Por Giovana Meneguim

O grito diário de quem sofre abusos no Metrô

O grito diário de quem sofre abusos no MetrôPor Giovana Meneguim


Foto: Gabriel Soares/Democratize

O grito diário de quem sofre abusos no Metrô

Por Giovana Meneguim

“Você não está sozinha”, diz o cartaz estampado com três seguranças de braços cruzados, ao estilo dos bad boys de Velozes e Furiosos. O banner faz parte de uma campanha do Metro paulista que visa tranquilizar as mulheres em relação a crimes e abusos no transporte público.

A frase de impacto, porém, continua apenas no papel. Os casos de abuso e assédio sexual seguem acontecendo diariamente nos vagões, corredores e plataformas — apesar da inexistência de estatísticas oficiais, basta conversar com qualquer mulher para conhecer a frequente realidade dessas situações. Raro mesmo de encontrar é amparo do Metro para as vítimas de abusos.

Neste ano, três casos ganharam repercussão midiática após divulgação massiva nas redes sociais. O primeiro foi o estupro de uma jovem na estação República (linhas 4-Amarela e 3-Vermelha), em abril. O segundo aconteceu no mês seguinte, quando um homem ejaculou nas roupas de uma jornalista do R7 na linha Vermelha, entre as estações Brás e Bresser-Mooca. O caso mais recente ocorreu em agosto: Após reclamar dos assédios de um homem, uma moça de 17 anos foi segurada pelos braços e ameaçada por gritos de “Estupra!” dentro de uma composição da linha 3-Vermelha do Metro.

Nas três situações, a reação da Companhia do Metropolitano de São Paulo caracterizou-se pela mesma sequência de ações: falta de amparo às vítimas, tentativa de abafamento do ocorrido e notas da assessoria de imprensa informando que “o Metro realiza campanhas de proteção às mulheres”. Em repúdio à falta de segurança e o desamparo da Companhia, coletivos feministas organizaram uma manifestação na última segunda-feira (31/08). O ato conquistou o apoio de mulheres que passavam pela estação. Frases de apoio, sorrisos discretos e punhos erguidos revelavam um sentimento comum, expresso por uma moça que observava a movimentação: “ninguém merece ser ‘sarrada’ no metrô”.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

Apesar dos esforços de mulheres para serem reconhecidas como pessoas dignas de respeito, independentes de qualquer aval ou vontade cismasculina, aparentemente o Metro, bem como grande parte das instituições, ainda não compreendeu o recado. Iniciativas como o cartaz descrito no início do texto reforçam a ideia de que para evitar abusos, mulheres devem estar sob a supervisão de um homem. Mais uma vez, o respeito e a autonomia são negados ao feminino que passa a ter seu corpo respeitado a partir do momento em que este é lido como propriedade de um homem.

A proposta de criar um vagão exclusivo para mulheres também não é vista com bons olhos pelas usuárias por ser considerada uma medida paliativa e culpabilizadora. Ao invés de prezar pela reeducação da sociedade, seja através de campanhas de conscientização ou respostas mais incisivas aos casos de abuso, a iniciativa parte do princípio de que mulheres precisam ser isoladas para ter direito ao próprio corpo. Sob um ponto de vista logístico, a proposta também não se sustenta, pois destinaria um único vagão ao gênero que é maioria numérica na população brasileira. Fora isso, caso alguma mulher sofresse um abuso fora do chamado “vagão rosa”, as chances de ser considerada culpada por estar em um lugar que não lhe é destinado seriam ainda maiores.

Foto: Giovana Meneguim/Democratize

O modus operandi dos funcionários da Companhia do Metropolitano e também dos usuários refletem uma sociedade em que a cultura do estupro tira das mulheres o direito à dignidade. Tão sintomática quanto a frequência dos casos de abuso é a reação das pessoas que os presenciam. No caso de repercussão mais recente, por exemplo, os homens ao redor instigaram o estupro da jovem. Nos meios feministas, são frequentes os relatos de mulheres que ao denunciarem as violências sofridas, são questionadas pelas próprias autoridades que deveriam protegê-las.

Numa sociedade em que a autonomia do corpo feminino é negada e mulheres são tidas como produtos à disposição do público cismasculino, estar realmente sozinha, sem a presença de ameaças que têm classe e gênero definido, talvez seja o menor dos problemas.

Veja o vídeo produzido pelo Democratize:

By Democratize on September 6, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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