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O Atentado em Itumbiara-Goiás: foi um crime político

“A separação entre crime político e crime pessoal não nos parece exata. Em termos empíricos, não podemos, distante da investigação criminal, descobrir se houve ou não motivação pessoal. Porém, em termos de interpretação, creio que precisamos modificar o modo de enxergar o que é um crime político e o que é um crime pessoal.”

Por Rafael Saddi*

O clima era de festa. De pé, na carroceria da caminhonete, o político mais rico de todo o Estado de Goiás, com a declaração oficial de bens de 110 milhões de reais, fazia a sua primeira e última carreata.

A carroceria abarrotada de gente importante, pesava poder, alegria, dinheiro, memórias de agressão, extorsão, corrupção e fartura.

Dividia espaço com José Gomes da Rocha, a estrela principal, seus convidados e apoiadores de campanha: o governador interino e Secretário de Segurança Pública de Goiás, José Eliton, simplesmente o chefe de todas as polícias do estado; o prefeito de Itumbiara, ironicamente conhecido como Chico Bala; Jovair Arantes, o relator do impeachment de Dilma; Vilmar Rocha, braço direito de Marconi Perillo e atual Secretário de Meio Ambiente e Cidades; além de alguns outros.

Pelos vídeos, pelas fotos, via-se que estavam todos alegres, certos da vitória em uma cidade importante do Estado de Goiás. Nas pesquisas, José Gomes apresentava 75% das intenções de voto. O “Maluf” de Itumbiara, adorado e odiado, temido sempre, era imbatível em sua cidade.

Ninguém ali, em cima ou embaixo, poderia imaginar que, na pista contrária, dentro de um Siena Preto, de placa fria, um servidor da prefeitura planejava colocar um fim na carreira política de José Gomes e nos sorrisos de seus aliados.

Quando o auxiliar de serviços gerais, Gilberto Amaral, abriu a porta do Siena Preto, não tardou 05 segundos para disparar, com sua pistola 0.40, o primeiro tiro.

Nas ruas, ao som das balas, a maioria fica estática. Alguns correm, outros se lançam ao chão, uma mulher põe a mão sobre a cabeça em desespero, e um senhorzinho de chapéu, paralisado, mantém a postura caipira, com as mãos nos quadris. Não se mexe.

Na carroceria milionária, os políticos se abaixam no primeiro tiro. Alguns se seguram para não cair ao chão.

Os seguranças pessoais do Governador Interino imediatamente reagem. O atirador, além de José Gomes, consegue levar também um policial com ele para o mundo dos mortos.

Onze segundos foram suficientes para Gilberto matar duas pessoas e ferir outras duas, dentre elas o Governador Interino e Secretário de Segurança Pública, antes de ser atingido mortalmente.

Esta cena de faroeste à luz do dia jamais passaria despercebida. O atirador não apenas promovera duas mortes, mas um espetáculo midiático, digno das telas do cinema. A comoção foi imediata e também as interpretações e hipóteses sobre as motivações de tal ato.

Crime por motivos políticos ou crime por motivos pessoais?

As interpretações sobre os motivos do crime giram em torno de duas teses centrais: um crime com motivação política, por um lado, um crime com motivação pessoal.

O que pretendemos neste texto é defender a noção de que este crime foi, de todo o modo, um crime político. Antes de defendermos tal hipótese, vejamos as principais interpretações.

Os que defendem que se tratou de um crime com motivação política se dividem, por sua vez, em motivos específicos bem distintos.

Tão logo o crime foi noticiado, surgiu, de imediato, a hipótese de Queima de Arquivo. Afinal, o candidato milionário, além de coronel da região, era ex-presidente da Saneago, a Companhia de Saneamento de Goiás.

A hipótese, embora não tenha encontrado ainda nenhuma sustentação empírica e possivelmente jamais encontre, não deixa de permanecer, na cabeça de muitos goianos, como uma possibilidade.

Afinal, há pouco mais de um mês atrás, em 24 de agosto de 2016, a operação Decantação, operação da Polícia Federal que investiga desvios de dinheiro na Saneago, cumpriu 11 mandatos de prisão preventiva, 04 de prisão temporária, 21 de condução coercitiva e 67 mandatos de busca e apreensão.

Foto: Reprodução/Jornal do Tocantins
Operação da PF que desarticulou quadrilha que desviou R$4,5 milhões do PAC em Goiás, SP e SC – Foto: Reprodução/Jornal do Tocantins

Um dos presos na operação foi o presidente do PSDB-Goiás e outro foi presidente da Saneago. Nos grampos da Operação, alguns deles publicados pelo Estadão, é possível perceber que uma parte do dinheiro desviado foi utilizada para pagar dívidas da campanha eleitoral do Governador Marconi Perillo.

Uma pessoa, segundo todos os jornais, duas pessoas, segundo o jornalista Jorge Kajuru, investigadas na operação, apareceram mortas. O laudo oficial da primeira delas foi de suicídio, mas a crença popular, por motivos óbvios, é de Queima de Arquivo.

Um outro grupo que defende a noção de que se tratou de um crime político é completamente oposto a este primeiro grupo. Na verdade, este grupo é encabeçado pelo próprio governador Marconi Perillo, que na primeira declaração após o atentado disse: “infelizmente, este ato de violência é estimulado pela agressividade e virulência de alguns líderes da oposição em Goiás”

Estava claro, neste momento, a decisão do governador de aproveitar este crime e a comoção social que atos como este criam para enfraquecer a oposição ao seu governo.

