Enquanto continuarmos perdemos tempo decidindo qual a melhor forma de transporte individual, o caótico trânsito das grandes cidades…

Na guerra entre Uber e taxistas, quem perde é o transporte público

Na guerra entre Uber e taxistas, quem perde é o transporte públicoEnquanto continuarmos perdemos tempo decidindo qual a melhor forma de transporte individual, o caótico trânsito das grandes cidades…


Na guerra entre Uber e taxistas, quem perde é o transporte público

Foto: Agência RPCI

Enquanto continuarmos perdemos tempo decidindo qual a melhor forma de transporte individual, o caótico trânsito das grandes cidades continuará afetando diretamente a nossa qualidade de vida.

Um verdadeiro tsunami de artigos e matérias tem alimentado a discussão sobre o Uber, serviço privado “de luxo” para transporte individual. Seja nas redes sociais ou no bar de fim de semana, um dos tópicos de conversa é como esse novo serviço consegue ser eficiente e ao mesmo tempo mais barato, enquanto os taxistas encurralam motoristas do Uber na noite paulistana, como se fossem lunáticos radicais.

Não pretendo entrar nos méritos do Uber neste artigo. Nem sobre os taxistas. Afinal, você provavelmente já deve ter lido demais sobre isso desde que esse novo serviço chegou ao Brasil.

A verdade é que enquanto continuarmos perdendo tempo debatendo sobre qual serviço privado e individual é mais eficiente, não conseguiremos progredir com algo mais do que essencial: o transporte público e coletivo. Na realidade, trata-se de um debate em torno de egos e politicagem que exclui exatamente a maior parte da população dos centros urbanos. E vou explicar o porque de achar isso.

Primeiro que pode ser menos charmoso, e o motorista pode não ser um belo rapaz de terno e gravata que lhe oferece água e chiclete, mas trata-se de algo que cumpre uma função básica — ou pelo menos deveria — em uma sociedade que vive em uma gigante selva de pedra: a locomoção.

Segundo: cerca de 62% da população do estado de São Paulo recebe menos que o valor de dois salários mínimos (R$1.760,00). Esse valor ainda consegue ser maior do que ganham cerca de 71% dos brasileiros. Podemos ir um pouco além se calcularmos a quantidade de pessoas que recebem apenas um salário mínimo (R$880,00) ou menos no estado de São Paulo — cerca de 35% da população. No Brasil, cerca de 17% recebe R$880 ou menos. Os dados fazem parte do PNAD do primeiro trimestre de 2015, calculando o rendimento mensal habitual de todos os trabalhos para pessoas de 14 anos ou mais de idade, sendo calculado através da matéria publicada pelo site Nexo.

E o que isso tem a ver com Uber, táxi e transporte público?

Muita coisa. Em um país em recessão, gastos essenciais estão sendo reduzidos para famílias que recebem até dois salários mínimos: diminuir o valor da conta de água e luz, menos compras no supermercado, viagens, etc. Claro, isso inclui também os gastos na fatura do cartão de crédito — que é a forma de pagamento do Uber.

Trata-se de 62% da população só do estado de São Paulo que necessitaria de um transporte público e de qualidade para se locomover, seja para o trabalho ou para a escola, ou até mesmo para realizar viagens baratas ou apenas entretenimento através de cultura, arte ou esporte. Ou seja, 62% da população excluída do debate público sobre mobilidade urbana.

Cá entre nós, se você recebesse menos que dois salários mínimos e morasse em São Paulo, tendo que pagar: aluguel, contas de água e luz, fatura do cartão de crédito, e outros fatores adicionais — caso tenha filhos ou estude em alguma instituição privada — , você provavelmente não perderia seu tempo discutindo sobre Uber ou Táxi, justamente porque você não teria condições de ter um acesso rotineiro com esse tipo de transporte individual.

Cartaz exibido por manifestante, em protesto do MPL em 2011 | Foto: Juliana Alguma

Por mais que os meios de comunicação nos bombardeie com opiniões de “especialistas” sobre como o Uber é um novo serviço diferenciado, isso não faz a menor diferença para mais da metade da população.

Por que então não debatermos o que realmente importa para a maioria dos que habitam, trabalham e estudam nos grandes centros urbanos: o transporte público? A resposta é clara e objetiva: o poder público não tem o menor interesse por isso.

A prova mais concreta disso tudo é a evolução do metrô em São Paulo.

Cerca de 7,1 milhões de pessoas utilizavam o metrô e os trens da CPTM diariamente em 2012, segundo registra os dados operacionais — levando em conta que agora, o número deve ter aumentado significavelmente.

