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João Doria é o Trump paulista? Três motivos que explicam a comparação

É possível explicar o “fenômeno Doria” a partir de uma comparação com outro “fenômeno”: o republicano Donald Trump. Ambos empresários, representam a mesma parcela da população a qual fazem parte — os 1% — e mesmo assim atraem o voto do eleitor despolitizado, insatisfeito com a classe política.

A insatisfação da sociedade em geral contra a classe política não é uma exclusividade do Brasil.

Trata-se de algo em larga escala, que atinge até o soberano Estados Unidos da América, onde a classe média ainda se sente abandonada por políticas públicas que tragam de volta o velho “sonho americano”, do consumo até a qualidade de vida.

O chamado cidadão comum não se sente representado pelos políticos como conhecemos. Casos de corrupção, subordinação da classe política aos interesses de multinacionais, falta de diálogo com a sociedade sobre projetos que interferem diretamente no dia-a-dia das comunidades… São vários os motivos.

Assim como nos Estados Unidos, no Brasil nasceu uma onda de revoltas sobre isso. Em 2011, o movimento Occupy surgiu denunciando a responsabilidade dos políticos e dos grandes empresários sobre a crise econômica de 2008, além de questionar a legitimidade de um sistema democrático que continua segregando as classes mais pobres. Pouco tempo depois, surgiu o Tea Party, grupo de extrema-direita que vende a imagem de ser um movimento outsider, ou seja, algo que não veio da política tradicional.

Porém, as ideias defendidas pelo Tea Party já são velhas conhecidas. O velho liberalismo do estado mínimo na economia, e a velha intervenção do Estado quando o assunto é a liberdade individual de escolha, seja ela sexual ou ideológica.

Já no Brasil, o questionamento sobre a classe política se tornou foco nos protestos de 2013. Poucos anos depois, novamente, a extrema-direita soube se organizar e vender uma nova imagem: mais jovem, mais descolada da classe política, porém defendendo aquelas velhas ideias.

Até o momento ambos conseguiram seus objetivos.

Nos Estados Unidos, o republicano Donald Trump bate de frente com a democrata Hillary Clinton para a presidência do país. Em São Paulo, o empresário João Doria passou por cima de toda a base tradicional do PSDB na cidade, e hoje é o favorito nas pesquisas para a prefeitura da capital.

Mas afinal, quais são as semelhanças mais determinantes entre os dois candidatos?

1. Voto de desespero

Tanto João Doria quanto Donald Trump representam aquilo que é conhecido como “voto de desespero”.

Como dito acima, a insatisfação com a classe política é generalizada. Em uma sociedade onde o privado é visto como responsável e o público como degenerado, era de se esperar que empresários supostamente “bem-sucedidos” fossem vistos como uma espécie de salvação caso entrassem na política.

Em São Paulo, por exemplo: os candidatos dos partidos com maior expressão (PT, PMDB, PRB e PSOL) já são velhos conhecidos do eleitorado. Enquanto Fernando Haddad é o atual prefeito, Marta Suplicy já foi prefeita da capital, ministra e senadora. Já Celso Russomanno, além de deputado federal, é conhecido por seu trabalho na televisão. O mesmo vale para Luiza Erundina, também ex-prefeita e atual deputada federal pelo estado.

De fato, poderíamos aplicar a mesma lógica de Doria para Russomanno: um outsider. Isso se não fosse pelo seu histórico polêmico na política, com casos não explicados de corrupção e abuso de poder.

No final das contas, é isso o que acontece quando você acaba elegendo um outsider: de primeira vista, parece ser uma pessoa confiável. Russomanno aparece na televisão defendendo os direitos dos consumidores. Já Doria é o empresário bem-sucedido que, rico, não teria de cair na armadilha da corrupção. Porém não é assim que funciona. A impopularidade de Russomanno é apenas o resultado de suas ações questionáveis na carreira política, criada através da mesma base hoje utilizada por Doria.

No desespero, o eleitor acaba elegendo um outsider por acreditar que aquela pessoa não faz parte da convivência política. Mas a partir do momento em que ele assume um cargo público, a história é diferente.

O outsider é aquela solução fácil vendida pelo empresariado e pela própria classe política, para “resolver” a insatisfação da população. Com isso, a sociedade perde o interesse por soluções a longo prazo que seriam muito mais práticas e bem-sucedidas do que eleger um Donald Trump ou um João Doria — como é o caso da tão esperada Reforma Política.