A Secretaria de Segurança Pública, por meio do secretário em exercício, Coronel Edson Costa, também optou por manter a tese de crime político. “A configuração e características do delito foram a perpetração contra direitos políticos e o processo eleitoral. Foi um ato contra a soberania, contra o estado de direito e ao direito político”.

Esta também foi a posição do Promotor de Justiça Clayton Korb Jarczewki, responsável, segundo matéria do Diário da Manhã, pelas eleições na cidade:

“Pelo perfil do criminoso, pelo modus operandi, é possível que tenha sido um crime sob encomenda. Nós temos essa linha de investigação que deve chegar a outros políticos locais.”

Diferentemente daqueles que levantaram a tese de Queima de Arquivo, tese que colocaria o grupo ligado ao governador, e, até ele próprio, como suspeito do crime, esta versão do crime político aqui tem um objetivo oposto: fortalecer a situação, criminalizando os opositores.

Não foi por menos que o principal candidato de Itumbiara da oposição, o pecuarista Álvaro Guimarães, que teve a sede de sua empresa depredada por populares no dia do crime, reclamou da declaração do Secretário Interino de Segurança Pública:

“O que nós não entendemos é por que o secretário [interino] vem a público dizer que a motivação seria política, que seria um crime político, se eles não conseguem provar isso”;

Em oposição aos que defendem que se tratou de um crime político, estão aqueles que defendem que foi um crime por motivos pessoais.

Os que defendem esta tese apostam em uma desavença pessoal do auxiliar de serviços gerais com o José Gomes. Os motivos desta desavença seriam diversos.

Já se falou que José Gomes e Gilberto eram vizinhos de chácara, e o primeiro teria tomado de modo ilegal a posse da chácara do segundo. Também já se falou em perseguição no trabalho sofrida por Gilberto a mando de José Gomes e, por último, de cobrança de apoio eleitoral não correspondido.

De todo modo, todos estes motivos desaguam em uma agressão física que o pedreiro e auxiliar de serviços gerais teria sofrido do próprio José Gomes e do seu segurança pessoal, Fábio Marques de Araújo.

Segundo a irmã do Gilberto Ferreira do Amaral, em entrevista para a Folha de São Paulo, o irmão havia lhe confidenciado:

‘Eu decidi matar ele [Gomes]’. Eu disse: ‘Gilberto, releva isso, não mexe com isso, não, Gilberto’. Ele disse: ‘Não, eu vou fazer isso, mana. Tapa na cara dói muito’.

Embora esta tese de motivação pessoal tenha se espalhado bastante, a Polícia Civil de Goiás descartou a existência de uma agressão física por parte de José Gomes e de seu segurança ao auxiliar de Serviços Gerais da prefeitura. Segundo comunicado da PC-GO, existem vários indícios de que o crime já estava sendo premeditado.

Crime Político

A separação entre crime político e crime pessoal não nos parece exata. Em termos empíricos, não podemos, distante da investigação criminal, descobrir se houve ou não motivação pessoal. Porém, em termos de interpretação, creio que precisamos modificar o modo de enxergar o que é um crime político e o que é um crime pessoal.

José Gomes, candidato vítima do atentado em Itumbiara - Foto: Reprodução/Google
José Gomes, candidato vítima do atentado em Itumbiara – Foto: Reprodução/Google

O político José Gomes era o grande coronel de Itumbiara. Amado e odiado. Pelos dois lados, uma figura temida. Trata-se de um figura de poder, um homem extremamente poderoso: dono de uma ilha, dono de inúmeras fazendas, político que ganha todas as eleições e faz ganhar todos os políticos que apoia.

Se supormos que o crime tivesse sido motivado única e exclusivamente por uma agressão sofrida pelo auxiliar de serviços gerais, qual razão teríamos para dizer que se tratou simplesmente de um crime pessoal?

Quantos homens extremamente poderosos, coronéis, humilham, exploram, espancam, agridem moral e fisicamente pessoas neste Estado? Quantos coronéis, não andam com seus jagunços e seguranças pessoais, pois precisam se impor pela força e sabem que, mesmo entre as pessoas que os adoram, existem aqueles que carregam um traço de raiva e moral ferida?

Como disse o atirador, “Um tapa na cara dói”. Quantos tapas na cara não recebemos em Goiás dos poderosos e mafiosos que agem a torto e a direito e a única coisa que podemos fazer é chorar em silêncio e engolir o orgulho feirdo?

A política é violência e a violência em questão, por mais cruel que possa ser, é política. A resistência contra os desmandos dos coronéis, quando não encontram uma força coletiva, desaguam na impotência ou em atos de violência individual. Atos, por sinal, sintomaticamente políticos.

O que nos falta saber é se tratou-se de um crime da política institucional, envolvendo as máfias econômicas e políticas que comandam e disputam o Estado, ou se tratou-se de um crime da política cotidiana; aquela em que pessoas comuns são profundamente humilhadas e, raramente, respondem com um ato, não menos cruel, de violência individual.

*Rafael Saddi é Doutor em História pela Universidade Federal de Goiás, mestre em História pela Universidade Federal de Goiás e graduado em História pela Universidade Católica de Goiás. Atualmente é professor adjunto da UFG; Saddi foi preso neste ano junto com 30 estudantes que ocupavam o prédio da secretaria em protesto contra as Organizações Sociais (OS), sendo vítima da perseguição do Estado

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