Foto: Bárbara Dias/Democratize

No Rio, grande ato contra a PEC 241; porém organização criminaliza estudantes

Foi um grande ato, composto de bastante heterogeneidade ideológica, a Praça da Candelária ficou pequena para tanta gente e para tantos posicionamentos políticos. Logo no começo , ao microfone um senhor enfatizava que, o ato estava sendo organizado pela Frente Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular e Frente de Esquerda Socialista, e que apenas as mesmas, responderiam pelo movimento. Seria uma tentativa inicial de criticar, ou mesmo dizer que não eram bem vindos a presença e a ação de grupos independentes no ato?

É o que vamos revelar na reportagem a seguir.

Os grandes atos no Rio de Janeiro, caracterizam-se por serem bastante  difusos, ou seja, para nós que já estamos a alguns anos nas ruas, é fácil reconhecer os grupos de diversas correntes ideológicas que sempre somaram aos movimentos populares. No entanto, a partir de 2013, com a radicalização dos protestos contra o aumento da tarifa, houve o surgimento de grupos independentes, que começaram a adotar a tática do “bloco negro” ou popularmente conhecidos como “Black Blocs”, para conter a já conhecida violência e truculência da Policia Militar e atacar símbolos de poder, opressão e alvos capitalistas.

Sabemos que esse tipo de ação direta, causa em alguns manifestantes a contrariedade, no entanto, acreditamos que a campanha midiática contra a tática Black Bloc, surtiu grandes efeitos no imaginário coletivo, pois, basta alguém estar de preto no protesto e fazer alusão ou mesmo colocar uma máscara, que essa pessoa passa a ser alvo de hostilidade dos demais manifestantes.

E foi que aconteceu nesta segunda (24), o Ato Contra a PEC 241 se concentrou na Candelária e teve como trajeto a Av. Rio Branco até chegar a Cinelândia. No entanto, próximo a sua chegada a Cinelândia houve uma grande confusão. No microfone pude ouvir “Não vamos seguir adiante enquanto eles não saírem”, não entendi do que se tratava, mas acompanhei de perto a movimentação da tropa da polícia que começou a correr entre os manifestantes.

Para entendermos o que aconteceu, buscamos depoimentos de manifestantes que foram agredidos e perseguidos, tanto pela polícia quanto pelos integrantes de partidos políticos, movimentos sociais e centrais sindicais. Nós mesmos, vimos de perto a agressão de uma estudante, por um integrante da “Esquerda Alvinegra” que retirou a máscara dela a força e a agrediu verbalmente.  Abaixo vamos construir a narrativa com alguns depoimentos, no entanto, manteremos anônimos os nomes, por questão de segurança.

Foto: Wagner Maia/Democratize
Foto: Wagner Maia/Democratize

COMO TUDO COMEÇOU?

A estudante R. nos explica como começou a confusão:

Quem começou delatando e vaiando os Black Blocs, foram os integrantes do MTST.     Logo começou um burburinho e a PM se meteu, depois     só ouvi um homem falando     “não se mete não, os seguranças da CUT tão ai pra resolver  isso”. Achei um     absurdo, porque já temos que lidar com a repressão da polícia e agora     ainda temos     que lidar com a repressão dos próprios manifestantes? Mas esse é o PT, sempre     traindo a base…

Esse relato de que existem “seguranças da CUT” ouvimos de mais de uma pessoa, inclusive temos informação de que essas pessoas ficam circulando no meio do ato, para reconhecer os ativistas da tática Black Bloc e entregar a polícia.

AÇÃO TRUCULENTA DOS SEGURANÇAS DA CUT E PRESENÇA DE P2 NO ATO

A estudante M. afirma ter sido filmada por policias infiltrados no ato (P2) e novamente explica que partiu dos seguranças da CUT o início da confusão:

Fui filmada por um P2… Na hora da confusão com a polícia lá na frente, quando os     seguranças da CUT começaram a impedir a passagem dos “anarcos” pra frente do ato.     Eles começaram a dar soco e a empurrar o pessoal, nessa hora eu saí de lá com uma     amiga, e resolvemos tirar as máscaras pra ir embora, nisso um P2 começou a filmar a     gente, a  ponto de colocar o celular praticamente na nossa cara.

Nas redes sociais são vários os relato de socos e agressões físicas realizadas pelos seguranças da CUT, que tentaram empurrar os ativistas independentes em direção a polícia militar. Até o momento não conseguimos identificar os motivos que levaram os seguranças a agirem dessa forma truculenta, pois, os adeptos da tática Black Bloc, aparentemente não haviam iniciado nenhuma ação direta. A única explicação que conseguimos alcançar é o sectarismo que tem tomado conta dos movimentos de esquerda no Brasil.

O estudante F. conta mais detalhes sobre as agressões:

Ontem quando a gente foi tentar passar (para frente do ato) os seguranças da CUT  estavam armados e ameaçando a gente falando que se a gente não fosse embora o negócio ia ficar ruim pro nosso lado. O cara lá do carro de som gritou falando que o ato não ia continuar se a gente não fosse embora. Aí os seguranças da CUT começaram     a gritar a polícia. Eu estou com meu braço direito e rosto machucados, pois, quando eu tentei sair os Militantes do RUA fecharam minha passagem com os tambores deles e nisso eu tomei umas porradas. Os seguranças da CUT partiram pra cima junto com a polícia e os da CTB bateram com as bandeiras na gente.

Na foto, um dos agressores | Foto: Bárbara Dias/Democratize
Na foto, um dos agressores | Foto: Bárbara Dias/Democratize

Após apuração de vários relatos, desses militantes e de outros que espontaneamente deixaram seus depoimentos nas redes sociais, relatando agressões e perseguições, podemos afirmar que sim, grupos de manifestantes independentes, anarquistas, e principalmente aqueles que adotam a tática “Black Bloc” estão sendo criminalizados por partidos políticos, movimento sociais e centrais sindicais, num sinal de intolerância inaceitável, diante da gravidade do momento político que vivemos.

Finalizamos essa reportagem, com o depoimento da estudante J. que numa análise bastante lúcida e emocionante, explica como foi agredida duas vezes, primeira pela PM que deu uma cacetada em sua perna e por um integrante da Esquerda Alvinegra, que retirou a sua máscara e a agrediu verbalmente:

Obrigada, CUT – Quem precisa da Direita se somos atacados dentro do nosso próprio     campo? Fomos entregues/empurrados para as mãos da PM pelos membros da CUT,     eles chamaram a PM para nos tirar dali a força, nós não havíamos feito nada,     estávamos no     nosso direito, assim como eles. Simplesmente paralisaram a     manifestação e disseram que não prosseguiriam até a gente sair dali, foi quando     a covardia começou, fomos empurrados para o choque, fui agredida com um     cassetetes na coxa, o policial ia partir     para o segundo ataque para cima de mim se     não fossem outros manifestantes que     impediram que isso ocorresse. Já não bastasse     a CUT, após eu ser agredida um indivíduo da esquerda alvinegra puxou a minha     máscara e começou a gritar ofensas. Não iremos a lugar nenhum com as     manifestações enquanto houver a presença de     quem fecha com fascista, a Direita vai     rir vendo essa autodestruíção.

Entramos em contato com a CUT RJ, perguntando sobre o uso de seguranças em atos e também se eles agrediram ativistas e até o momento em que finalizamos essa reportagem, eles não haviam respondido nosso e-mail.

Protesto No Rio De Janeiro Contra A PEC 241

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