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Não é só Trump: o populismo que assombra o Ocidente

Além dos EUA, o populismo ganha força em diversos países da Europa, inclusive na França e no Reino Unido.

Por Felipe Migliani

O republicano Donald Trump venceu a eleição presidencial estadunidense na última quarta-feira (09/11) com 48% dos votos. O magnata obteve 276 delegações contra 218 da democrata Hillary Clinton. O discurso populista, nacionalista, anti-imigrantes, anti-elites e anti-globalização do bilionário é um sinal da ascensão das correntes populistas de direita nas democracias ocidentais.

A campanha isolacionista, populista e xenofóbica do bilionário do ramo imobiliário tiveram entre seus principais alvos os imigrantes, a abertura das fronteiras e as elites que impulsionaram a globalização da economia e o aumento do comércio mundial nas últimas décadas. A vitória do magnata significa também um triunfo da repulsa de eleitores no mundo ocidental desenvolvido contra as mudanças causadas pela globalização.

Foto: Reprodução
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Assim como na vitória da Brexit no referendo do Reino Unido, provocando a saída da União Europeia, em junho, um dos propulsores da campanha de Trump foi o votante de classe média, branco e de baixa escolaridade. Esse eleitorado acha que sofreu perdas com a globalização e se sente ameaçado pelo aumento da imigração para seus países.

Para o escritor estadunidense John Judis, autor do livro “A explosão populista”, a grande crise financeira que explodiu há uma década preparou o terreno para esta ascensão populista. “A desaceleração e o aumento das desigualdades criaram muito ressentimento” contra os que governam, comentou à Agence France-Presse (AFP).

O populismo dá os primeiros passos no velho continente

A vitória de Trump teve grande impacto na ordem mundial liberal. Ela pode ser medida pelo mote do seu discurso na convenção do Partido Republicano. Uma das frases da fala do magnata que o consagrou como candidato presidencial, em julho, foi “Americanismo e não globalismo será nosso credo”.

Os choques de sua eleição já começaram a ser sentidos no mercado financeiro internacional. A partir da Ásia, as Bolsas mundiais começaram a entrar em convulsão a partir do momento em que ficou clara a chance de êxito de Trump. As ondas de propagação causadas pela espantosa vitória de Trump estão impulsionando às Bolsas políticas da Europa, onde há um ascendente movimento nacionalista, populista e xenofóbico em vários países.

Já na França, o Frente Nacional, partido de extrema direita, está ganhando força. As pesquisas indicam que Marine Le Pen, líder do partido, irá ao segundo turno das eleições presidenciais de 2017. Marine foi uma das primeiras líderes políticas a felicitar o presidente eleito dos EUA pela vitória. Em uma entrevista a Agence France-Presse (AFP), Jeremy Shapiro, diretor de investigação do European Council on Foreign Relations (ECFR), disse: “há um medo de mudança, um medo ‘do outro’, um medo da “contaminação cultural.” Todos estes partidos de extrema-direita denigrem as “elites” político-financeiras e a globalização, considerada por eles uma fraude inventada pelos ricos.

Na Alemanha, o Alternativa para a Alemanha, partido populista de extrema direita, conseguiu nos últimos meses várias vitórias eleitoras. O partido tem um discurso radical sobre a crise da imigração na Europa. A extrema direita também está crescendo na Áustria, na Holanda e nos países escandinavos. O Geert Wilders, chefe do Partido para a Liberdade (extrema direita da Holanda), tuitou “sua vitória é histórica para todos nós!” em apoio ao Donald. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, e o presidente tcheco, Milos Zeman, frequentemente criticados por seu discurso de direita populista, também expressaram seu apoio ao magnata Trump.

Analistas alertam

O Doutor em ciência política, Robert Shapiro , é um dos analistas que encaram esta ascensão nacionalista como um desafio direto à União Europeia e às instituições internacionais em geral. Esse sentimento se amplifica diante da onda de imigrantes que chegaram à Europa e à ameaça terrorista. E este sentimento se amplifica diante da onda de migrantes que chegaram à Europa e à ameaça terrorista. “A imigração é o principal fator” desse crescimento, sobretudo “pelo peso que pode ter sobre o sistema de saúde e de educação” nos países de chegada.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, havia comunicado que o Brexit (apoiado pelo magnata) poderia levar “não apenas à destruição da União Europeia, mas também da civilização política ocidental”. No decorrer da sua campanha, Donald Trump fez críticas a várias organizações internacionais, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). O populismo “em geral é um sinal de alerta” para que os políticos prestem mais atenção às demandas de uma parte da população, avalia John Judis.

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