Uma análise sobre os tempos atuais, baseada na lógica de conciliação entre classes sociais e seu fracasso político.

O fracasso da geração pós-rancor

O fracasso da geração pós-rancorUma análise sobre os tempos atuais, baseada na lógica de conciliação entre classes sociais e seu fracasso político.


O fracasso da geração pós-rancor

Foto: Reprodução/Google

Uma análise sobre os tempos atuais, baseada na lógica de conciliação entre classes sociais e seu fracasso político.

“É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é, se se quer transformá-lo. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade.”

A frase acima é do filósofo e jornalista italiano Antonio Gramsci, preso e perseguido por conta de sua obra e posicionamento político na Itália fascista de Mussolini.

Por muito tempo, mais necessariamente após o término da ditadura militar brasileira nos anos 80, a sociedade tentou se reconstruir com base na conciliação entre as classes. Quando o ex-operário e sindicalista Lula, foi eleito em 2002 para a presidência da República, a conciliação de classes ganhou um novo nome, com uma nova roupagem: a Era Pós-Rancor. O petista foi capaz de promover a ascensão econômica de uma nova classe social através do discurso consumista — “Agora o pobre pode comprar um fogão”, dizia orgulhoso o ex-presidente. E com o ápice do consumo, aqueles 10% da população que controlam mais de 90% das riquezas da sociedade também tiveram seu lucro. Lucro histórico. Bancos atingiram níveis de crescimento jamais registrados na história do país.

Durou uma década.

Fracassou.

O colapso da ideologia pós-rancor é um reflexo da tentativa de conciliação de classes. E mais do que isso: acreditar cegamente que aumentar o poder de consumo das classes mais pobres seria o suficiente. Pobre quer TV de plasma. Pobre quer fogão novo. Mas pobre também quer uma escola pública de qualidade para colocar seus filhos. Pobre também quer acesso a um sistema de saúde decente. Pobre também quer padrão de vida. Mas qual é o retorno disso para os 10%? É diferente.

Uma coisa é dar aos pobres o poder de consumo. Todo aumento de consumo é revertido em aumento de vendas, que se torna crescimento no lucro, que significa mais dinheiro no bolso de quem já tem bastante. O que os banqueiros e os grandes empresários ganham com o fato do governo priorizar o investimento em setores básicos da sociedade, como educação e saúde? Nada. As empresas privadas, convênios de saúde que esmagam o bolso da população, não querem perder seu espaço de atuação. Os colégios e universidades particulares, também não. Mais fácil reduzir o IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados) dos automóveis do que investir em hospitais públicos.

Agora, com a crise induzida por essa lógica insustentável, o pobre perdeu seu poder de consumo. O governo construiu, com seu discurso fervoroso de inclusão social, uma lógica que acabou sendo predominante para garantir sua reeleição na última década: a de que se agora o pobre pode comprar produtos importados, não faltaria muito tempo para que ele também conseguisse ter acesso a um sistema público de saúde e educação com qualidade.

Isso não aconteceu. E hoje, essa nova classe emergente bate na porta do governo cobrando por suas promessas não cumpridas.

Do outro lado, os grandes empresários e banqueiros se mostram indignados com o declínio do crescimento econômico do país. Os donos das grandes indústrias não querem pagar o pato.

É o fim da era pós-rancor. A conciliação de classes, uma ilusão vendida para a classe média e mais recentemente para a classe C e D, fracassou. E fracassou feio. E não precisa ser um gênio para decifrar isso.

Quando boa parte da população de uma cidade como São Paulo não tem acesso ao mínimo, que é saneamento básico por exemplo, é um simples indício do fracasso da parceria público-privada. Quando jovens negros da periferia ainda são assassinados pela Polícia Militar, seja por andar de skate ou por simplesmente serem negros, é uma simples prova de que a conciliação entre classes é obra publicitária fictícia. Quando empresários fardados com terno e gravata dominam os meios de comunicação e conduzem a classe média através de políticos corruptos a acreditarem naquilo que eles querem, é porque a lógica pós-rancor morreu.

Não vamos nos iludir. Um dos principais culpados por tudo isso é o Partido dos Trabalhadores, por reproduzir de forma mais “paz e amor” a política já praticada anteriormente por tucanos. Hoje eles choram, criticam a Rede Globo e a chamam de golpista. Estamos falando do mesmo partido que comanda Brasília por 13 anos e não teve a mínima moral de conduzir um debate sobre regulamentação dos meios de comunicação. Não teve a coragem de peitar meia dúzia de famílias que controlam quase toda a imprensa no Brasil, pelo contrário — investiram milhões de reais em publicidade anualmente para tais veículos. Claro, parte da lógica pós-rancor foi acreditar que, aquele seu inimigo antigo, pode se tornar um grande aliado. Lastimável.

Hoje a esquerda se revolta ao ver o ex-presidente Lula sendo conduzido para depor na Polícia Federal, enquanto não moveu um dedo sequer quando o dançarino Douglas (DG) foi assassinado pela Polícia Militar no Rio de Janeiro, em ano de Copa do Mundo.

Essa esquerda, que acreditava ser fora do eixo, na verdade reproduziu uma falácia absurda que aos poucos se transformou no contexto político e social que temos hoje. Uma direita fortalecida com novos aliados, que até então andavam de braços dados com políticos petistas. Uma direita que em questão de anos conseguiu induzir na frágil consciência da classe média que o Partido dos Trabalhadores é o maior representante da esquerda brasileira, e logo então, seu fracasso também é o fracasso dos demais partidos que seguem sua ideologia.

Agora querem o povo na rua.

Na rua por quem?

Isso aqui vai virar um inferno. E é bom que isso aconteça.

Afinal de contas, se fosse fácil debater o conflito de classes, Gramsci não teria morrido após ficar anos preso por fascistas na Itália. Chega de discutir o fácil. Vamos discutir o difícil. É hora de rasgar as falsas promessas e reconstruir aquilo que eles jogaram fora.

É hora de olharmos para o presente assim como ele é, para podermos enfim, enfrentá-lo e transforma-lo.


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on March 8, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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