Por Francisco Toledo Quantas vezes em 2015 a presidenta Dilma Rousseff caiu? Com um mandato que mais parece um banco de apostas, Rousseff…

O décimo impeachment de Dilma

O décimo impeachment de DilmaPor Francisco ToledoQuantas vezes em 2015 a presidenta Dilma Rousseff caiu? Com um mandato que mais parece um banco de apostas, Rousseff…


Cerimônia de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff — Foto: Romério Cunha

O décimo impeachment de Dilma

Por Francisco Toledo
Quantas vezes em 2015 a presidenta Dilma Rousseff caiu? Com um mandato que mais parece um banco de apostas, Rousseff deve ser a presidenta que mais caiu na história desse país. Em março deste ano, depois em abril… alguns diziam que de agosto ela não passava. E agora, em um toque oportunista, a Folha de São Paulo aposta com seu editorial em mais uma queda até o fim do ano — isso caso ela não agrade o empresariado, com mais cortes em pastas como Educação e Saúde. Afinal, cai ou não cai?

“É imprescindível conter o aumento da dívida pública e a degradação econômica. Cortes nos gastos terão de ser feitos com radicalidade sem precedentes, sob pena de que se tornem realidade pesadelos ainda piores, como o fantasma da inflação descontrolada.

A contenção de despesas deve se concentrar em benefícios perdulários da Previdência, cujas regras estão em descompasso não só com a conjuntura mas também com a evolução demográfica nacional. Deve mirar ainda subsídios a setores específicos da economia e desembolsos para parte dos programas sociais”.

É assim que o editorial da Folha de São Paulo deste domingo (13) aposta mais uma vez no jogo da ameaça política, tenebrosa característica do jornalismo tradicional brasileiro, apresentada com profunda clareza nos anos 60. Eram tempos de reformas, do homem do campo se levantando contra os fazendeiros. Era tempo de Jango, Brizola, Marighella. A diferença é que nos dias de hoje, estamos absurdamente longe de chegarmos perto disso.

Dilma já fez o seu agrado ao empresariado quando colocou Levy na Fazenda. Dilma já fez o seu agrado com a bancada ruralista colocando Kátia Abreu na Agricultura. Sem mencionar o já aplicado ajuste fiscal do começo do ano, ou então o silêncio do governo federal em relação ao projeto de ampliação da terceirização. Os cortes nas universidades federais, que já estão em greve por meses. Reforma agrária? No dicionário do atual governo, isso non ecziste, como diria o Padre Quevedo. Não existem pautas progressistas defendidas pelo atual mandato de Dilma Rousseff. O que existe é uma realidade paralela, onde a oposição (guiada por partidos tão irresponsáveis quanto os que constituem a base governista) se aproveita dos erros cometidos pela gestão petista na economia para utilizar do senso-comum como seu próprio benefício.

De qualquer forma, parece que Dilma cairá mais uma vez. Deve ser o seu décimo impeachment em só um ano de segundo mandato. Por um momento, a operação Lava Jato em si já parecia ser o motivo. Em outro, foram as manifestações pelo impeachment que acabariam por tirar a presidenta de seu cargo. Depois, foram as contas. E as manifestações de novo em agosto. Agora, é a economia. Mas espera, também era a economia meses atrás, não? Enfim…

O que talvez torne isso mais curioso seja que, por mais erros e tropeços que foram cometidos na gestão da economia do país, não existe um motivo legal que sustente o impeachment da presidenta.

Claro, cortar do bolso do trabalhador para manter os cofres dos empresários e banqueiros intactos já deveria ser motivo de revolta popular e, posteriormente, a queda de um presidente ou primeiro-ministro. Mas cá entre nós: a esquerda governista não parece se preocupar tanto assim com o nosso bolso. Já a esquerda de oposição, encabeçada por centrais sindicais independentes, e movimentos sociais e estudantis, parece ainda não ter se encaixado na cena política de 2015. O que é trágico: justo o protagonista das Jornadas de Junho de 2013, ainda não apareceu no ano político mais turbulento nas últimas décadas. A direita mostrou suas caras, e até a esquerda governista.

Isso mostra o quão trágica é a nossa situação. Parecemos ainda não construir uma terceira via nesse horizonte tenebroso de especulações, ameaças e mentiras que comandam a política e as ruas neste ano.

Não sabemos se agora, Dilma deve de fato cair. Motivos legais não existem. Mas caso ela realmente corte ainda mais do bolso do trabalhador, da Educação, da Saúde, e de programas sociais, ai surgirão ainda mais motivos sociais para uma queda. Não pela direita — que faria exatamente o mesmo em uma situação econômica similar, talvez ainda pior. Mas sim através dessa esquerda de oposição, adormecida, que parece ainda viver nos méritos das Jornadas de Junho de 2013, relembrando com nostalgia os dias de revolta popular, mas em locais fechados, através de palestras, debates ou salas de aula.

O começo talvez seja no dia 18 deste mês, na sexta-feira. A oposição de esquerda, ainda adormecida, convoca a população e os trabalhadores contra o governo e contra o avanço dos setores de direita. Mas a pergunta que falta é: mas a favor do que? Qual a proposta política desse setor para a sociedade brasileira? Espero que essa resposta surja até, pelo menos, o vigésimo impeachment de Dilma.

By Democratize on September 14, 2015.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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