SP - 21/07/2016 - ISTOE - GURUS, LEANDRO KARNAL. HISTORIADOR, FILOSOFO E PROFESSOR DA UNICAMP - FOTO: FELIPE GABRIEL

Karnal, eles não sabem o que dizem

“Longe de ser um intelectual”, escreveu o professor Luis Felipe Miguel, da UnB, sobre o historiador Leandro Karnal após seu encontro com o juiz Sérgio Moro. E assim, desmerecendo visões diferentes, com esculachos e textões nas redes sociais, a esquerda vai se fechando cada vez mais em uma bolha que não parece ter volta: falamos para a mesma plateia todos os dias, e ela não cresce.

Enquanto escrevo esse texto, me pego imaginando a reação de colegas da esquerda sobre as palavras que virão. “Francisco, um reacionário”, ou “aquele jornalista revisionista, centrista”.

Por sorte na vida, tenho amigos com os mais diversos e amplos pensamentos ideológicos, econômicos e sociais. De liberais oldschool até amantes do keynesianismo, ou os mais puros marxistas e anarquistas. E apesar das discussões, uma cerveja resolve tudo depois. Pronto, amizade pura.

Mas para alguns – e me arrisco em dizer que é a maioria da esquerda-social-media-brasileira – o fato do historiador Leandro Karnal ter como amigos pessoas iguais a Luiz Felipe Pondé é imperdoável. Pior do que isso: jantou ao lado do juiz Sérgio Moro, figura política controversa, um “golpista” adorado por manifestantes de verde e amarelo. E ainda tirou foto. Calma, piora: depois publicou no Facebook!

Pronto, começou o esculacho.

“Eu sempre soube que ele era um golpista, uma farsa”, escrevem nas redes sociais. Disso pra pior. Pessoas questionando a inteligência de Karnal, um dos pensadores mais importantes do cenário político brasileiro atual – e acreditem, nós definitivamente precisamos de pessoas como Karnal nos dias de hoje. Tudo por causa de uma foto, que o próprio não fez questão de esconder. Pelo contrário, publicou em sua página.

O professor Luis Felipe Miguel, da UnB e coordenador do Demodê (Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades), postou em seu perfil (posteriormente republicado por páginas com nível de jornalismo questionável como Brasil 247): “[sobre Karnal] gente inteligente, sem dúvida, mas com muito mais ego do que convicções e um senso de oportunidade alerta demais”.

E assim, com o ego ferido, a esquerda se fecha novamente em sua bolha, atirando para todos os lados contra Karnal. Acusações, suposições, tentativas frustradas de destruir uma reputação que vai além de textões muito bem escritos – as vezes até complexos demais, afinal pra entender precisa fazer parte da nossa bolha.

Imagino: e se essa esquerda, tão apaixonada e cheia de razão, que despreza tanto o diálogo a ponto de permitir que os conservadores evangélicos tenham conquistado a periferia, tivesse tido a mesma postura dizendo não para um político desprezível como Michel Temer assumindo a vice-presidência de um governo petista, comandado pela primeira mulher a ocupar o cargo mais importante do país?

O que derrubou o Partido dos Trabalhadores não foi uma mega-conspiração internacional.

O que derrubou o Partido dos Trabalhadores foi o declínio de uma política de alianças questionáveis com os piores setores da sociedade – setores que continuam no poder mesmo após sua queda, porque eles sempre estiveram lá, e graças a negligência dos governos de esquerda nos últimos anos, eles continuarão por muito tempo ainda. São os ruralistas, a Bancada da Bala e do Boi, os conservadores ultra-religiosos que foram alimentados na última década de petismo.

Foi Sergio Cabral no Rio de Janeiro, o renascimento do PMDB no grande cenário político brasileiro promovido por Lula.

Imaginem toda essa indignação com Karnal, por um simples jantar com Moro, aplicada em ações muito mais graves cometidas por quem governou esse país nos últimos anos. Lula e Cabral, Dilma e Temer, Lula e Crivella, Dilma e Katia Abreu… sem mencionar os banqueiros, a FIFA, a desordem social causada pela repressão com aval do petismo em 2013 e suas consequências.

Em 2014 e 2016 falamos tanto sobre vivermos em uma bolha… que, em determinado momento após o impeachment e a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, realmente pensei que as coisas mudariam. A esquerda voltaria para o trabalho de base, com o diálogo direto nas fábricas, com os trabalhadores autônomos, nas comunidades e escolas públicas. Mas não. Nossa ignorância de nos acharmos superiores intelectualmente aos outros continua. A geração textão não vai perder sua plateia – mesmo que ela nunca saia daquela bolha.

Autor do livro “A Detração: Breve Ensaio sobre o Maldizer”, Leandro Karnal já deve estar acostumado. Mas mesmo assim vale:

Fico meu pedido de desculpas. Já dizia Criolo – as pessoas não são más, elas só estão perdidas.

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