A nova edição da revista Veja não durou sequer um dia. Saiba como uma reportagem apresentada como ‘cartada de mestre’ foi completamente…

O jornalismo irresponsável resumido em uma só capa

O jornalismo irresponsável resumido em uma só capaA nova edição da revista Veja não durou sequer um dia. Saiba como uma reportagem apresentada como ‘cartada de mestre’ foi completamente…


O jornalismo irresponsável resumido em uma só capa

Foto: Reprodução/Veja

A nova edição da revista Veja não durou sequer um dia. Saiba como uma reportagem apresentada como ‘cartada de mestre’ foi completamente desfeita com apenas uma nota oficial da embaixada da Itália no Brasil.

“O plano secreto de Lula pra evitar a prisão: pedir asilo à Itália e deixar o Brasil”, enuncia em caixa alta a revista Veja, em sua edição desta sexta-feira (25), logo na capa. A reportagem, apresentada como exclusiva, ainda utiliza de efeitos visuais logo na capa para dar um tom mais dramático: uma foto do ex-presidente com aparência confusa, coberta por um filtro vermelho.

A reportagem ‘bombástica’ surge justamente em um momento delicado para os que defendem o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Nesta semana, documentos da operação Lava Jato foram divulgados pela imprensa, mostrando doações da Odebrecht para cerca de 200 políticos, sendo muitos líderes da oposição, como o senador Aécio Neves (PSDB). Nas planilhas, os números não eram compatíveis com os valores apresentados pelos então candidatos. Nem três horas haviams e apssado após a divulgação pela imprensa quando o juiz Sérgio Moro decretou que os documentos deveriam ficar sob sigilo.

Ao mesmo tempo, o enfraquecimento das manifestações de rua pelo impeachment demonstram que os grupos articuladores não conseguiram atingir seu objetivo no momento mais delicado até então para o governo Dilma. No clima de ‘tudo ou nada’, surge uma reportagem. E a Veja não perdeu tempo.

O problema é que a reportagem que sustenta a nova edição da revista do Grupo Abril não durou nem um dia.

Em comunicado oficial, a embaixada da Itália no Brasil repudiou as informações da reportagem, e declarou em nota:

Em relação à matéria “O plano secreto” publicada na última edição da revista Veja, a Embaixada da Itália declara:

1. As informações referentes à Embaixada e às supostas conversas do Embaixador Raffaele Trombetta são inverídicas.

2. Relativamente ao evento no Palácio do Planalto, a pessoa destacada na fotografia e sentada em uma das primeiras fileiras não é o Embaixador Trombetta, como pode-se constatar facilmente. O Embaixador Trombetta estava sentado, junto a todos os demais embaixadores, no espaço reservado ao corpo diplomático.

3. Na conversa telefônica citada, foi dito ao jornalista que não se queria comentar fatos que, no que tange à Embaixada, eram e são totalmente inexistentes.

Não é novidade esse nível de irresponsabilidade da revista Veja.

Foto: Reprodução/Veja

Faltando poucos dias para a votação no segundo turno presidencial em 2014, a revista Veja publicou uma reportagem afirmando que tanto Lula quanto a presidenta Dilma tinham conhecimento dos casos de corrupção na Petrobras. A reportagem foi baseada na delação do doleiro Alberto Youssef para a Polícia Federal e o Ministério Público. Na época, as pesquisas indicavam empate técnico entre Dilma e o candidato tucano para a presidência, Aécio Neves.

Claro, a revista não divulgou as informações da mesma delação de Youssef onde ele cita repassa de propina para o então presidenciável tucano, de empresas como Furnas e a própria Petrobras.

Como a simples delação não determina de fato se aconteceu ou não — pois não apresenta provas concretas — , a divulgação da edição foi utilizada como arma política para o PSDB e a oposição, na época das eleições em 2014. Desta vez, não deu certo.

A tentativa de “reviver” a semana passada e continuar a pressão contra o governo federal fracassou tão feio que a página da revista no Facebook retirou a capa da última edição da foto principal na rede social, além de outros posts mais recentes sobre o tema. A repercussão foi tão negativa que os demais meios de comunicação tradicionais, que costumam replicar as informações divulgadas, nem se deram o trabalho de publicar sobre.

Talvez, trate-se de mais um sinal de desespero do jornalismo tradicional, representado na sua maior publicação impressa no país, que hoje se tornou uma espécie de panfleto político com viés totalmente partidário.

Mas, ao mesmo tempo, a revista Veja pode dividir sua agonia com a oposição ao governo Dilma e os movimentos pelo impeachment, que perderam a oportunidade na semana passada de pressionar o Planalto. Agora, as chances se tornam cada vez menores. E assim como a oposição, o Grupo Abril perde cada vez mais o que resta de sua credibilidade.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on March 25, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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