Foto: Divulgação

O choro de Camila Pitanga e o espetáculo de horror da mídia

Sites de notícias divulgaram recentemente o momento em que a atriz Camila Pitanga aparece desolada, após o desaparecimento de Domingos Montagner, ator da novela ‘Velho Chico’, que faleceu nesta semana. Trata-se da pior forma de jornalismo possível: um espetáculo de horror midiático em busca de clicks, no pior estilo do filme ‘O Abutre’.

Todos sabem que o jornalismo brasileiro vive uma crise. Ela é financeira, estrutural, e, principalmente, de caráter.

No pior estilo “Sonia Abrão”, sites de notícias têm divulgado um vídeo que mostra a atriz Camila Pitanga chorando após seu colega Domingos Montagner desaparecer no final das gravações da novela ‘Velho Chico’.

Um filme lançado recentemente mostra como esse tipo de jornalismo, de caráter duvidoso, funciona.

‘O Abutre’, estrelado pelo ator Jake Gyllenhaal, mostra a história de um repórter que ganha a vida através do jornalismo sensacionalista. Com sua câmera, o personagem de Gyllenhaal corre atrás de crimes e acidentes chocantes, registrando as histórias com o objetivo de vender e gerar lucro para seu trabalho.

No filme, o repórter ignora a questão humana da tragédia. Na vida real, os sites de notícias que replicaram o vídeo de Camila Pitanga fazem a mesma coisa.

Com títulos chamativos, que servem apenas para gerar clicks e fluxo de visitas na página, esse jornalismo ignora o momento de tristeza da atriz após perder seu colega e amigo, deixando de lado o que ela ou o que a família de Domingos poderiam pensar. Foi um momento pessoal e triste, que registrado em um celular se tornou viral.

Mas isso não existiria se não fosse pela pior parte da história: o interesse do público.

Apesar de boa parte ter criticado a reportagem que, por exemplo, foi replicada no site Catraca Livre, isso não foi o suficiente. O post no Facebook do Catraca teve pelo menos 24 mil likes, além de mais de 2.500 compartilhamentos.

Vários seguidores comentaram sobre o tipo de jornalismo desnecessário praticado na matéria: “Na boa, vou fazer uma crítica e espero que seja encarada como construtiva: vídeo mostrando o desespero da Camila não combina com Catraca Livre. Desrespeito de quem gravou e desnecessário da parte de quem dissemina nas redes sociais”, disse uma seguidora.

Mesmo com a pressão de boa parte dos seguidores, o Catraca postou a mesma matéria horas depois na página, com a introdução do post: “O doloroso vídeo que abalou a internet”.

Da mesma forma, a postagem foi bastante compartilhada e teve enorme interação entre os seguidores, que mais uma vez criticaram o site: “Parem de compartilhar a dor dos outros! Que coisa chata isso. Pior que quem gravou é quem da ibope pra essa palhaçada, eu ein”, disse uma jovem.

O último comentário toca exatamente na questão que alimenta esse tipo de jornalismo. Quem costuma produzir esse tipo de material geralmente é quem mais dá ibope. Não apenas a mídia, como também a própria sociedade vive uma necessidade de sensacionalismo irracional, capaz de tornar um vídeo tão pessoal em algo viral na internet.

Não por acaso, programas sensacionalistas como ‘Brasil Urgente’ da Rede Bandeirantes, apresentado pelo Datena, se tornam parte da cultura televisiva brasileira.

Depois desse show de horror, já podemos lançar a hashtag: #SomosTodosAbutres.

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