Amigo de Snowden, o renomado jornalista Glenn Greenwald escreve sobre como a ascensão de candidatos como Bernie Sanders e ideias à esquerda…

O descontrole emocional da grande mídia em sete passos

O descontrole emocional da grande mídia em sete passosAmigo de Snowden, o renomado jornalista Glenn Greenwald escreve sobre como a ascensão de candidatos como Bernie Sanders e ideias à esquerda…


O descontrole emocional da grande mídia em sete passos

Funcionários da BBC protestam contra o silêncio dos meios de comunicação em relação a prisão de jornalistas no Oriente Médio | Foto: APP

Amigo de Snowden, o renomado jornalista Glenn Greenwald escreve sobre como a ascensão de candidatos como Bernie Sanders e ideias à esquerda fazem com que os conservadores e a grande mídia perda de vez as estribeiras.

A elite política e os meios de comunicação britânicos perderam pouco a pouco a cabeça, após a eleição de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista — e ainda não parecem capazes de se recuperar. Nos Estados Unidos, Bernie Sanders é bem menos radical; os dois não estão sequer na mesma constelação política. Mas, especialmente em temas econômicos, Sanders é um crítico mais robusto e pragmático que aquilo que os centros do poder oligárquico julgariam tolerável. A sua denúncia contra o controle da vida política pelas empresas é uma ameaça grave. Por isso, ele é visto como a versão norte-americana do extremismo de esquerda e uma ameaça ao poder do establishment.

Para quem já tinha observado os desdobramentos da reação britânica à vitória de Corbyn, é fascinante constatar que as reações de Washington e da elite do Partido Democrata à emergência de Sanders replicam o caso inglês, seguindo um uma linha idêntica. Pessoalmente, creio que a escolha de Hillary é extremamente provável, mas as evidências de um movimento crescente a favor de Sanders são inquestionáveis. É algo consistente, que está a desconcertar os dirigentes do partido, como seria de esperar.

Uma pesquisa revelou que Sanders tem uma clara liderança entre os eleitores mais jovens, incluindo as mulheres. Como a revista Rolling Stone notou, “as mulheres jovens apoiam Bernie Sanders por larga margem”. O New York Times admitiu que, em New Hamphire, Sanders “já tem uma vantagem de 27 pontos”, o que é “espantoso para os padrões do Estado”. O Wall Street Journal reconheceu, num editorial, que “já não é impossível imaginar este socialista de 74 anos como candidato do Partido Democrata”.

Como no caso de Corbyn, há uma correlação direta entre a força de Sanders e a intensidade e amargura dos ataques baixos desencadeados contra ele por Washington, a estrutura partidária e os meios de comunicação. No Reino Unido, esta curiosa revolta elitista passou por sete fases; e nos EUA, a reação a Sanders segue a mesma trajetória. Ei-la:

Jeremy Corbyn, o agora líder do Partido Trabalhista e nome forte para o cargo de primeiro-ministro nas próximas eleições do Reino Unido, sendo detido por policiais anos atrás em protesto contra o apartheid na África do Sul

O Reino Unido está na Fase 7, e talvez seja capaz de inventar em breve uma nova etapa (“militares britânicos anônimos ameaçaram promover um motim, caso Corbyn seja eleito democraticamente primeiro-ministro”). Nos EUA o establishment político e a mídia pró-Partido Democrata estão na Fase 5 há semanas, e parecem prestes a entrar na Fase 6. A passagem à Fase 7 é certa, caso Sanders vença as primárias no estado do Iowa — nota do Democratize: Greenwald escreveu a coluna antes de Sanders conseguir um empate técnico contra a favorita Hillary Clinton em Iowa.

É normal e legítimo, nas eleições, que as campanhas de cada candidato critiquem duramente os restantes. Não há nenhum problema nisso: seria ótimo que os contrastes aparecessem claramente, e quase não surpreende que isso seja feito com agressividade. As pessoas chegam a extremos para obter poder. É da natureza humana.

Mas isso não impede as pessoas de pesar os ataques que fazem, nem significa que estes estejam imunes a críticas (a exploração grosseira e cínica dos temas de gênero pelos apoiantes de Hillary, para sugerir que o apoio a Sanders se baseia em sexismo foi especialmente desonesta, quando os grupos de esquerda que hoje defendem o candidato tentaram, por meses, lançar a candidatura de Elisabeth Warren — para não falar no vasto número de apoiantes do senador que são mulheres).

Gente de todos os partidos, e em todo o espectro político, está enojada com as disputas em Washington. Não surpreende que um amplo número de adultos norte-americanos procurem uma alternativa a uma candidata como Hillary. Mergulhada no dinheiro de Wall Street (tanto política, quanto pessoalmente), ela mostra-se incapaz de desaprovar uma única guerra, e a sua única convicção parece ser a de que qualquer coisa pode ser dita ou feita, para assegurar sua própria vitória.

A natureza dos establishments é baterem-se desesperadamente pelo poder, e atacar com fervor sem limites qualquer pessoa que desafie ou ameace esse poder. Foi o que ocorreu no Reino Unido com a emergência de Corbyn e é o que se repete nos EUA com a ascensão de Sanders. Não surpreende que os ataques a ambos sejam tão parecidos — a dinâmica dos privilégios do establishment é a mesma — mas não deixa de ser chocante que os guiões sejam idênticos.


Artigo de Glenn Greenwald, originalmente publicado no The Intercept e traduzido por António Martins para Outras Palavras, onde foi publicado a 22 de janeiro de 2016.

By Democratize on February 5, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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