Foto: Reprodução/Facebook

Nas redes sociais, usuários “comemoram” assassinato de estudante pró-ocupações

O radicalismo que levou ao assassinato do jovem Guilherme Silva Neto pelo próprio pai em Goiânia, chegou nas redes sociais. Em postagens e até mesmo no perfil do estudante no Facebook, usuários “comemoram”, fazem brincadeiras e colocam a culpa de sua morte por causa do seu comportamento político. Guilherme defendia as ocupações nas escolas contra a PEC 55/241, e foi assassinado pelo próprio pai que discordava de seu posicionamento.

A onda de violência e tensão política no Brasil chegou em um estágio completamente irracional nesta semana, após a morte do jovem estudante de Matemática, Guilherme “Irish” (20) em Goiânia. O jovem, que se posicionava claramente em defesa das ocupações nas escolas e universidades contra o projeto que congela gastos na Educação e Saúde por 20 anos (a PEC 55/241), foi assassinado pelo próprio pai, que discordava da postura política e ideológica de Guilherme.

O jovem tinha como objetivo participar da ocupação na Universidade Federal de Goiás (UFG), onde estudava Matemática. Porém, seu pai não permitia. Segundo a própria família, discussões e brigas sobre questões econômicas, sociais e ideológicas entre ambos era algo rotineiro – porém, nunca imaginavam que terminaria desta forma.

Segundo a mãe de Guilherme, o jovem desejava na noite de terça (15) ajudar colegas que ocupavam uma unidade que sofreria reintegração de posse. Naquela manhã, ele e seu pai tiveram uma grande discussão, e ambos acabaram saindo de casa separados.

Quando seu pai retornou para casa e não encontrou Guilherme, foi à sua procura. “O pai surpreendeu o filho próximo à Praça do Avião. Segundo testemunhas, nesse momento, ele teria efetuado quatro disparos. Mesmo ferido, o jovem chegou a correr, mas o pai entrou no carro e o perseguiu até alcançá-lo. Foi quando ele atirou outras vezes”, disse o delegado responsável pelo caso. Após o assassinato, o pai de Guilherme resolveu cometer suicidio ao lado do corpo do filho.

Apesar de ser uma história trágica, e que reflete a forma como o radicalismo político chegou em um novo estado cada vez mais crítico no Brasil, usuários nas redes sociais que são contra as ocupações nas escolas e universidades, resolveram entrar no perfil de Guilherme no Facebook para “comemorar” sua morte, além de questionar seu posicionamento político – e, logo em seguida, tentar justificar a ação do pai contra o filho.

No perfil pessoal de Guilherme, em seu último post, um dos usuários comentou com a foto do ex-ditador chileno Pinochet, conhecido por ter assassinado milhares de pessoas durante seu regime de extrema-direita | Foto: Reprodução/Facebook
No perfil pessoal de Guilherme, em seu último post, um dos usuários comentou com a foto do ex-ditador chileno Pinochet, conhecido por ter assassinado milhares de pessoas durante seu regime de extrema-direita | Foto: Reprodução/Facebook

Na mesma publicação, é possível ver comentários satirizando o assassinato do jovem, em sua maioria publicada por fakes. Em um comentário em específico, um usuário chamado Alex questiona as homenagens ao estudante, o chamando de “baderneiro” e “vagabundo”.

Foto: Reprodução/Facebook
Foto: Reprodução/Facebook

Nem mesmo em páginas de jornais, como o Estado de S. Paulo, os comentários ofensivos e de ódio foram poupados.

Em uma reportagem publicada pelo Estadão em sua página no Facebook, usuários questionavam o posicionamento político de Guilherme, colocando seu ativismo como justificativa para o pai tê-lo assassinado. Já outros comentavam que o triste incidente teria como culpada a “doutrinação ideológica” articulada pelo Partido dos Trabalhadores e pela esquerda.

Comentários na matéria do Estadão culpam a esquerda e o petismo pela morte do jovem | Foto: Reprodução/Facebook
Comentários na matéria do Estadão culpam a esquerda e o petismo pela morte do jovem | Foto: Reprodução/Facebook

A radicalização e o sangue nas mãos da austeridade

Tal processo de radicalização política no país, em tempos onde o governo federal comandado por Michel Temer (PMDB) tenta passar a imagem de responsável, mostra-se em um crescimento cada vez maior.

Trata-se de uma semana agitada: se na terça-feira o caso envolvendo Guilherme chocou o país, nesta quarta-feira (16) duas manifestações opostas também agitaram o país, em pontos diferentes.

Em Brasília, um grupo de 50 manifestantes de extrema-direita invadiram a Câmara dos Deputados, com apoio de parlamentares do PRB e PSC. Os extremistas levavam faixas e usavam camisetas em defesa da intervenção militar, além de prestar homenagens ao juíz Sérgio Moro e ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSC). O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), criticou a ação e permitiu o uso da violência contra os manifestantes.

Por outro lado, mais de 30 mil pessoas protestavam no Rio de Janeiro contra o pacote de austeridade defendido pelo governador Pezão (PMDB). Porém, em determinado momento, o jornalista da TV Globo, Caco Barcelos, acabou sendo alvo de manifestantes violentos, que além de expulsar o profissional também o agrediram. Barcelos é conhecido pelo seu histórico trabalho que questiona a violência do Estado, além carregar em seu programa (Profissão Repórter) uma ótima qualidade investigativa.

Esse cenário deveria ser o suficiente para assustar Michel Temer e todo o seu governo – porém, aparentemente não é. Pelo contrário: deputados pró-governo já se articulam para usar a invasão do grupo de extrema-direita na Câmara para aprovar uma lei que não apenas proíba a ocupação de manifestantes em prédios públicos, como também torne esse tipo de protesto em motivo de cadeia. Isso afetaria diretamente as ocupações nas escolas e universidades ao redor do país contra a PEC 55/241.

Desta forma, o governo Temer continua ignorando o clima de radicalização política no país, incentivando a criminalização de setores populares, para aprovar de qualquer forma possível seu projeto de austeridade para o Brasil nos próximos meses.

E neste clima de incertezas e cada vez mais perigoso para quem declarar sua opinião política em público, o Brasil caminha para um abismo de violência. Mas como disse Noblat, colunista do O Globo, em seu Twitter: “O presidente Michel Temer, dona Marcela e Michelzinho passam um agradável feriado no Palácio do Jaburú. O sol brilha em Brasília” – e para eles, essa aparência pré-moldada e vendida é o que importa.

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