Mesmo quando não há bombas a PM faz suas vítimas. Um fotógrafo até o momento de fechamento desta matéria seguia preso, acusado de fazer o…

“Me puxa, me puxa”, disse o manifestante ao jornalista

“Me puxa, me puxa”, disse o manifestante ao jornalistaMesmo quando não há bombas a PM faz suas vítimas. Um fotógrafo até o momento de fechamento desta matéria seguia preso, acusado de fazer o…


“Me puxa, me puxa”, disse o manifestante ao jornalista

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Mesmo quando não há bombas a PM faz suas vítimas. Um fotógrafo até o momento de fechamento desta matéria seguia preso, acusado de fazer o que este repórter não fez: interferir na ação da polícia.


Por Victor Amatucci

Kevin Carter, repórter fotográfico famoso pela foto ganhadora do Pulitzer “O menino e o Abutre”, se matou, anos depois, com depressão. Entre outras coisas, seu bilhete de despedida dizia “Estou assombrado pelas vívidas memórias de mortes e cadáveres e raiva e dor…”

Há um mito — que honestamente não interessa aqui se é real ou não — de que ele não teria ajudado o menino, teria visto o menino morrer e sua depressão teria sido fruto dessa “não-ação”.

O que importa, de verdade, é entender os limites dos valores verdadeiramente humanos e da função do jornalista. Em tese, o jornalista não deve interferir na cena que reporta ou fotografa. No papel é sempre mais fácil. É como dizer que o biólogo que salva um filhote recém-nascido de seu predador está prejudicando o meio ambiente. Fácil de entender, complicado de fazer.

No domingo último (12 de setembro) este repórter passou por uma situação bem menos dramática, mas tão problemática quanto. Ao filmar um manifestante sendo preso — sob a acusação de jogar pedras na PM (e aqui vale a ressalva de que o Democratize apurou que houve uma pedra voando na PM, mas não soubemos dizer se desse mesmo manifestante ou de outro) — sou interrompido pelo próprio ativista que pedia “me puxa, me puxa”.

Identificado como jornalista — crachá e capacete — eu tive que tomar a decisão de interferir ou não na realidade a minha frente. Ficou mais complicado seguir o manual de etiqueta do bom funcionário do jornalismo.

A opção que me pareceu menos danosa foi a de não ajudar. A polícia militar tem direcionado seu arsenal a boa parte de nós, que cobrimos as ruas. Pareceu-me que interferir naquele instante colocaria a minha vida e a de outros jornalistas em risco. A hipótese de que a PM teria carta branca para mirar nos profissionais depois de comprovado que eu ajudei uma pessoa detida a fugir foi maior do que a hipótese de que o militante ficaria em muito melhor situação caso eu ajudasse.

Mas ainda ouço a voz dele dizendo “me puxa, me puxa”. Sua cabeça sangrando e o histórico das ações injustas da PM, confesso, me fazem questionar se foi a melhor atitude a tomar. Pensei num coletivo que, se pensar bem, talvez nem exista. Mas aquele indivíduo à minha frente continua bem real.

Ele saiu correndo, logo após o final de minha filmagem. Aproveitou-se do espaço que ficou quando saí de sua frente. Pensei em sair da frente só para ajudá-lo ou estaria fugindo de tomar uma decisão? Interferi na cena? O fato é que logo após ele sair correndo um cassetete ‘escapou’ na direção da minha cabeça. O capacete chegou a ficar marcado e minutos depois um spray de pimenta, ligeiro e distraído que só ele, voou em meu olho direito. Voltei a ser alvo.

Exatamente como nas ameaças que recebi da tropa de choque por filmar Jesus sendo sequestrado. Na prática, cobrir as ruas é não poder agir como manifestante e ser tratado pela PM como criminoso. Já passam de 200 na contagem da ARFOC (Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado de São Paulo), os jornalistas agredidos pela PM. Enquanto essa matéria estava sendo escrita, Antônio, fotógrafo, continuava detido por diversas acusações. Entre elas, a de jogar pedra na polícia. A mesma polícia, que quebrou a cabeça do rapaz que pediu para ser puxado. O rapaz, segundo a PM, que atirou pedra.

Antônio, em tese, teria se colocado entre a PM e os jovens presos por “estarem de máscara na manifestação”. A PM disse isso a mim, enquanto eu gravava. O motivo inicial da prisão dos jovens era… Estarem de máscara. Mas manifestações artísticas usam máscaras. Mas manifestantes favoráveis ao impeachment usavam máscaras.

Depois a acusação virou “porte de soco inglês”. Mas os acampados na frente da FIESP tinham facas.

Mas… mas… mas.

Se o vídeo que fiz tirasse Antônio da cadeia, talvez dormisse menos intranquilo. Infelizmente a vida não é tão simples.


Victor Amatucci é repórter e jornalista pela Agência Democratize; blogueiro pelo ImprenÇa

By Democratize on September 12, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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