As capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, além de outras grandes cidades ao redor do país, vivenciaram grandes manifestações lideradas por…

Mulheres nas ruas: “a culpa NÃO é da vítima”

Mulheres nas ruas: “a culpa NÃO é da vítima”As capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, além de outras grandes cidades ao redor do país, vivenciaram grandes manifestações lideradas por…


Mulheres nas ruas: “a culpa NÃO é da vítima”

Foto: Fernando DK/Democratize

As capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, além de outras grandes cidades ao redor do país, vivenciaram grandes manifestações lideradas por mulheres contra a cultura do estupro, nesta quarta-feira (01). A repórter Sara Vieira foi pra rua na Candelária, e deu seu recado.


Na última quarta-feira (1), mulheres de todo o Estado do Rio de Janeiro se reuniram em frente à Igreja da Candelária, no centro da cidade do Rio, no ato em defesa de seus direitos. O acontecimento que gerou a comoção para a manifestação de ontem, que seguiu da igreja até a Central do Brasil fechando todo o trânsito de uma das principais vias, foi o estupro coletivo ocorrido na última semana. O ato contou com a presença de coletivos universitários e de movimentos específicos da luta da mulher negra e das comunidades periféricas, corroborando com as estratégias de integração e preservação das diversidade do movimento.

A cultura do estupro deve ser esclarecida e melhor compreendida, por homens e mulheres. Apesar do tema ter se tornado frequente nos debates nas redes sociais apenas na última semana, ele já é vivido diariamente por mulheres de todo o mundo, durante anos. Um microfone ficou disponível e aberto às representantes dos movimentos presentes, oferecendo instrumento de denúncia e recriminação de atos que conduzam a aceitação de agressão às mulheres. A cultura do estupro, assim como o estupro coletivo ocorrido na última semana, passou por mistificações e sátiras e a agência Democratize repudia qualquer teor de desrespeito oferecido a assuntos relativos à violência conta a mulher, seja ela física ou psicológica.

Em respeito à luta e ao direito de voz, fomos às ruas buscar melhores esclarecimentos sobre o tema.

O ato no Rio de Janeiro | Foto: Sara Vieira/Democratize

A sororidade está em respeitar e compreender a dor da companheira que está ao seu lado, a mulher negra que é vitima da objetificação de sua imagem de ‘’mulata quente’’, a dona de casa que sofre violência domestica silenciada, a mãe que deve aceitar o aborto paterno quando o companheiro a deixa só com os filhos, a adolescente que vê sua essência e suas vontades serem ditadas pela mídia que oprime seus corpos com normas de beleza e suas mentes com normas comportamentais (que geralmente visam preencher os padrões de exigência em prol da felicidade masculina tão somente). A cultura do estupro não é um mal inventado por mulheres paranoicas e carentes em busca de atenção, esse próprio argumento corrobora com a ideia de tal cultura: se um grupo de mulheres fecha uma das principais ruas da cidade para gritar por uma causa, essa causa precisa ser reconhecida, pensada e compreendida.

Quando mulheres citam uma sociedade misógina elas estão se referindo a uma sociedade que reproduz comportamentos de ódio, desprezo, repulsa e o consequente desrespeito ao gênero feminino. A misoginia acontece quando a vítima tem seu caráter e moral como mulher julgados antes dos responsáveis pelo crime. Quando uma jovem é estuprada e sua primeira preocupação, como homem ou mulher, é saber como ela estava se vestindo, como ela se comportava socialmente ou como ela chegou ao local do crime, você está sendo misógino e compactuando com a reprodução da cultura do estupro — onde o argumento costuma se basear mais no fato do agressor ter sido induzido pela própria vítima a cometer o crime e menos no posicionamento de vítima de quem sofreu a agressão. A cultura do estupro afeta mulheres de todas as idades, incluindo crianças que podem ser afetadas desde abusos silenciados pelo medo até naturalizados pelo cotidiano do que se vê e escuta. Quando propagamos e naturalizamos a dor do outro, nós estamos calando vítimas e tornando vidas infelizes sob a sombra do medo e da insegurança.

Foto: Sara Vieira/Democratize

A sororidade não está em convencer de que sinto a dor da mulher ao meu lado, mas em abrir o espaço para a minha mana de luta se sentir compreendida e respeitada. Ser flor não é entregar suas pétalas por todos os cantos, como se o amor fosse obrigação objetivada em contrato e não subjetivo do querer. Ser flor é espalhar o perfume do respeito e da compreensão, como vitamina para que a flor ao seu lado se sentir livre para entregar suas pétalas a quem bem querer e forte para fixar suas raízes.

A agência Democratize quer cultivar um jardim de flores e espalhar perfume por aí. Toda semana publicaremos depoimentos pessoais de minas de todo o país, “A culpa não é da vítima” tera o prazer de oferecer voz a todas as mulheres que quiserem mostrar as diversas faces que uma cultura misógina pode assumir. Ouvir o outro ponto de vista, em silêncio, já é um grito para a compreensão.

A culpa não é da vítima

‘’E só me envolvi com o feminismo quando entrei na faculdade, mas no colégio era como uma coisa que já me interessava, só que eu via de longe. Apesar de concordar, eu ainda não conseguia me inseri, porque eu ouvia situações especificas que não tinham ligação comigo e começa a achar que aquilo não tinha a ver com a minha realidade.

