Em entrevista ao Democratize, a militante e líder pelos Direitos Humanos, Débora das Mães de Maio, criticou a Polícia Militar do estado de…

Mães de Maio: “Acabou com a ditadura mas não avisaram a polícia”

Mães de Maio: “Acabou com a ditadura mas não avisaram a polícia”Em entrevista ao Democratize, a militante e líder pelos Direitos Humanos, Débora das Mães de Maio, criticou a Polícia Militar do estado de…


Mães de Maio: “Acabou com a ditadura mas não avisaram a polícia”

Foto: Alice V/Democratize

Em entrevista ao Democratize, a militante e líder pelos Direitos Humanos, Débora das Mães de Maio, criticou a Polícia Militar do estado de São Paulo e avisou que mesmo no governo de Michel Temer (PMDB) as mães não devem deixar de lutar.


“Os nossos mortos têm voz”.

Uma onda de assassinatos percorreu todo o estado de São Paulo entre os dias 12 e 16 de maio de 2006, caso que ficou conhecido como os “crimes de maio”. Pelo menos 564 pessoas morreram durante a guerra entre a Polícia Militar e a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Foram 505 civis e 59 agentes policiais assassinados.

Dos 505 civis mortos, 118 foram assassinados em confronto com a polícia, 50 foram vítimas de execução sumária individual, 35 de execução sumária por grupo não encapuzado, 53 por grupo encapuzado, 4 foram executados sumariamente por policiais, 10 morreram em ataques a delegacias, 6 em conflitos interindividual, 2 em acidente ou bala perdida, 21 por “outros motivos” e 206 por razões desconhecidas.

A maioria dos agentes públicos foi morta nos dias 12 e 13 de maio: 10 no dia 12; 23 no dia 13; e 8 no dia 14 de maio de 2006. Já a maioria dos civis foi assassinada entre os dias 14 e 17. O dia mais crítico foi o domingo (14), Dia das Mães, quando 107 morreram. No dia 15, foram mortos 84 civis; no dia 16, outros 75; e no dia 17, mais 65. “Esse quadro reforça a suspeita de que houve uma represália às ações do PCC, uma vez que a maior parte dos civis morreu nos dias seguintes”, afirmou o sociólogo Ignácio Cano ao jornal “O Estado de S.Paulo” assim que o estudo foi divulgado. A partir daquele Dia das Mães, para cada agente morto, havia 10 civis assassinados. No dia 17 , essa proporção duplicou.

Filho de Débora da Silva, o gari Edson Rogério Silva dos Santos, de 29 anos, havia passado na casa da mãe para buscar um remédio. Por causa do toque de recolher, não havia farmácias abertas na região. No dia seguinte, Débora soube, escutando o rádio, que tinha havido uma chacina naquela noite, com 16 pessoas assassinadas.

O nome de Edson estava na relação de mortos informada naquele noticiário de rádio. O rapaz tinha sido abordado às 23h30, na volta para casa, no morro da Nova Cintra, periferia de Santos, por homens encapuzados que o mataram com um tiro no coração e dois no pulmão.

Com o crime, Débora entrou em depressão e foi internada. No hospital, conta ter visto o filho. “Ali, ele me deu uma tarefa: seguir meu caminho e não abaixar a cabeça para o Estado.”

Ao receber alta, Débora resolveu procurar mães que tiveram filhos assassinados naquela semana de maio.

Foto: Alice V/Democratize

Hoje, as Mães de Maio representam o máximo significado de resistência contra um sistema que parece não ter se desfeito de uma herança perigosa da ditadura: a própria polícia.

Atuante de forma repressora e politicamente questionável, a Polícia Militar do estado de São Paulo é o principal alvo dos protestos das Mães de Maio.

Nesta sexta-feira (13), ocorreu o ato chamado Cordão da Mentira, com milhares de pessoas presentes.

A caminhada começou na frente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo de São Francisco. A primeira parada dessa caminhada, promovida pelo movimento Mães de Maio, criado por mães que perderam seus filhos nos ataques de 2006, será em frente à sede da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), onde elas relembraram os mortos e cobraram Justiça.

Em entrevista ao Democratize, Débora citou o prêmio que recebeu das mãos do então Ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, o advogado José Eduardo Cardozo, pela sua luta em busca de direitos humanos. Disse que olhou nos olhos de Dilma, afirmando que “a ditadura não acabou”, por conta da existência de uma polícia militarizada ainda nos dias de hoje.

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Outro ponto que foi lembrado por Débora foi o tratamento dado pelo governo de São Paulo contra os secundaristas.

Naquela mesma sexta-feira (13), pelo menos 54 estudantes haviam sido presos no período da manhã de forma ilegal, quando a Polícia Militar havia invadido três prédios ocupados pelos secundaristas sem mandado judicial — ação defendida pelo governador tucano Geraldo Alckmin.

Para a mãe e ativista, a ação da polícia é similar ao que foi feito com seu filho: truculenta e autoritária, sem espaço para questionamentos e diálogo.

Posteriormente, uma manifestação pela liberdade dos estudantes presos que percorria a Avenida Paulista no começo da tarde, acabou se encontrando com o Cordão da Mentira nas ruas do Centro, unificando a luta.

Foto: Reinaldo Meneguim/Democratize

Questionada sobre o novo governo em Brasília, comandado de forma interina por Michel Temer (PMDB), Débora diz que as Mães de Maio não devem parar: “Em São Paulo as Mães de Maio é lei”, disse.

Defendeu que a atuação da organização pelos direitos humanos deve ainda se fortalecer diante de um novo governo com caráter mais repressivo do que o anterior, de Dilma Rousseff. Vale lembrar que o novo Ministro da Justiça do governo federal é nada menos que o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes.

Moraes ficou reconhecido pela sua brutalidade contra manifestações populares e principalmente contra os secundaristas.

Veja mais fotos do Cordão da Mentira abaixo.

Foto: Alice V/DemocratizeFotos: Felipe Malavasi/DemocratizeFoto: Reinaldo Meneguim/Democratize

By Democratize on May 15, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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