Com tiragem de mais de 2 milhões de exemplares, impressos desafiam a crise do papel e discutem política nos bairros de São Paulo. Da…

Jornais de bairro de São Paulo fazem campanha pró-impeachment

Jornais de bairro de São Paulo fazem campanha pró-impeachmentCom tiragem de mais de 2 milhões de exemplares, impressos desafiam a crise do papel e discutem política nos bairros de São Paulo. Da…


Jornais de bairro de São Paulo fazem campanha pró-impeachment

Foto: Felipe Malavasi/Democratize

Com tiragem de mais de 2 milhões de exemplares, impressos desafiam a crise do papel e discutem política nos bairros de São Paulo. Da amostra analisada para este artigo quase metade declara apoio ao impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Por Luiza Giovancarli

Com o advento da internet a indústria da comunicação vem precisando se reinventar a cada instante. A situação parece mais dramática para o jornalismo impresso: tanto no senso comum quanto para pesquisadores da área, o seu fim está cada vez mais próximo. Os motivos são tanto a crise no setor dos jornais impressos, já afirmada desde os anos 1980 por conta do preço do papel quanto a chegada da internet.

No entanto, um fenômeno brasileiro vem contrariando essa ideia: são os jornais de bairro, também conhecidos como mídia local. No geral, são jornais com distribuição gratuita, tiragem menor que 100 mil exemplares, com conteúdo principalmente local e cultural. Na cidade de São Paulo podemos encontrar cerca de 81 jornais considerados jornais locais ou de bairro. Destes, 50,8% são semanais, 31,1% são quinzenais e 18% são mensais.

Os jornais tendem a copiar o modelo dos grandes meios de comunicação, com profissionais contratados e sede própria. 29 jornais são produzidos por 9 grupos empresariais, que dessa forma atraem mais dinheiro da publicidade. Aparentemente, porém, os jornais de bairro não têm chamado tanta a atenção, em meio a tantas novidades tecnológicas.

Por certo, alguns destes periódicos pecam na qualidade do texto jornalístico, na questão gráfica e na criatividade das matérias. Porém, com uma tiragem que no total soma-se a mais de 2 milhões de exemplares só em São Paulo e distribuição gratuita, longe de ser apenas um repositório de matérias frias e pagas, os jornais locais têm sido um instrumento de discussão politica, com valores conservadores. Principalmente nas periferias, onde o acesso a internet ainda é restrito, o jornal impresso vem encontrando seu espaço. Na cidade, segundo censo do IBGE realizado em 2010, existem cerca de 3 milhões e 400 mil domicílios particulares. Isso significa que os jornais de bairro devem atingir dois terços das casas da cidade de São Paulo. Para uma comparação, o jornal Folha de S. Paulo, com custo de R$ 3,50 e cuja circulação é a maior da cidade, tem uma tiragem média de 320 mil exemplares no Brasil inteiro.

A partir de uma amostra com 34 jornais analisados, somando ao todo 102 edições do período de março de 2016, chama a atenção a discussão sobre impeachment, que aparece tanto no editorial quanto em colunas e reportagens. 44,1% dos jornais tratavam sobre o assunto, enquanto 38,2% dos jornais não mencionavam diretamente o impeachment, mas discutiam o governo nacional. No total, 82,3% dos jornais analisados discutiram política.

Em sua maioria, o tom era declaradamente a favor do impeachment. Os que não se posicionaram claramente, emitiram opiniões entusiasmadas em relação ao ato do dia 13 de março, manifestação organizada contra a corrupção e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Palavras como “corrupção”, “impunidade” e “bandidagem” aparecem diversas vezes, em vários jornais, associadas ao governo do PT.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Na Folha Noroeste, jornal quinzenal cuja tiragem é de 90 mil exemplares e distribuição nos bairros de Lapa, Pirituba e Freguesia do Ó o editorial dizia: “Você foi? Na segunda-feira, pós-manifestação na avenida Paulista, essa era a pergunta na vizinhança e no trabalho. Nas redes sociais não precisava perguntar, afinal de contas, as fotos já estavam postadas (…)”.

Na Folha VP Online, da Vila Prudente, Rogério Chequer, líder do Movimento Vem pra Rua chamou a população para o ato do dia 13 de março. O jornal tem tiragem de 48 mil exemplares semanais.

Na Gazeta da Z. Leste, com tiragem de 71.500 exemplares semanais as colunas davam o tom a favor do impeachment: Sérgio Murilo Mendes escreveu: “a situação é tão calamitosa que até o jornal “The Economist” pediu a saída de Dilma (…) O povo já deu vários recados nas ruas. Portanto, é hora de assumir os erros e deixar que outros possam conduzir o país a um rumo diferente”. Em outra coluna, Sérgio Carreiro de Teves conclamou a população: vamos continuar nas ruas, pois elas farão mudar os rumos deste país e está em suas mãos.

Com uma grande chamada em cores verde e amarelo, o jornal Acontece Agora, distribuído em São Miguel Paulista anunciou o “maior protesto nacional contra o governo Dilma”. A publicação é quinzenal e tem tiragem de 40 mil exemplares.

O tom em relação ao governo petista é de desagrado e ódio. Termos como “petralhas”, “parasitas do PT” são utilizados nas críticas. O jornal Itaquera em notícias afirma em editorial que “o Brasil experimentou desse veneno socialista. A farra está acabando” e acusa o governo de camuflar o socialismo marxista em sua gestão. O veículo tem tiragem de 20 mil exemplares semanais.

Por preocupar-se essencialmente com um conteúdo local, como problemas de infraestrutura do bairro, eventos e política local — assuntos que não têm espaço nos grandes veículos — estes jornais acabam trabalhando com pautas de maior interesse dos moradores dos bairros. Além disso, aproveitam o espaço para discutir assuntos da política nacional, afirmando sua posição em editorial ou abrindo espaço para colunistas. Desta forma, os jornais de bairro, que muitas vezes não atingem princípios e critérios jornalísticos básicos, podem cumprir um papel mais relevante do que os grandes jornais de São Paulo.


Reportagem por Luiza Giovancarli, jornalista e mestranda na Universidade de São Paulo

By Democratize on April 22, 2016.

Exported from Medium on September 23, 2016.

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