Foto: Fernando DK/Democratize

O incêndio na Ocupação Esperança e a desigualdade social

Apesar de receber doações e apoio da prefeitura de Osasco, a Ocupação Esperança vive uma triste realidade brasileira: o silêncio midiático e a falta de atenção do poder público para evitar casos similares. Nisso, vem o questionamento: e se o incêndio tivesse ocorrido em um bairro nobre? Como seria a reação?

*Com informações de Fernando DK

Por duas vezes nossa equipe da Agência Democratize esteve na Ocupação Esperança, após o incêndio que destruiu grande parte dos barracos na última terça-feira (13).

A ocupação, que fica localizada na cidade de Osasco, em São Paulo, havia festejado dias antes uma grande vitória: no último dia 6, o decreto de desapropriação por interesse social da área foi publicado no Diário Oficial de Osasco, após longos três anos de ocupação por parte do Movimento Luta Popular.

“Na terça-feira, nós emitimos o decreto de utilidade pública, e, no sábado, eu vim conversar com eles, junto com o próprio movimento aqui. A conversa foi tranquila, eles iam levar ao juízo esse decreto para tentar segurar a reintegração de posse e foi uma conversa super boa, super tranquila. Estávamos animados de tentar a solução com o proprietário, para que eles [ocupantes] comprassem a terra, a própria organização do movimento, e construíssem através do Minha Casa, Minha Vida”, disse o prefeito de Osasco, Jorge Lapas (PDT).

Para o prefeito, o incêndio na área lhe causou grande estranheza, pela proximidade dos fatos em torno do terreno.

Mas, na realidade, a falta de preparo do próprio poder público com a condição de vida dessas comunidades é um dos fatores responsáveis por tais tragédias.

Fotos: Fernando DK/Democratize
Fotos: Fernando DK/Democratize
Fotos: Fernando DK/Democratize

Eliminando a possibilidade de ter sido um incêndio criminoso — algo que pode ter acontecido — , a falta de suporte do poder público com a comunidade, com serviços que tornem possível a prevenção de tragédias como o incêndio desta terça, mostram a falta de interesse em tornar essa população marginalizada em cidadãos de fato.

Por isso cabe o questionamento: e se isso tivesse ocorrido em um bairro nobre de São Paulo? Como seria a reação do poder público?

Acima disso, como teria sido o tratamento dado pelos meios de comunicação sobre a tragédia?

O incêndio na Ocupação Esperança seguiu o mesmo padrão midiático de outras tragédias que acontecem diariamente em regiões distantes e periféricas: algo marginal, em noticiários sensacionalistas que sobrevivem da exibição da desgraça alheia, ou com breves notas nos jornais noturnos e em sites de notícia. Nada capaz de gerar um engajamento natural da sociedade, em busca de solidariedade e apoio aos familiares que perderam seus bens no incêndio.

Isso é feito quando uma tragédia acontece no centro de uma grande capital. Ou em um bairro nobre. A personificação da tragédia: quando o cenário geral é trabalhado em busca dos indivíduos, das figuras humanas por trás do ocorrido, dando um caráter mais sentimental para a questão, oferecendo a sensação de indignação ao leitor ou ao espectador, trazendo a comoção, a necessidade de ajudar o próximo.

E isso não foi feito.

Fotos: Fernando DK/Democratize

Ao invés de buscar sensibilizar a sociedade, a mídia preferiu mostrar o panorama geral — da sua forma, desinteressada e com pouco tempo para tratar de um assunto que para eles não é relevante.

O fato de mais de 200 barracos terem sido queimados pelo incêndio, levando junto bens pessoais de cada família, não é relevante porque trata-se de uma ocupação em um terreno até então privado. Estamos falando de uma mídia e de um poder público que criminaliza os movimentos por moradia. Por que ser solidário a eles?

Mesmo que mais de 2 mil pessoas morem no terreno, trabalhadores, crianças e idosos que vivem em uma condição de abandono, isso não é o suficiente para o interesse midiático.

Claro, vale registrar: as famílias estão recebendo ajuda. Graças ao poder das redes sociais, além da mobilização dos movimentos sociais. Até mesmo uma van com veterinários para ajudar os animais de estimação, que sofreram por causa do incêndio, esteve no local. Além da doação de cobertores, colchões, alimentos, etc.

Mas isso poderia ter sido evitado, se o poder público tivesse real interesse na vida daquelas pessoas.

Mas isso poderia ser ainda mais prestativo, se o poder midiático tivesse real interesse na vida daquelas pessoas.

São marcas de uma desigualdade social que vai além da conta bancária.

Fotos: Fernando DK/Democratize
Fotos: Fernando DK/Democratize
Fotos: Fernando DK/Democratize

Se a população marginalizada já vive uma condição financeira muito frágil, isso é refletido em outros aspectos, como no diálogo de interesses com o poder público, além de sua representatividade midiática.

Por isso, a diferença de tratamento quando falamos de uma tragédia em um bairro nobre, e comparamos com o caso da Ocupação Esperança.

É um triste reflexo da desigualdade social, que se mostra cada vez mais fortalecida, ainda mais quando um incêndio de tamanha proporção atinge uma ocupação símbolo da resistência pelo direito a moradia no Brasil, contrariando interesses privados.

Mas apesar de toda essa tragédia, os moradores já estão de cabeça erguida.

Para quem já enfrentou tanta coisa na vida, não existe outra opção a não ser resistir.

Foto: Fernando DK/Democratize

Nova Esperança -pós Incendio – FDK

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