes sociais

Talvez seja o fator mais decisivo para o sucesso das manifestações em 2013. Foi através das mídias sociais, como Facebook, Twitter e YouTube, que as manifestações conseguiram alcançar o seu público alvo — os jovens, principais atores dos protestos na época.

Um dos exemplos é o vídeo acima, em que um repórter da Carta Capital é preso por “portar Vinagre” — o que ocorreria com outras dezenas de pessoas neste mesmo protesto, no dia 13 de junho em São Paulo. Tanto este vídeo quanto outros relatos resultaram em memes, vídeos paródia e denúncias que viralizaram com uma velocidade imprevisível nas redes sociais. É o tal “V de Vinagre”, ou a “Revolta do Vinagre”. Como queira chamar.

Naquele momento, qualquer pessoa que estivesse com um celular nas mãos tinha um poder de registro ainda maior do que os meios de comunicação tradicionais — e sim amigos, isso foi uma novidade pra nós, apesar de ter sido fator decisivo também nos protestos do Occupy nos Estados Unidos e Europa, em meados de 2011. Tanto a polícia quanto o poder público e a própria mídia não souberam lidar com isso.

Vídeos como este ao lado apareciam na internet a cada hora. Não havia outro assunto na mesa de bar se não os protestos e a violência policial.

O brasileiro teve em suas mãos, talvez pela primeira vez, o controle de denunciar o que via e receber atenção por isso. Novas mídias como a NINJA surgiam com uma cobertura básica que acabou ultrapassando o nível de influência e alcance dos meios de comunicação tradicionais, através de uma câmera e um celular. Nada mais.

Aliás, as fotos também marcaram presença importante para a massificação desses protestos. Quem não se lembra da cena do policial jogando spray de pimenta no rosto de uma mulher de idade, no Rio de Janeiro? Ou dos manifestantes em São Paulo exibindo flores para os policiais militares, que formavam uma barreira com seus escudos, prontos para atirar?

São fotos que o brasileiro comum estava acostumado a ver apenas nos noticiários estrangeiros, sobre protestos na Europa, Estados Unidos e Oriente Médio. Mas aqui? Não.

Victor R. Caivano/AP

Sim. Ainda existe repressão e ainda surgem alguns vídeos amadores registrando a violência policial em manifestações. Mas isso já não é mais novidade.

Quatro: o despreparo do Estado

Foto: Bruno Santos

É muito interessante comparar a reação do poder público nas manifestações de 2013 com a forma que o mesmo tem tratado os protestos deste começo de 2016.

De lá pra cá, o Estado “aprendeu a lição” e soube como eliminar possíveis revoltas em potencial. Começando pelo tratamento dado pelos próprios políticos — com um pouco de apoio da grande mídia — com as manifestações públicas.

Podem ter certeza que tanto Fernando Haddad quanto Geraldo Alckmin jamais esperariam gigantes manifestações quando resolveram aumentar as passagens em 2013. Prova disso é a forma como ambos lidaram com a situação, estando em Paris enquanto o caldeirão fervia em São Paulo. Já agora, do ano passado para cá, vimos uma tática diferente: tanto em 2015 quanto em 2016 o anuncio do aumento da tarifa foi feito na virada de ano, com pouco estardalhaço na mídia e com discursos feitos em defesa do aumento, algo que não estava preparado quando os protestos explodiram em 2013.

E não foram só os políticos que ficaram mais espertos. A polícia também. De lá pra cá, a máquina de repressão aumentou. Antes, não havia nenhum cordão policial e muito menos um gigante efetivo acompanhando as manifestações, independente do tamanho destas. Quando algo ocorria, era a Tropa de Choque que entrava em ação. Hoje, é muito diferente. Temos a “Tropa do Braço”, com seus uniformes de robocop que fazem cordões ao redor dos protestos, cercando os manifestantes de um lado e do outro. Foram treinados exatamente para lidar com possíveis “quebras da ordem”, como a invasão na 23 de Maio feita pelo MPL no primeiro protesto de 2013 em São Paulo. Para fins de comparação, veja abaixo vídeo que ilustra o ato citado, ocorrido em junho daquele ano:

Não havia policiais acompanhando a manifestação, nem carros da CET. Os manifestantes puderam tomar a 23 de Maio com facilidade, surpreendendo os motoristas que não esperavam e nem foram avisados sobre a possibilidade de ocupação da avenida por manifestantes. Foi assim por quase meia hora ou mais, até a Tropa de Choque expulsar a manifestação com bombas, gás lacrimogêneo e bala de borracha.

Agora, comparem com o vídeo abaixo, feito em uma manifestação do MPL contra o aumento das passagens no ano passado:

Antes da 23 de Maio ser tomada pelos manifestantes, já havia um policiamento no local preparado para fechar a avenida, evitando surpresas por parte dos motoristas. Além disso, existe um cordão de cada lado feito por policiais na manifestação inteira, e a Tropa de Choque acompanhando na parte da frente e atrás do ato.

Ou seja: aquele elemento de surpresa, do inesperado, já não existe mais. O Estado soube driblar através do aprimoramento da sua máquina de repressão qualquer eventual revolta popular espontânea. Tornou a manifestação algo “programado”, como se fosse uma consulta médica. Desta forma, tem o controle em suas mãos.


Há outros fatores que foram determinantes para que em 2013, o MPL tenha conseguido reduzir a tarifa, claro. Da mesma forma, não existe “bola de cristal” na política para adivinharmos se as manifestações deste ano conseguirão ou não serem bem sucedidas.

Mas, faltando poucos minutos para o seu sétimo protesto em 2016, será bem difícil para o Movimento Passe Livre conseguir atingir o seu objetivo. Não foi apenas o Estado que veio mais preparado para lidar com isso, como também a própria mídia.

Apesar de termos alguns “ingredientes” que favoreçam para uma possível repetição de 2013 — crise econômica, aumento do desemprego, aperfeiçoamento da repressão do Estado, discussões política acaloradas, entre outros — ainda falta algum elemento ou fator para que isso realmente ocorra, em forma de explosão popular.

Vamos esperar e ver o que este ano nos reserva.

Sexta manifestação do MPL neste ano em São Paulo, na semana passada | Foto: Alice V/Democratize

By Democratize on January 28, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

Posts Relacionados

On Top
error: Para reproduzir o conteúdo do Democratize, entre em contato pelo formulário.
%d blogueiros gostam disto: