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Metade das armas dos Estados Unidos estão nas mãos de apenas 3% da população

Novo estudo aponta que 3% dos norte-americanos adultos possuem metade das armas do país. Além disso, pesquisa mostra que a sociedade norte-americana acumula uma arma por cada adulto, e que os cidadãos com maior tendência para possuir armas são homens brancos e conservadores, que vivem em zonas rurais.

Por Lois Beckett*

Os cidadãos norte-americanos possuem cerca de 265 milhões de armas, mais de uma por cada cidadão adulto, segundo o retrato mais exaustivo da propriedade de armas das duas últimas décadas. Mas o novo estudo estima que 130 milhões dessas armas são propriedade de apenas 3% dos norte-americanos adultos, um grupo que acumula uma média de 17 armas por pessoa.

O resumo dos resultados deste estudo inédito feito pelas universidades de Harvard e Northeastern, obtido em exclusividade pelo The Guardian e pelo The Trace, estima que a quantidade de armas dos norte-americanos aumentou em 70 milhões desde 1994. Ao mesmo tempo, a porcentagem de norte-americanos que possui armas baixou levemente de 25 para 22%.

Esta nova sondagem, realizada em 2015 por investigadores de saúde pública de ambas universidades, também descobriu que a proporção de mulheres proprietárias de armas aumentou, enquanto a de homens diminui. As mulheres tendem a possuir uma arma para autodefesa em maior proporção que os homens, e costumam ter só uma.

O enfoque dedicado à defesa própria das mulheres é parte de uma tendência mais ampla. Apesar de a segurança nos Estados Unidos ter aumentado consideralvemnete e dos índices de violência com armas terem caído, os revólveres passaram a ser as armas que mais se acumulam no país, o que sugere que a autodefesa é um fator cada vez mais importante.

“Trata-se do desejo de ter uma arma de fogo para se proteger. Existe algo contraditório entre isso, e as taxas de violência letal no país que estão diminuindo. Não se trata de uma resposta aos riscos atuais”, diz Matthew Miller, professor de saúde pública das universidades de Northeastern e Harvard e um dos autores do estudo.

Foto: The Trace
Foto: The Trace

Compra de armas, produto de medo

Os dados indicam que a propriedade de armas nos Estados Unidos é um produto do “aumento do medo”, diz a doutora Deborah Azrael, investigadora da Escola de Saúde Pública de Harvard e autora principal do estudo. “Se esperamos reduzir os suicídios por arma de fogo, se queremos reduzir outros perigos potenciais em torno das armas, meu instinto diz que temos que falar desse medo”, aponta.

A nova sondagem também assinala um cálculo de roubo anuais de armas muito maior: 400 mil armas roubadas por ano em comparação com as 230 mil por ano que indicava um estudo recente da National Crime Victimization Survey.

Phil Cook, um investigador da Universidade Duke e autor de um importante estudo feito em 1994 sobre a propriedade de armas nos EUA, reconheceu que o novo estudo era “de alta qualidade”. A diferença de sondagens mais frequentes realizadas pelo Pew ou pela Geral Social Survery, “que não vão além de perguntar se há uma arma de fogo em suas casas, sem que incidam no número de armas que possui cada família”, aponta. “Sem conhecer a resposta à segunda pergunta, não é possível fazer uma estimativa da reserva total de armas de fogo que há nos Estados Unidos”.

Aponta, no entanto, que “a estimativa do total nacional é menor do que alguns esperavam. Não é chamativo dizer que há 300 milhões de armas em circulação”.

Estes resultados correspondem a tendências mais comuns de alguns estudos anteriores. Inclusive quando a venda de armas atingiu valores recorde durante a administração Obama, a proporção total de norte-americanos que diziam possuir armas caiu ligeiramente, deixando mais armas em menos mãos. Ainda que exista uma estimativa que assinala que 55 milhões de americanos são proprietários de armas, muitos deles acumulam três armas de fogo, aponta o estudo.

Outro caso é o dos “super proprietários” de armas de fogo. O estudo calcula que 7,7 milhões de pessoas têm entre oito e 140 armas de fogo. Este tipo de concentração de propriedade não é apenas aplicável às armas de fogo, asseguram os investigadores. Especialistas em marketing explicam que 20% de fiéis consumidores costumam representar 80% das vendas de um produto.

Azrael acrescenta que não há nenhum estudo sobre “se possuir um grande número de armas é um fator de risco maior que possuir só algumas”. “Não sabemos nada sobre isto”, assegura a especialista. A reação imediata de Azrael sobre os resultados não é focar sobre os proprietários que possuem dúzias de armas, mas nos 50% dos cidadãos que só tem uma ou duas. “Poderíamos ter um enorme impacto sobre o suicídio se mudarmos o comportamento no que diz respeito às armas”. Perto de 20 mil das 30 mil mortes anuais por armas de fogo são suicídios.

Foto: Getty Images
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Quem tem mais armas?

Em geral, o estudo mostra que os proprietários de armas tendem a ser brancos, homens, conservadores e habitantes de zonas rurais. Cerca de 30% dos conservadores dizem ter armas, contra 19% dos moderados e 14% dos liberais. O maior indicador de propriedade de armas relaciona-se com o serviço militar. Cerca de 44% dos veteranos asseguram ter uma arma de fogo.

Também há uma clara divergência quanto a ter armas em função de diferenças raciais. Pelo menos 25% dos cidadãos brancos têm, contra 16% dos hispânicos e 14% dos afro-americanos.

A composição demográfica dos 7,7 milhões de “super proprietários” norte-americanos é menos diversa que a dos proprietários em geral. Eles costumam ser homens, não costumam ser negros ou hispânicos, e provavelmente possuem armas por proteção, dizem os investigadores. Estes representam 14% dos proprietários de armas e acumulam um total de 133 milhões de armas de fogo.

“Por que precisa de mais de um par de sapatos?”, pergunta Philip van Cleave, presidente da Liga de Defesa Cidadã de Virginia, um grupo em defesa do direito de possuir armas, que se vê como a direita política da National Rifle Association. “A verdade é que não precisa, mas quer mais de um par de sapatos? Se vai numa excursão não vai querer utilizar um sapato de salto alto”, acrescenta.

*Artigo publicado originalmente no El Diario, em colaboração com o The Guardian, com tradução de Joana Campos

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