O jornal PÚBLICO, um dos mais lidos de Portugal, comentou sobre o fato do deputado federal Jean Wyllys (PSOL) ser o único assumidamente gay…

Jornal português estampa: “a solidão de Jean Wyllys num país homofóbico”

Jornal português estampa: “a solidão de Jean Wyllys num país homofóbico”O jornal PÚBLICO, um dos mais lidos de Portugal, comentou sobre o fato do deputado federal Jean Wyllys (PSOL) ser o único assumidamente gay…


Jornal português estampa: “a solidão de Jean Wyllys num país homofóbico”

Foto: Francisco Toledo/Democratize

O jornal PÚBLICO, um dos mais lidos de Portugal, comentou sobre o fato do deputado federal Jean Wyllys (PSOL) ser o único assumidamente gay dentro de um Congresso considerado o mais conservador da história.


A trajetória política do deputado federal Jean Wyllys (PSOL) continua sendo algo amplamento debatido — dentro e fora do Brasil. Talvez pelo fato de ser hoje no Congresso Nacional o único deputado assumidamente homossexual, dentro de uma Casa conhecida pela sua política de retrocessos e homofobia, onde um personagem como o Pastor Marco Feliciano (deputado do PSC) já foi presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Recentemente, o jornal PÚBLICO de Portugal, um dos mais lidos do país, conversou com Wyllys. Veja a reportagem.


“Amada, já te atendo, ‘tá bom?”

Os minutos de espera são usados para pensar em qual outro deputado do país (qualquer país) a) chamaria “amada” a uma desconhecida ; b) e soasse genuíno ao fazê-lo.

O deputado se chama Jean Wyllys, usa jeans e um casaco de couro, o cabelo escuro e encaracolado lhe dá um certo ar de Jon Snow, o herói de Game of Thrones. Há uns anos o Guardian descreveu-o como “um dos políticos mais pós-modernos”, presumivelmente não só do Brasil mas do mundo. Nos últimos meses, quando o Congresso brasileiro votou a favor do impeachment da Presidente Dilma Rousseff, o país e o mundo viram com horror do que era feita a classe política em Brasília: ultra-religiosos, caciques rurais, suspeitos de corrupção, gente sem carisma, um palhaço de circo (Tiririca, que foi o deputado mais votado em 2010) e elogiadores da ditadura militar. Foi um show retrógrado — democrático na aparência, mas não no espírito.

Jean Wyllys não se parece com os seus pares. É o único deputado assumidamente gay num Congresso que é considerado o mais conservador de todos os tempos, graças ao crescimento da bancada evangélica. Apesar da sua grande popularidade entre um eleitorado jovem e urbano, parece quase sempre um combatente solitário.

“A minha simples presença num Congresso em que não há outros homossexuais assumidos causa um incômodo em pessoas que colocam os homossexuais numa posição subalterna. Para a mentalidade e o imaginário dessas pessoas, os homossexuais podem, no máximo, ser artistas. Jamais ser uma autoridade da República, jamais ser um representante eleito”, diz o deputado de 42 anos no seu gabinete no Rio de Janeiro, habitado por um staff jovem e diverso. Eleito pela primeira vez em 2010, Wyllys diz que teve de conquistar o respeito dos outros congressistas porque “as piadas homofóbicas multiplicavam-se pelos corredores”.

Foto: Gabriel Soares/Democratize

“Se eu fosse uma caricatura do homossexual — o estereótipo da bicha louca, risível, afetada -, se eu fosse o cara que usasse um fato colorido, eu não seria um problema. Antes de mim, nós tivemos um homossexual assumido na Câmara dos Deputados, Clodovil Hernandes. Que era um estilista, um cara que ganhou notoriedade porque desenhava vestidos de noivas num programa chamado TV Mulher. Ele estava dentro do que a sociedade da dominação masculina reservou como universo feminino: o espaço privado, das tarefas domésticas, da moda, das artes. Se eu correspondesse a essa caricatura, eu não seria tão combatido. Porque Clodovil não era combatido. Ao contrário, a figura dele é hoje evocada pelos conservadores e pela direita brasileira para comparar com a minha imagem. Homossexual de verdade, para eles, é aquele que, quando expressa publicamente a sua homossexualidade, é para servir ao riso, ao deboche, não para reivindicar a igualdade, não para reivindicar orgulho.” Ao contrário de Jean Wyllys, Clodovil Hernandes nunca incluiu os direitos LGBT (Lésbica, Gay, Bissexual e Transsexual) na sua agenda política. Era contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra paradas de orgulho gay. O seu mandato foi curto: eleito em 2007, morreu dois anos depois, vítima de um AVC.

“Se você convive com homossexuais que estão em salão de beleza ou com homossexuais que são artistas, você tende a achar que homossexuais não querem o lugar da política. Não querem as grandes corporações, não querem ser executivos. Não é verdade, a gente quer, sim”, diz Jean Wyllys.

Reeleito em 2014, com dez vezes mais votos do que na primeira eleição, Wyllys recebeu três vezes o título de melhor deputado do Brasil por votação do público. Em 2015, os leitores da revista The Economist colocaram-no entre as 50 personalidades mundiais que mais contribuem para a diversidade, entre Barack e Michelle Obama, Bill Gates, Angelina Jolie ou a jovem ativista paquistanesa Malala Yousufzai. Wyllys representa uma face moderna e cosmopolita do Brasil que o resto do mundo nem sempre tem oportunidade de ver porque o conservadorismo é simplesmente maioritário. Orgulha-se de ser o único dos 513 deputados que tem um conselho social — um grupo da sociedade civil com o qual se reúne de dois em dois meses para prestar contas, debater a sua agenda legislativa e avaliar a sua atuação no Congresso. “Eu faço algo que o seu conterrâneo Boaventura de Sousa Santos, que eu admiro muito, chama de ‘democracia de alta intensidade’”, diz, com um largo sorriso.


Reportagem por Kathleen Gomes, do PÚBLICO

By Democratize on June 27, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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