Mesmo sabendo a necessidade de ampliação e investimento no transporte público como o Metrô, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) travou mais uma vez a construção da linha 17-ouro, neste começo de ano. A linha tem como objetivo ligar o Aeroporto de Congonhas e o estádio do Morumbi, em regiões distintas da cidade, e tinha como “promessa” ser inaugurada antes da Copa do Mundo de 2014. Em reportagem publicada pela Folha em agosto de 2015, foi revelado que o governo estadual congelou a construção de 17 das 36 estações dos monotrilhos das linhas 15-prata e 17-ouro.

Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação apontam que a gestão tucana em São Paulo, que está no poder desde 1995, investiu R$30 bilhões em trilhos, trens e estações do metrô nos últimos 20 anos, inaugurando apenas 37,2 km de linhas e 27 estações. Ou seja, menos de 2 km de novas linhas por ano.

Podemos usar como comparativo a cidade de Seul, na Coréia do Sul, que teve sua malha de metrô inaugurada apenas um mês antes de São Paulo, contando hoje com 326,5 km de metrô enquanto São Paulo conta com apenas 80,6 km.

Especialistas afirmam que o número de passageiros ideal por metro quadrado em cada carro de passageiros no metrô é de 6 pessoas. Segundo dados de 2012, a média de passageiros por m² em cada vagão de São Paulo é de 8 pessoas. Talvez, se o planejamento do governo estadual fosse seguido de forma limpa e transparente, a situação seria diferente.

O Portal Terra lançou no ano de 2012 um infográfico acompanhando a evolução do transporte sob trilhos em São Paulo. Seguindo o planejamento do governo do Estado para este ano, as seguintes estações seriam entregues:

  • Vila Sônia, São Paulo-Morumbi, Oscar Freire, Higienópolis-Mackenzie, Jardim Jussara e Taboão da Serra na Linha Amarela (4);
  • Nova linha: a 17-ouro (São Paulo-Morumbi, Estádio Morumbi, Américo Murano, Paraisópolis, Panamby, Vila Paulista, Vila Babilônia, Cidade Leonor, Hospital Sabóia e Jabaquara);
  • Nova linha: a 18-Bronze (Estrada dos Alvarengas, Capitão Casa, Café Filho, Ferrazópolis, Praça Lauro Gomes e Djalma Dutra);
  • Prolongamento da Linha 15-Prata, com as estações Ipiranga, Vila Prudente, Oratório, São Lucas, Camillo Haddad, Villa Tolstói, Vila União, Jd. Planalto, Sapopemba, Fazenda da Juta, São Mateus, Iguatemi, Jequiricá, Jacú-Pêssego, Érico Semer, Márcio Beck, Cidade Tiradentes e Hospital Cidade;

Claro, nenhuma delas foi até o momento. Isso sem contarmos as estações que desde 2012 são prometidas pelo governo do Estado, com planejamento de entrega antes deste ano, e até hoje não foram concluídas.

Agora, vocês entendem o motivo dos meios de comunicação e o próprio governo incentivarem tanto a discussão sobre formas individuais e privadas de transporte, enquanto aplicam o verdadeiro sucateamento do transporte público e coletivo?

Em tempos de austeridade e recessão, a população trabalhadora que recebe menos do que dois salários mínimo em São Paulo precisa cortar gastos. Já o governo estadual, faz o mesmo. Claro que, enquanto existem cortes “essenciais” para ajudar o equilíbrio das contas, como é o caso do Metrô, outros já não são tão essenciais assim, já que Em apenas três anos o governo do PSDB em São Paulo gastou cerca de 77 milhões de reais com “arsenal anti-tumulto”: bombas de efeito moral, balas de borracha, gás lacrimogêneo, etc.

Se formos considerar o gasto planejado pelo governo estadual para a extensão da Linha 13-Jade da CPTM (o Expresso Guarulhos) é de R$1,2 bilhões, quase 1/10 desse valor foi utilizado em apenas três anos para comprar arsenal de guerra desnecessário para reprimir manifestações públicas nas ruas de São Paulo.

Foto: Alice V/Democratize

Resumindo: enquanto perdemos tempo discutindo se iremos pegar um Uber ou um táxi, mais de 60% da população paulista sofre com um transporte público que oferece um péssimo serviço. Ao mesmo tempo, o governo do Estado arranca orçamento da mobilidade urbana e coletiva para financiar armamento de repressão contra a própria população, adiando e cancelando expansões e linhas no Metrô, por mais um ano, mais uma década.

E ai, vamos continuar debatendo sobre Uber Vs Taxistas?


Texto por Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize

By Democratize on February 3, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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