“Precisamos, sim, falar sobre estupro. Precisamos enxergar quais das nossas atitudes cotidianas dão respaldo para que estupros sejam…

Não podemos nos calar! Precisamos combater a cultura do estupro

Não podemos nos calar! Precisamos combater a cultura do estupro“Precisamos, sim, falar sobre estupro. Precisamos enxergar quais das nossas atitudes cotidianas dão respaldo para que estupros sejam…


Não podemos nos calar! Precisamos combater a cultura do estupro

Foto: Gabriel Soares/Democratize

“Precisamos, sim, falar sobre estupro. Precisamos enxergar quais das nossas atitudes cotidianas dão respaldo para que estupros sejam cometidos. Precisamos perceber que educar um filho para ser garanhão, ensinar valores que objetificam as mulheres, estimular pensamentos machistas e compreender a mulher apenas como serva das necessidades fisiológicas masculinas, são comportamentos que fazem o machismo perpetuar.”


Nessa quarta-feira (25), viralizou no Twitter uma postagem que causou repulsa em todas as mulheres. O estupro coletivo de uma garota de 17 anos, no Rio de Janeiro, ocorrido na última sexta-feira (20). O post com vídeo da jovem desacordada e machucada, foi divulgado na conta de Michel. Na rede social, entre deboche ele escreveu: “Amassaram a mina, intendeu ou não ou não intendeu? Kkk”. A publicação viralizou porque 33 homens abusaram de uma garota. E se vangloriaram por isso.

Nas inúmeras postagens decorrentes dessa primeira, não era difícil encontrar descrições minuciosas do vídeo, de como a garota ficou. Qual é o nível de sadismo de uma sociedade que precisa dessas informações para se sensibilizar com um estupro?

É preciso que haja dezenas de homens.

É preciso que haja imagens.

É preciso que haja sangue.

E se não houvesse nada disso, alguém acreditaria na garota? Se uma mulher, jovem e mãe adolescente, relatasse que foi estuprada por sabe-se lá quantos homens, já que estava inconsciente e não era capaz de identificá-los, relatasse o crime nas redes sociais, quem se sensibilizaria por ela? Se com as imagens e a confissão virtual do crime, os responsáveis são tratados como “supostos estupradores”, como seria se a única acusação fosse feita pela garota? Quantos não diriam que ela inventou? Quantos não diriam “ela pediu por aquilo”?

Foto: Giovana Meneguim/Democratize

Ainda com esse cenário cruel, a publicação recebeu centenas de comentários agressivos e machistas, que ironizavam o caso. O vídeo foi favoritado. Entre os 33 homens autores do crime e os demais comentários, nenhum teve a humanidade de questionar o ato.

Isso reforça o quanto a cultura do estupro se tornou natural. Da piada machista, que reduz mulheres a seres sem inteligência, à romantização dos abusos nas novelas, que retratam o sexo forçado, com uma mulher sem condições de negar ou resistir como supostos atos de amor, ou ainda as justificativas de que os desejos do universo masculino são irracionais, instintivos e, portanto, incontroláveis. São as ideias e as crenças da sociedade que dão suporte aos acontecimentos da vida real.

A mídia tradicional também alimenta a cultura do estupro e fornece informações que deslegitimam a vítima quando, diante de tantas evidências, trata os casos como “suposto” crime. Nas matérias sobre a adolescente do Rio de Janeiro, alguns veículos divulgaram que ela tem um filho e é usuária de drogas, sugerindo a culpa da vítima e reforçando a opinião do censo comum de que ela mereceu o estupro. E nós rebatemos dizendo que a culpa NUNCA é da vítima.

Quando um deputado fala em rede nacional que não estupra uma colega de parlamento porque ela não merece, sugerindo que há mulheres que sim, merecem ser estupradas, ainda que ele não consume o ato, dá suporte a outros que executarão o estupro sentindo-se respaldados por seu discurso.