Foto: Vanity Fair
Foto: Vanity Fair

2. Da elite pela elite

Tanto Trump quanto Doria são criações políticas de uma pequena parcela da população que controla mais de 80% da economia.

De forma alguma representam qualquer motivação de “mudança”, como afirmam ser. Pelo contrário. São financiados e promovidos por quem já vive no topo. Portanto, qual o sentido desse setor da sociedade querer alguma forma de mudança na política e na economia, se vivem hoje no seu ápice?

Mesmo assim, ambos conseguem uma parcela considerável de apoio da classe média e da classe C.

Isso ocorre porque a sociedade hoje não se sente representada pelos políticos tradicionais. Tanto lá como cá, o trabalhador comum já não conta com o mesmo poder de consumo, e não consegue se enxergar no futuro com uma melhor qualidade de vida. Impostos, imigração, violência e qualquer aspecto público se tornam motivo de descrença e ódio generalizado. E isso ocorre, claro, por causa de um bombardeio diário dos meios de comunicação — que não por acaso, são controlados por quem justamente quer pessoas como Trump e Doria no poder.

Como influenciar o trabalhador a ficar indignado com aquilo que, de alguma forma, consegue brecar um crescimento ainda maior do setor mais favorecido da sociedade? Alienação midiática. Depois, a solução fácil: Doria e Trump.
3. Nem o próprio partido defende a campanha

Muitos republicanos criticam a candidatura de Donald Trump nos Estados Unidos, pelo mesmo defender ideias absurdas e tão radicais que nem a própria direita consegue tolerar facilmente. De alguma forma, o mesmo vale para o PSDB e João Doria.

Logo na sua pré-campanha, muitos criticavam a ideia de ter uma pessoa como Doria sendo o candidato do partido para a prefeitura de São Paulo. A polêmica causou a saída de Andrea Matarazzo do PSDB, uma das figuras mais importantes do partido na cidade. Muita briga interna e até mesmo troca de socos aconteceram.

Recentemente, foi a vez de Alberto Goldman, ex-governador e ex-ministro, criticar a candidatura de João Doria. Figura histórica do PSDB, Goldman é um dos fundadores do partido.

Em seu blog, Goldman diz que é “preciso colocar sobre ele [Doria] uma lupa para que se conheça melhor sua história e seu caráter e saber se o eleitor paulistano deve arriscar seu voto para um mandato de 4 anos na principal cidade do Brasil”.

E continua: “Doria diz não ser político, mas administrador, empresário. Não é verdade. Ele mesmo se vangloria em ter sido presidente da Paulistur, no governo Mario Covas, e presidente da Embratur, no governo José Sarney, ambas empresas estatais da área do Turismo. Seu material de propaganda divulga que foi coordenador da campanha “Diretas Já”, o que também não é verdade. Exerceu cargos políticos, remunerados, profissionalmente”, diz o ex-governador de São Paulo.

Sobre o fato de ser empresário e isso supostamente qualificar Doria para o cargo de prefeito, Goldman ataca: “administrar recursos públicos em benefício do povo é uma atividade bem diferente de administrar recursos privados para benefício próprio”. Leia aqui na íntegra.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize
Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

O fato é que vivemos tempos arriscados.

Colocar João Doria no segundo turno já parece algo provável, faltando poucos dias para as eleições. Com uma campanha financeiramente saudável, e com maior tempo do que os demais candidatos, já era esperado que isso ocorresse.

Porém, é preciso um candidato ou uma candidata que dispute cara-a-cara com Doria no segundo turno. Russomanno representa exatamente o mesmo perfil de João Doria, porém algo que seria sua imagem do futuro caso eleito. Marta Suplicy pode ser vista como uma opção para os desesperados, mas não é o suficiente.

Apesar das críticas, o atual prefeito Fernando Haddad tem feito um trabalho louvável em comparação com os gestores anteriores. E apesar do pouco tempo de propaganda e da falta de verba para a campanha, a deputada Luiza Erundina ainda é a opção de esquerda para a prefeitura.

É preciso colocar Erundina ou Haddad no segundo turno, para evitar um desastre — que já se confirma cada vez mais nos Estados Unidos.

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