Eu passei por uma experiência ruim, quando eu tinha mais ou menos uns 10 anos, só que eu apaguei da minha memória. É estranho tentar explicar agora, mas por muito tempo eu não lembrei. Eu carregava toda a energia negativa dessa experiência, mas não lembravado fato em si. Eu só conseguia pensar na minha relação negativa comigo mesma em relação aquilo.

O ato em São Paulo | Foto: Fernando DK/Democratize

Um primo mais velho do que eu, cinco anos de diferença, um dia chegou em casa e pediu para que eu fizesse uma massagem nele. Sem esperar minha resposta, ele me colocou no colo e eu fiz a massagem. Sabe quando você está se sentindo muito mal com uma situação, mas não sabe o que é? Eu não tinha uma palavra na época para definir aquilo. Depois ele falou que iria fazer uma massagem em mim também e foi nessa hora que me bateu desespero. Minha atitude foi tirar o chiclete que estava na minha boca e colocar no meu cabelo. Então, eu comecei a dar um ataque de nervos dizendo que teria que cortar o meu cabelo. Eu cortei o cabelo, desci e comecei a chorar, fingindo que era por causa do chiclete. Isso aconteceu na casa do meu pai e depois disso eu fiquei três anos sem querer ir dormir lá. Eu não conseguia fazer a associação direta de que o fato de não querer mais ir para a casa do meu pai tinha relação com o que aconteceu naquele dia.

O machismo possui formas diferentes de se reproduzir, o machismo da elite é diferente do machismo de uma região periférica e o comportamento das mulheres também será diferente dependendo disso. A atmosfera de medo de desagradar acaba calando a gente. Se eu soubesse antes que outras meninas passavam o mesmo que eu, talvez eu tivesse menos medo de dar minha opinião. Muitas vezes nós rimos de coisas que nos machucam e as reproduzimos pelo medo da rejeição. Eu sempre achava legal dizer que eu me relacionava como um homem, que não tinha ‘frescura’ de mulher… E hoje vejo que isso é um erro, não podemos chamar de frescura algo que machuca alguém de alguma forma.

Eu já passei por outra situação que também nunca comentei por achar sem importância e idiota, mas só eu sei como eu me senti mal. Eu não gosto de sair para baladas e não bebo, costumo ficar em casa com amigos. Uma vez, após eu ter recentemente terminado um relacionado, marquei de jogar cartas com dois amigos na casa de um deles. Enquanto jogávamos, o meu amigo tentava me induzir a beber algo alcoólico, eu já sentia qual era a intenção dele. Toda vez que eu saia da sala eles faziam brincadeiras ameaçando trocar meu copo e colocar bebidas alcoólicas. No fim da noite, após o dono da casa ir dormir, esse meu amigo, que insistiu com o álcool, me beijou, assim do nada… Eu não dei nenhum sinal durante a noite toda de que ele poderia me beijar. Eu o afastei, me senti muito desconfortável e disse que não queria. Após o meu não, ele me disse para não falar nada e evitar gerar um clima chato. Não fui eu a responsável por gerar um clima desagradável, mas ele tentou fazer da situação algo que fosse minha culpa. Eu o considerava um amigo, ele sabia que eu tinha acabado de sair de um relacionamento… Um relacionamento que eu terminei pelo machismo do meu companheiro.

Você não consegue conversar com homens sobre certas situações humilhantes. Mas eu consigo compreender coisas que você passou como mulher e você provavelmente vai entender coisas que eu passei, porque de certa forma você já entende o sentimento de ser humilhada. O sentimento de se sentir sempre errada. Nos culpamos por qualquer atitude pequena, porque isso nos fará ser julgadas como “putas” e é como se perdêssemos todo o nosso valor por aquela atitude, tipo de julgamento que o homem não se preocupa quando se trata dele mesmo. Qualquer reclamação que fizermos fará de nós loucas ou chatas, não existe um respeito ao que nos atinge. Por isso nos acostumamos com o sentimento de humilhação e aceitamos conviver com ele, mesmo que nos machuque… Por medo.’’ (Luísa, 19 anos)

‘’Muito dessa fetichização e propagada por parte dos “gringos” que possuem essa imagem pré formada da mulher negra brasileira que é exportada, e “conhecida”. Esse problema, em conjunto com a objetificação das mulheres em geral nos torna alvos de predadores que, muitas vezes, se encontram dentro dos próprios relacionamentos, já que existem diferentes esferas de estupro. Abusadores que se validam de comentários como, por exemplo, ‘negras gostam de sexo’, somos máquinas sexuais… Como assim poderíamos nega-lo [sexo]?

Li comentários uma vez de um homem que falava em um tópico sobre mulheres negras no Facebook, que reproduzia exatamente esta ideia. Uma das aberturas para o estupro da mulher negras e o que eu considero mais forte e notável. Isso porque esta cultura vem de muitos séculos, quando as mulheres negras eram visadas pelos senhores de engenho por suas ‘voluptuosas características’. Infelizmente, os séculos passaram e muitos ainda nos enxergam como objetos.

Infelizmente, as mulheres negras ainda são vistas de forma objetificada pela maioria dos homens. Certa vez mencionei com uma minha amiga que sentia que somente namorava ou me relacionava com homens que tinha certa fantasia com a cor da minha pele. “Constatei” isso quando comecei a usar o Tinder e a maioria dos caras vinham falar de suas fantasias com mulheres negras.

‘Uau oi gostosa J amo as morenas e pretinhas gostosas como você.’ Chris, 29. Inglaterra’’ (Eduarda Pires, 23 anos)


Reportagem por Sara Vieira, fotojornalista da Agência Democratize no Rio de Janeiro


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By Democratize on June 2, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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