“Em Ipanema a gente não consegue ser invisível, só no Centro. Peço desculpa a burguesia, porque sei que deixo a vista feia, mas só quero…

No Rio de Janeiro pré-Olimpíadas, moradores de rua também sofrem com ação da prefeitura

No Rio de Janeiro pré-Olimpíadas, moradores de rua também sofrem com ação da prefeitura“Em Ipanema a gente não consegue ser invisível, só no Centro. Peço desculpa a burguesia, porque sei que deixo a vista feia, mas só quero…


No Rio de Janeiro pré-Olimpíadas, moradores de rua também sofrem com ação da prefeitura

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Em Ipanema a gente não consegue ser invisível, só no Centro. Peço desculpa a burguesia, porque sei que deixo a vista feia, mas só quero conseguir sobreviver’’, diz morador de rua após relatar violência de policiais ao retirar seus cobertores e papelões nas ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro


*Trecho retirado da reportagem ‘A especulação imobiliária e seu interesse na falta de políticas para o povo de rua’, da Agência Democratize

Na última terça-feira (14), o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), justificou a retirada de colchões e papelões pela Guarda Civil Municipal (GCM) como estratégia para evitar a ‘refavelização’ dos espaços públicos. Pelo menos cinco moradores de rua morreram de frio nas últimas semanas e a preocupação que está presente no discurso dos poderes públicos é facilmente questionada quando se avalia a gestão de prioridades e as medidas adotadas para tais medidas.

A indiferença e desrespeito na retirada dos pertences também estão presentes no cotidiano dos moradores do Rio de Janeiro, onde um morador de rua foi encontrado morto, na última quarta-feira (15) em Resende, no Sul do estado. Na madrugada de quarta-feira (15) a mínima registrada foi de 8C, a principal suspeita é que a morte tenha sido causada pelo frio e, apesar das noites deixarem a escuridão pairar sobre a luz dos acontecimentos, o poder público fluminense pode ser responsabilizado pela ausência de cobertores para moradores de rua da região fluminense.

“Tenta correr pra ver se eles não correm atrás de você! O peito do meu amigo dói até hoje com os socos que ele levou do policial. Eles só são educadas de dia, à noite a gente apanha sem ter feito nada’’ (Wallace, 25 anos, morador de rua há 3 anos)

Em Ipanema, na zona Sul da cidade do Rio, os moradores de rua denunciam os procedimentos adotados pela Polícia Militar e pela Guarda Municipal. Eduardo, 33 anos, morador de rua há 6 anos, explica que vive nas ruas por problemas familiares e ameaças na região onde morava, na Baixa Fluminense. Para Eduardo os policiais não estão preparados para respeitar as diferenças entre um morador de rua e um dito bandido. ‘’Eu demorei 3 anos para conseguir tirar um documento de identidade, porque quando eles sabem que você é mendigo eles tem preconceito’’, relata o mesmo.

“Sabe por qual motivo eles não levam mais a gente? Porque os abrigos estão cheios, não tem cama pra gente dormir e estão cheios de percevejo! A assistente social deve ir só pra bater cartão, porque eu nunca vi’’, diz Wallace, que justifica o sorriso como a única forma de sobreviver bem diante de todo o desrespeito cotidiano.

Protesto contra a morte de moradores de rua ocasianados pelo frio em São Paulo | Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Segundo os moradores, durante o dia as autoridades mantem a postura pacifica e educadamente recomendam que eles fiquem nos papelões e com os colchões, mas que não durmam — do contrário, terão que retirá-los. Esse perfil é rapidamente se altera quando as autoridades retornam na madrugada, por volta de 1 hora da manhã, quando as agressões e ameaças são feitas deliberadamente. Além de lidar com a precariedade dos locais para onde são levados, os moradores também sofrem ameaças relacionadas ao perigo da própria localização dos abrigos — localizados ao lado das chamadas “boca de fumo’’ em áreas periféricas do estado.

Enquanto os relatos eram registrados, um rapaz que passava pela Rua Prudente de Morais jogou um casaco para Luis, de 24 nos, que afirmou aguardar pela oportunidade de voltar a poder exercer seu ofício de mestre de capoeira. Todos pegaram o casaco e em tom bem humorado disseram que dividiriam até a polícia levá-lo junto com os cobertores. Luis diz já ter juntado dinheiro e comprado um isopor e alguns produtos para vender na praia, mas na primeira tentativa já teve todo seu material repreendido pela Guarda Municipal. Rodrigo, de 26 anos, chegou com um saco cheio de latinhas e disse que até mesmo ser catador é um pouco crime. “Se eu disser ‘boa noite’ as pessoas ficam com medo, se eu passar com meu saco de latinhas as pessoas ficam com medo, se eu pedir uma moeda elas saem correndo. Eu entendo que a cidade está perigosa, mas é difícil viver sendo um monstro’’, diz Rodrigo.

O frio continua castigando moradores de rua todas as noites no estado do Rio de Janeiro. Independente do que vemos ou não, do que optamos por enxergar ou compreender, vidas estão sendo tomadas mais rápido do que cobertores e rasgadas como se fossem papelão todos os dias. A falência do estado não é uma novidade quando falamos do tratamento oferecido a moradores de rua. A gestão social está sendo administrada pelo descomprometimento dos que não compreendem que ao tratarmos de vidas, do morador da cobertura de luxo ao morador das ruas de Ipanema, estamos tratando de respeito e diversidade. Enquanto a retirada de moradores for uma estratégia de omissão da realidade, que é favelizada, e não de solução e adaptações, continuaremos no ciclo incessante de vidas perdidas e desrespeitadas.

“(…) quando você se aproxima da pobreza faz uma descoberta que supera algumas outras. Você descobre o tédio, e as complicações mesquinhas e os primórdios da fome, mas descobre também o grande aspecto redentor da pobreza: o fato de que ela aniquila o futuro.’’ (Orwell, 1928)


Reportagem por Sara Vieira, jornalista pela Agência Democratize no Rio de Janeiro

Veja mais aqui.

By Democratize on June 20, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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