Segundo o ex-ministro das Finanças do governo de esquerda grego, a falta de “transparência, estabilização e uma Constituição democrática…

No começo do ano, ex-ministro grego já previa desgaste da União Europeia

No começo do ano, ex-ministro grego já previa desgaste da União EuropeiaSegundo o ex-ministro das Finanças do governo de esquerda grego, a falta de “transparência, estabilização e uma Constituição democrática…


No começo do ano, ex-ministro grego já previa desgaste da União Europeia

Foto: Aris Messinis / AFP

Segundo o ex-ministro das Finanças do governo de esquerda grego, a falta de “transparência, estabilização e uma Constituição democrática redigida pelos cidadãos e não pelas corporações” faria a União Europeia entrar em declínio. Quatro meses após declarações, o Reino Unido oficializou sua saída do bloco através de voto popular.


Yanis Varoufakis.

Trata-se de um dos nomes mais polêmicos e interessantes da nova política europeia, surgindo após vitória do esquerdista Alexis Tsipras nas eleições gregas. Como ministro das Finanças da Grécia, Varoufakis bateu de frente com os credores, causando alvoroço por onde passava. Comparou a ajuda do bloco europeu com Atenas a tática de tortura. Resistiu contra o reformismo interno no partido, Syriza, e no governo. Se rendeu quando percebeu que era impossível passar por cima dos credores.

O homem que descreveu o programa de resgate da União Europeia para a Grécia como um “afogamento simulado” — um método de tortura que deixa a vítima à beira da asfixia usando água — disse em fevereiro deste ano que, se a União Europeia persistir em sua política anti-democrática, visando países como Grécia e Portugal como “periféricos”, a situação poderia sair do controle.

Com o movimento DiEM25, uma aliança de forças de esquerda contrárias à austeridade, Varoufakis tenta democratizar o bloco. Para fortalecer uma Europa na qual, escaldado por sua experiência política, não se vê como eurodeputado, propõe “transparência, estabilidade e uma Constituição democrática redigida pelos cidadãos” e prevê entraves por parte das instituições europeias à esquerda que chegar ao poder no sul.

Em entrevista ao jornal El Pais naquele mês, o ex-ministro alertou sobre uma possível desintegração do bloco.

Quatro meses depois, a população do Reino Unido decidiu pela saída do país da União Europeia, nesta quinta-feira (23).

Protesto contra a União Europeia e sua política de austeridade na Grécia, em 2015 | Foto: Yannis Behrakis/Reuters

“Vemos que os países-membros perderam a confiança nas instituições. Vemos que estão tentando encontrar uma maneira de afastar-se gradualmente de um navio que está indo direto para as rochas. Sem dúvida há problemas: a dívida, a crise dos refugiados… Mas o que acontece é que muitos países estão renacionalizando sua esperança e jogando o custo da união sobre as costas dos outros”, disse Varoufakis na época.

No final das contas, a saída do Reino Unido da UE pesou pela questão da imigração e dos ataques terroristas de grupos islâmicos no continente. Mas, por trás da xenofobia e do discurso populista da extrema-direita, se encontra ainda a grave crise econômica e social que enfrenta regiões da Inglaterra, que foram massacradas por medidas neoliberais adotadas ainda nos anos 80, pela ex-primeira ministra Margaret Tatcher.

Esse eleitorado, de classe média baixa, composto em sua maioria por ex-operários desempregados, enfraquecidos pela diminuição dos sindicatos no país, não sabe para quem recorrer. A esquerda, simbolizada pelo Partido Trabalhista, não soube lidar com o público, deixando de braços abertos para a extrema-direita, composta por grupos anti-imigração que em sua maioria colocam a culpa do desemprego e da austeridade não nos bancos e nos investidores externos da UE — e sim nos imigrantes.

Qual seria o primeiro passo para redimensionar a Europa? “Sobretudo que os europeus mostrem sua indignação e que a canalizem de maneira humana, colaboradora, positiva. Não se trata de um descontentamento como o que alimenta Le Pen ou a Aurora Dourada [partido neonazista grego], que querem a dissolução da Europa. Os cidadãos europeus se indignariam muito se soubessem como são tomadas as decisões do Eurogrupo, a portas fechadas. A primeira coisa que a UE necessita é transparência, e que as decisões do Eurogrupo e a maneira como são adotadas sejam muito diferente”, disse em fevereiro o ex-ministro grego.

“A UE forjou mecanismos econômicos como o Banco Central, como a troika, que desconstruíram a medula da Europa; ao mesmo tempo, quanto mais fracassaram essas políticas, mais autárquicos se tornaram as tentativas de fazer política externa. A política externa europeia é a de seus Estados-membros, por isso assistimos a um ciclo de autarquia-fracasso-autarquia em relação direta. A resposta do movimento DiEM25 é simples: transparência e estabilização para uma Europa constitucionalmente democrática que possa ter política externa”, diz Varoufakis, sobre a questão da imigração em massa e a possível criação de uma “política conjunta” sobre o tema entre os países que fazem parte do bloco.

Com erros e acertos, a UE caminha para uma possível desintegração — ou até mesmo para um monopólio político, social e econômico da Alemanha.

Ambos os cenários são desastrosos, mas servem de alerta para as instituições que se baseiam nos interesses de corporações e investidores — e não naquilo que a sua própria população pensa e deseja.

By Democratize on June 24, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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