No mesmo dia, que a história da jovem violentada no Rio de Janeiro ganhou repercussão na mídia e redes sociais, outro caso de estupro coletivo aconteceu em Bom Jesus — cidade de 22 mil habitantes e localizada a 644 quilômetros de Teresina — no Piauí. Segundo informações do El País Brasil, uma garota de 17 anos foi estuprada por um homem de 18 anos e mais quatro adolescentes. A menina foi encontrada ferida e amordaçada com a própria calcinha em uma obra abandonada. Há cerca de um ano, o estado também foi palco de outro caso semelhante, em Castelo do Piauí, quando quatro jovens foram vítimas de estupro coletivo e atiradas de um penhasco.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

O caso da menina de Bom Jesus não ganhou repercussão na mídia, não teve foto publicada nas redes sociais e deixa claro a indignação seletiva de boa parte das pessoas que se comoveram. Todos os dias, milhares de mulheres são vítimas de agressão no Brasil, de acordo com o 9° Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com dados mais recentes de 2014, um estupro acontece a cada 11 minutos. Cadê a perplexidade com informações tão alarmantes?

É necessário expor com fotos e vídeos as vítimas de agressão para aquecer as discussões sobre estupro, pedir justiça e punição aos culpados? Quantas mulheres terão seus casos silenciados, até que outra atrocidade ganhe comoção geral? Enquanto a revolta for seletiva, o machismo e a cultura do estupro farão mais vítimas.

Nessa semana, também nas redes sociais, mulheres descobriram e denunciaram a existência de um grupo em que homens — milhares deles — trocavam fotos e vídeos de mulheres nuas ou fazendo sexo sem que essas soubessem. Uma das regras do “Pornelinha” é que só permaneceria no grupo quem compartilhasse conteúdo. E milhares ficaram por lá.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Quantas mulheres não foram expostas ali? Daqueles milhares de homens, quantos deles se indignariam ao saber que uma mulher foi estuprada por 30 de seus iguais?

Ainda que nenhum dos homens desse grupo (ou de tantos outros que devem existir com o mesmo propósito) tenha, ativamente, estuprado uma garota, eles dão suporte para que isso aconteça ao valorizarem as imagens resultantes disso. Desde o cara que vaza para os amigos os “nudes” da garota com quem está saindo até o “fotógrafo” que usa a “visão privilegiada” do ensaio nu que fez com uma garota para se vangloriar — passando pelos amigos que aplaudem ou não repudiam tais atitudes -, todos dão apoio para que esse crime aconteça. Isso porque, em ambos os casos, a mulher é somente o troféu, o objeto a ser exposto por aquele capaz de ostentá-lo — seja à força ou não.

Os homens que estupraram a garota divulgaram o vídeo-troféu porque acreditavam que encontrariam respaldo. Divulgaram buscando justamente aqueles que os aplaudiriam por isso. Ainda que seja um tanto difícil encontrar alguém que defenda abertamente que mulheres devam ser estupradas, há algo sintomático em ver a quantidade de pessoas que favoritaram, assistiram ou compartilharam o vídeo.

Pessoas que estupram não são de um submundo paralelo ao qual não temos acesso. Pessoas que estupram vivem em sociedade. Na nossa sociedade. Essas pessoas têm família, filhas, irmãs, namoradas. Trabalham, estudam, conversam. Dividem conosco o acento do ônibus, disputam espaço na escada rolante do metrô. Como todas as outras pessoas, influenciam e são influenciadas pelo mundo a sua volta.

Precisamos, sim, falar sobre estupro. Precisamos enxergar quais das nossas atitudes cotidianas dão respaldo para que estupros sejam cometidos. Precisamos perceber que educar um filho para ser garanhão, ensinar valores que objetificam as mulheres, estimular pensamentos machistas e compreender a mulher apenas como serva das necessidades fisiológicas masculinas, são comportamentos que fazem o machismo perpetuar. Porque nós, enquanto mulheres, estamos todas sujeitas a isso. E porque nós, enquanto sociedade, também somos parte desse problema, e não podemos continuar a nos omitir.


Artigo por Giovana Meneguim e Carol Nogueira, para a Agência Democratize

By Democratize on May 27, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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